{"id":269,"date":"2009-12-10T09:55:45","date_gmt":"2009-12-10T11:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=269"},"modified":"2009-12-10T09:55:45","modified_gmt":"2009-12-10T11:55:45","slug":"abigeato","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/abigeato","title":{"rendered":"ABIGEATO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>As confus\u00f5es em que nos metemos com a l\u00edngua portuguesa t\u00eam a ver com problemas reais. Desconfio que o tr\u00e1gico desaparecimento do h\u00edfen, um acasalamento impr\u00f3prio de voc\u00e1bulos n\u00e3o afins, est\u00e1 relacionado com o amontoamento coletivo nas cidades. N\u00e3o existem mais port\u00f5es confi\u00e1veis, que nos separavam da vizinhan\u00e7a. Hoje h\u00e1 um prolongamento habitacional que \u00e9 o fim da hifeniza\u00e7\u00e3o urbana, ou seja, da privacidade.<\/p>\n<p>Quando a morte come\u00e7ou a correr risco, no lugar da vida, imagino que houve uma troca substancial de pap\u00e9is. As pessoas n\u00e3o vivem mais, portanto n\u00e3o correm mais risco de vida. Com milhares de assassinatos, acidentes de tr\u00e2nsito, epidemias, enchentes, furac\u00f5es, balas perdidas, a morte banalizada \u00e0s vezes pode perder a parada. \u00c9 o risco que ela corre de algu\u00e9m sobreviver.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantas as transgress\u00f5es, especialmente as oficializadas, que sumiu o h\u00e1bito de discutir solu\u00e7\u00f5es gramaticais. O vale-tudo das modifica\u00e7\u00f5es funciona como agente desagregador, estimulado pelos truques da inform\u00e1tica. N\u00e3o brigo mais com a revis\u00e3o, mas com o word. Ele completa palavras, destr\u00f3i frases, insiste em solu\u00e7\u00f5es que abomino. Quem inventou essas ferramentas deve ter incorporado o esp\u00edrito mau dos que fiscalizavam o uso da linguagem para que ela n\u00e3o deslanchasse.<\/p>\n<p>Quando tudo \u00e9 feito para facilitar, a encrenca \u00e9 certa. Daqui a pouco eliminam a crase, que \u00e9 t\u00e3o sofisticada quanto a lei do impedimento no futebol. Vamos imaginar um jogo de bola que permita a banheira, aquela covardia de atacantes isolados se prevalecendo de goleiros indefesos. Seria t\u00e3o desastroso quanto n\u00e3o permitir a soma de conceitos (artigo, preposi\u00e7\u00e3o) na primeira letra do alfabeto.<\/p>\n<p>A marginaliza\u00e7\u00e3o social tem seu representante no abandono de conjuga\u00e7\u00f5es, como o subjuntivo; de constru\u00e7\u00f5es elegantes, como a mes\u00f3clise; ou de palavras estranhas, como abigeato que, como dizia o velho diretor de reda\u00e7\u00e3o para os jovens rep\u00f3rteres de vanguarda, \u201ctodo mundo sabe que \u00e9 roubo de gado\u201d. N\u00e3o significa que devemos nos entregar \u00e0 heterodoxia excessiva, mas \u00e9 bom preservar alguns tesouros perdidos, pois assim estaremos promovendo a alteridade, a sustentabilidade, a inclus\u00e3o, atitudes que est\u00e3o na moda. S\u00f3 que, gastas de tanto uso, podem ser empurradas para o mesmo destino do abigeato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As confus\u00f5es em que nos metemos com a l\u00edngua portuguesa t\u00eam a ver com problemas reais. Desconfio que o tr\u00e1gico desaparecimento do h\u00edfen, um acasalamento impr\u00f3prio de voc\u00e1bulos n\u00e3o afins, est\u00e1 relacionado com o amontoamento coletivo nas cidades. N\u00e3o existem mais port\u00f5es confi\u00e1veis, que nos separavam da vizinhan\u00e7a. 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