{"id":2689,"date":"2011-05-30T13:29:27","date_gmt":"2011-05-30T16:29:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2689"},"modified":"2011-05-30T13:29:27","modified_gmt":"2011-05-30T16:29:27","slug":"copy-desk-o-anonimo-editor-de-texto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/copy-desk-o-anonimo-editor-de-texto","title":{"rendered":"COPY DESK, O AN\u00d4NIMO EDITOR DE TEXTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Fui copy a vida inteira. Chamava-se redator, uma fun\u00e7\u00e3o que sumiu na imprensa. Cheg\u00e1vamos mais tarde e sa\u00edamos por \u00faltimo, junto com o editor. Receb\u00edamos os textos, copidesc\u00e1vamos, faz\u00edamos o fechamento, como t\u00edtulos, olhos, legendas etc. Hoje rep\u00f3rter faz tudo isso. A terceiriza\u00e7\u00e3o desses encargos liberava a reportagem da chatice de acertar o n\u00famero exato de toques de um t\u00edtulo sem cair no ramerr\u00e3o muito comum hoje, de usar &#8220;diz que&#8221; ou verbos esdr\u00faxulos como mirar (mira \u00e9 curto, aparentemente resolve, mas fica estranho). Um bom copy \u00e9 obrigatoriamente criativo, al\u00e9m de competente, e o primeiro a ler a mat\u00e9ria, o amigo dos leitores do jornal ou revista.<\/p>\n<p>Os copys eram an\u00f4nimos para o grande p\u00fablico, s\u00f3 conhecidos e valorizados no meio jornal\u00edstico. Chamavam um bom copy de \u201cputa texto\u201d, que extra\u00eda maravilhas de uma ma\u00e7aroca de dados. Grandes copys ficam na Hist\u00f3ria, como o legend\u00e1rio Miltainho, Mylton Severiano da Silva, que fazia dupla com rep\u00f3rteres antol\u00f3gicos como Hamilton Almeida Filho. Outros se revelaram escritores famosos, como o Fernando de Morais ou Humberto Werneck. E muitos ficaram naquele circulo compenetrado dos grandes fechadores, ex\u00edmios art\u00edfices da l\u00edngua, como Antenor Nascimento ou Genilson C\u00e9sar. A rela\u00e7\u00e3o com os editores costumava ser amig\u00e1vel, pois resolv\u00edamos um monte de pepinos, mas com a reportagem havia tumulto.<\/p>\n<p>\u201cFoi voc\u00ea que mexeu no meu texto?\u201d perguntou a rep\u00f3rter da Ilustrada, da Folha de S. Paulo, furiosa, com o jornal na m\u00e3o, no meu segundo dia de copy no caderno. Fui, respondi. \u201cEnt\u00e3o da pr\u00f3xima vez n\u00e3o assine meu nome, porque eu n\u00e3o escrevi isso\u201d. Ok, tornei a falar. Vou fazer isso. N\u00e3o vou assinar seu nome e continuar copidescando. O texto da mo\u00e7a era muito ruim e em um m\u00eas ela ficou minha amiga. Descobriu que eu trabalhava a favor dela. Fazia quest\u00e3o de assinar tudo. O copy assumia uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o c\u00edvica, com o mesmo esp\u00edrito do trabalho solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso gostar de escrever, gostar do que os outros escrevem, admirar a reportagem, n\u00e3o causar problemas ao editor, n\u00e3o guardar ressentimentos, n\u00e3o querer brilhar com o trabalho alheio, nem colocar as patas nele. Um copy \u00e9 um especialista em extirpar lugares comuns, descobrir furos na estrutura do texto, buscar informa\u00e7\u00e3o para resolver impasses, entrevistar o rep\u00f3rter, checar as fontes, entregar tudo no prazo e retirar-se todos os dias para sua caverna nas montanhas. L\u00e1 no alto, ele medita esperando o sol nascer de novo para iluminar o vale das palavras.<\/p>\n<p>A TV Guia, revista da Abril que durou sete meses em 1977, baseada na TV Guide americana, foi meu momento xis do copy. Trabalhava junto com dois craques: Macedo Miranda, Filho, que citei v\u00e1rias vezes em meus textos de mem\u00f3rias, e Ricardo Vespucci, o Bi, figura maravilhosa que j\u00e1 partiu pra o Outro Lado. Com eles aprendi a t\u00e9cnica do texto redondinho de revista, aquele que tem o desfecho sintonizado com o in\u00edcio e costura par\u00e1grafos sem dor, para que a leitura flua como veleiro em tarde t\u00e9pida de outono. N\u00e3o se trata de facilitar a vida de ningu\u00e9m, mas de seduzi-la pela qualidade do trabalho, torn\u00e1-la prazerosa, aventureira, com revela\u00e7\u00f5es. T\u00ednhamos material para isso. Os textos vinham de gente pesada como Caco Barcelos ou Aud\u00e1lio Dantas, que nos entregavam grandes reportagens de uma dez laudas, o que era um desprop\u00f3sito para o formato da revista (do tamanho de uma meia Veja).