{"id":2684,"date":"2011-05-30T13:26:31","date_gmt":"2011-05-30T16:26:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2684"},"modified":"2011-05-30T13:26:31","modified_gmt":"2011-05-30T16:26:31","slug":"a-eterna-caca-a-geronimo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-eterna-caca-a-geronimo","title":{"rendered":"A ETERNA CA\u00c7A A GERONIMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Por que a opera\u00e7\u00e3o de guerra que matou Bin Laden foi batizada de Geronimo? Talvez porque o her\u00f3i apache n\u00e3o foi derrotado no campo de batalha, for\u00e7ou um acordo com o Ex\u00e9rcito americano, que n\u00e3o conseguiu mat\u00e1-lo no front. Era preciso venc\u00ea-lo mais uma vez, ou de uma vez por todas. \u00c1rabe, ind\u00edgena, para os americanos \u00e9 tudo a mesma coisa: s\u00e3o os inimigos que merecem o exterm\u00ednio. O certo \u00e9 invadir um pa\u00eds estrangeiro \u2013 M\u00e9xico, no caso do \u00edndio, Paquist\u00e3o, no caso do terrorista \u2013 e dar-lhe um tiro. Mas a lenda do guerreiro que obrigou o governo dos EUA a negociar para depois trair o trato e humilhar o chefe continua viva. N\u00e3o se perde a oportunidade de destrui-la. Mesmo que Bin Laden, apesar de ser um personagem oposto ao de Geronimo, sem dignidade nem carisma, tamb\u00e9m acabe virando mito,pelo menos para algumas tribos \u00e9tnicas ou religiosas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas filmes, que seu saiba, sobre Geronimo, um de 1939, de Paul Sloane, que n\u00e3o vi. Mas vi os outros: o de 1962 , de Arnold Laven, e o de 1993, de Walter Hill (Geronimo, uma lenda americana), com roteiro de John Milius. O dos anos 60 tem mais ritmo narrativo e coloca Geronimo como um vencedor, pois imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es por meio da resist\u00eancia. Mesmo tendo no roteiro o personagem militar que condena o massacre, peca pelos olhos azuis de Chuck Connors, o ex-jogador de basquete que fez o papel na for\u00e7a f\u00edsica dos seus 40 anos. O dos anos 90, apesar de intensificar o tributo ao politicamente correto (com atores falando em l\u00edngua nativa, por exemplo) \u00e9 um desperd\u00edcio de talentos. Juntar o roteirista de Coppola e George Lucas, e trabalhar com atores de primeira grandeza como Robert Duvall, Gene Hackman e o emergente e promissor (na \u00e9poca) Matt Damon tinha tudo para dar certo. Mas o filme n\u00e3o \u201cpega\u201d.<\/p>\n<p>Lembro que nas sess\u00f5es juvenis de cinema na minha terra odi\u00e1vamos quando o filme era narrado. Em A Lenda Americana, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 narrada quase o tempo todo, o que distancia o filme do espectador. A hist\u00f3ria fica pertencendo \u00e0 voz que tudo v\u00ea e sabe e n\u00e3o a n\u00f3s, que dever\u00edamos costurar as cenas por nossa conta. Um narrador onipresente tira o encanto de uma leitura ao vivo, enquanto dura a sess\u00e3o. Fica tudo entregue ao jovem tenente que vai dizendo como a coisa funciona. Chato. O nativo americano Wes Studi (na foto acima), que trabalhou em Dan\u00e7a com os Lobos e O \u00daltimo dos Moicanos, est\u00e1 perfeito no papel: grave, concentrado, duro. Mas n\u00e3o salva o filme. A derrota total do seu personagem (o que n\u00e3o acontece na vers\u00e3o anterior de 1962) carrega demais o que deveria se destacar, que \u00e9 o perfil de um mito.<\/p>\n<p>O cinema n\u00e3o pode ter a pretens\u00e3o de ser realidade, mesmo que Godard sapateie em seus filmes sobre isso. \u00c9 melhor se entregar \u00e0 mitologia, mas o desafio \u00e9 n\u00e3o deixar que ela se transforme em mitifica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 diferen\u00e7a. Voc\u00ea pincela a lenda sem cair no ramerr\u00e3o reacion\u00e1rio ou correto. J\u00e1 existe carga suficiente em todas as produ\u00e7\u00f5es americanas, que n\u00e3o admitem defec\u00e7\u00f5es. Todo filme dos EUA \u00e9 a favor do pa\u00eds, mesmo que esteja fazendo den\u00fancia. Se aponta erros, essa culpa recai sobre algum malvado. No fim, o mocinho salva a p\u00e1tria. N\u00e3o \u00e9 preciso, portanto, carregar ainda mais na celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A justificativa da ca\u00e7ada fica a cargo do ator Jason Patric no papel do tenente bem intencionado, em que Geronimo confia: \u201cEstamos fazendo um pa\u00eds\u201d, diz ele para Damon. \u201c\u00c9 dif\u00edcil\u201d. Ele acaba derrotado e \u00e9 enviado para um posto remoto e obscuro. O narrador deixa a carreira militar e o chefe \u00edndio parte para o ex\u00edlio na Florida com o resto de seus guerreiros desarmados. Talvez tenha sido uma maneira de matar o mito, pelo cinema. Mas uma lenda dessas, de resist\u00eancia suicida, n\u00e3o morre nem com mil tentativas. Sempre haver\u00e1 algu\u00e9m que, ao se decidir por um feito her\u00f3ico, gritar\u00e1: Geronimoooo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Por que a opera\u00e7\u00e3o de guerra que matou Bin Laden foi batizada de Geronimo? Talvez porque o her\u00f3i apache n\u00e3o foi derrotado no campo de batalha, for\u00e7ou um acordo com o Ex\u00e9rcito americano, que n\u00e3o conseguiu mat\u00e1-lo no front. 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