<\/p>\n<p>A TV Guia pagava muito bem, mas sofreu concorr\u00eancia acirrada do grupo Manchete (que emplacou algo parecido nos seus ve\u00edculos e que era dado de brinde). Era sofisticada, pois al\u00e9m da programa\u00e7\u00e3o completa das TVs tinha belas reportagens. E havia chance de os copys assinarem artigos sobre temas variados, o que fiz algumas vezes. A revista tinha como editor o Woile Guimar\u00e3es, que mais tarde foi para a Rede Globo. Macedo Miranda viera de l\u00e1 e para l\u00e1 voltou. Depois montou uma empresa pr\u00f3pria e continua sendo um profissional respeitado e talentoso.<\/p>\n<p>Na Ilustrada, um descanso para o copy chamava-se Paulo Moreira Leite, que depois ficou muitos anos na Veja, foi correspondente em Paris e hoje est\u00e1 na \u00c9poca. Paulo tinha o texto perfeito e eu colocava a caneta de lado quando recebia uma reportagem dele. E na Ilustrada havia espa\u00e7o para publicar tudo, diferente da TV Guia em que havia necessidade de inventar outro texto para caber as informa\u00e7\u00f5es. O maior desafio situava-se no lead. Meu melhor lead, n\u00e3o canso de lembrar, foi sobre o Cyborg, o sujeito que era metade gente, metade m\u00e1quina: \u201cTodo mundo tem seu lado humano. O de Cyborg, \u00e9 o esquerdo\u201d .<\/p>\n<p>Sinto falta, como leitor de jornais di\u00e1rios, principalmente nas vers\u00f5es on line, da fun\u00e7\u00e3o do copy. Noto erros grosseiros que seriam eliminados na primeira leitura. Passam lotado para a edi\u00e7\u00e3o, que, parece, n\u00e3o l\u00ea mais nada. Se der erro, demita-se o rep\u00f3rter. N\u00e3o deve ser assim. Jornalismo \u00e9 como cinema, trabalho de equipe, com responsabilidade compartilhada. Tudo se soma para evitar transtornos aos leitores. Depois n\u00e3o se queixem da morte dos jornais. N\u00e3o \u00e9 a concorr\u00eancia da internet que os leva \u00e0 fal\u00eancia. \u00c9 a falta de coisas b\u00e1sicas, como um bom copy-desk. Noto agora que meu afastamento das reda\u00e7\u00f5es coincidiu com o fim da fun\u00e7\u00e3o que eu exercia. Fiz muita reportagem e fui editor v\u00e1rias vezes. Mas o que gostava mesmo era navegar nas mat\u00e9rias que vinham de todos os lados.<\/p>\n<p>N\u00e3o cuido mais de texto alheio. Quando me pedem, distribuo positivos, pois cr\u00edtica hoje ofende e pode fechar o tempo. Tenho mais o que fazer. Mas posso ensinar o of\u00edcio, se \u00e9 que existe gente que queira aprender uma fun\u00e7\u00e3o extinta. Copy \u00e9 como o latim, que n\u00e3o \u00e9 mais falado, mas \u00e9 a base da l\u00edngua. No m\u00ednimo, forma escritores. Ou pelo menos pessoas focadas na claridade e for\u00e7a das palavras.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; 1. Dei uma copidescada no texto acima, ficou melhor, sem v\u00e1rios ru\u00eddos. Todo copy precisa tamb\u00e9m de um copy. 2. Acho que foram os preconceitos (al\u00e9m da elimina\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es para aumentar os lucros) que derrubaram o copy. Achavam que o redator &#8220;dourava a p\u00edlula&#8221;, colocava cerejinha em cima do bolo da reportagem. Um soldado da Legi\u00e3o Estrangeira n\u00e3o doura p\u00edlula, afia adagas e azeita rifles. Outra i\u00e9ia de jerico era confundir copy com revisor. Revis\u00e3o \u00e9 outro departamento, tamb\u00e9m importante, e que d\u00e1 grande apoio ao copy. Mas as fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas. O revisor n\u00e3o tem a autonomia do copy, n\u00e3o muda, apenas checa e corrige. J\u00e1 o copy n\u00e3o pede licen\u00e7a. Deadline n\u00e3o espera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Fui copy a vida inteira. Chamava-se redator, uma fun\u00e7\u00e3o que sumiu na imprensa. Cheg\u00e1vamos mais tarde e sa\u00edamos por \u00faltimo, junto com o editor. Receb\u00edamos os textos, copidesc\u00e1vamos, faz\u00edamos o fechamento, como t\u00edtulos, olhos, legendas etc. Hoje rep\u00f3rter faz tudo isso. 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