{"id":272,"date":"2009-12-10T10:00:19","date_gmt":"2009-12-10T12:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=272"},"modified":"2009-12-10T10:00:19","modified_gmt":"2009-12-10T12:00:19","slug":"alejo-carpentier-e-a-origem-do-romance","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/alejo-carpentier-e-a-origem-do-romance","title":{"rendered":"ALEJO CARPENTIER E A ORIGEM DO ROMANCE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO romance, of\u00edcio maior da literatura, \u00e9 a aventura humana num territ\u00f3rio hostil. \u00c9 a busca das fontes mais poderosas dessa arte, por meio dos rastros (as palavras) deixados pelos passos perdidos de tempos simult\u00e2neos, fases de civiliza\u00e7\u00f5es superadas que coexistem a pouca dist\u00e2ncia do que se considera o presente. Por meio de guias, do instinto, das revela\u00e7\u00f5es, dos cheiros, da chuva, do granito, das criaturas de todas as formas, o autor parte para o Incriado, onde medram plantas que se recusaram a servir de alimento e deuses que jamais foram nomeados e que desaparecem sem deixar vest\u00edgios.<\/p>\n<p>Para penetrar nesse mundo, \u00e9 preciso achar a abertura que leva \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de uma aldeia misturada na mata, rodeada pelo mist\u00e9rio e a majestade de uma paisagem que s\u00e3o ru\u00ednas jamais decifradas. Para descobrir a origem da m\u00fasica, \u00e9 preciso testemunhar o nascimento da palavra, um milagre que continua se manifestando, basta que o autor, como Ulisses, se jogue no desconhecido, impulsionado pela mis\u00e9ria de sua situa\u00e7\u00e3o, pelo desafio da sua exist\u00eancia datada, pela necessidade de chegar at\u00e9 onde o fogo resgata sua fun\u00e7\u00e3o e todos os movimentos fazem sentido e deixam de ser essa repeti\u00e7\u00e3o de gestos vazios, de rituais ocos, de vidas jogadas fora.<\/p>\n<p>A busca, em Alejo Carpentier, na sua absoluta obra-prima Os passos Perdidos (um livro que te joga para sempre no ex\u00edlio, j\u00e1 que depois dele nada mais precisa ser escrito), de 1953, implica em algo maior do que apenas abrir m\u00e3o da superficialidade ou da aliena\u00e7\u00e3o. Chegar ao cora\u00e7\u00e3o do romance \u00e9 notar que l\u00e1 tamb\u00e9m a arapuca funciona e pode matar: \u201cA selva era o mundo da mentira, da cilada e do falso semblante. Ali tudo era disfarce, estratagema, jogo de apar\u00eancias, metamorfose&#8221;.<\/p>\n<p>Como detectar, na voragem das mentiras, o que realmente vale a pena? Como descobrir &#8220;uma noite que se imp\u00f4s por seus valores de sil\u00eancio, pela solenidade de sua presen\u00e7a carregada de astros&#8221;? \u00c9 preciso enxergar e n\u00e3o apenas ver: \u201cN\u00e3o mentiam as gar\u00e7as quando inventavam a interroga\u00e7\u00e3o com o arco do pesco\u00e7o, nem quando levantavam seu espanto de plumas brancas. S\u00f3 as aves estavam em tempo da verdade, dentro da clara identidade de suas plumagens\u201d.<\/p>\n<p>O narrador do livro, um compositor que ao pesquisar a origem da m\u00fasica redescobre o talento, est\u00e1 enredado num casamento de mentira, numa vida intelectual vazia, numa rotina brutal, numa frustra\u00e7\u00e3o permanente. Algumas frases dessa fase anterior \u00e0 sua partida dizem tudo sobre onde estava metido: \u201cVoltei \u00e0 nossa casa, onde a desordem da partida apressada ainda era a presen\u00e7a da ausente. Essa forma peculiar da indol\u00eancia que consiste em se dar com briosa energia a tarefas que n\u00e3o s\u00e3o as que deveriam nos ocupar. Nesta tarde de chuva cujos trov\u00f5es, aplacados, pareciam rodar sobre os charcos da rua pr\u00f3xima&#8221;.<\/p>\n<p>Passado tanto tempo do boom da literatura latino-americana no s\u00e9culo vinte, \u00e9 hora de revisitar o Mestre, o autor das bases do real maravilhoso e v\u00edtima do principal equ\u00edvoco daquilo que virou moda. \u00c9 o momento de revisitar esse grande autor sem a aura m\u00edstica do marketing e da explos\u00e3o de vendas dos seus clones.<\/p>\n<p>Dizem que Gabriel Garcia M\u00e1rquez rasgou os cap\u00edtulos que tinha escrito de Cem anos de solid\u00e3o quando leu este livro de Carpentier. E come\u00e7ou tudo de novo. Essa Am\u00e9rica Latina de Carpentier e Gabo, seria apenas a inf\u00e2ncia imaginada dos escritores, res\u00edduo de velhos ser\u00f5es? H\u00e1 um excesso de umidade e del\u00edrio nos textos trabalhados, uma den\u00fancia que fica, na apar\u00eancia, como obra de ourivesaria, mas no fundo \u00e9 um pote de luz que quebra no mosaico e nos imobiliza num assombro.<\/p>\n<p>O que era sonho emergente num mundo ass\u00e9ptico hoje \u00e9 engolido pelo pesadelo do caudilhismo renovado, o que usa o voto no lugar da espada. Mas fica, intacta, a literatura que n\u00e3o apenas deslumbra, mas ensina, especialmente em Carpentier, o erudito que publicou tr\u00eas volumes de ensaios sobre m\u00fasica e \u00e9 autor de outros livros maravilhosos, como O reino deste mundo, entre tantos.<\/p>\n<p>Em Os Passos Perdidos (que li numa edi\u00e7\u00e3o da Brasiliense de 1985, com tradu\u00e7\u00e3o de Josely Vianna Batista) Carpentier se supera. Ele nomeia tanto o t\u00e9dio quanto o encontro monumental de suas ra\u00edzes, com a grandeza dos fund\u00f5es de sua inf\u00e2ncia e de sua terra. Esse continente verbal emerge no horizonte liter\u00e1rio ao lado dos maiores livros de todos os tempos, pois interage com A Divina Com\u00e9dia, a Il\u00edada, Dom Quixote. \u00c9 nesse patamar que Os Passos Perdidos se situa.<\/p>\n<p>A leitura desse livro \u00e9 mais do que uma experi\u00eancia, \u00e9 uma avassaladora viagem para as entranhas de tudo o que \u00e9 humano e que nos assusta por sermos, sempre, o enigma de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A busca, em Alejo Carpentier, na sua absoluta obra-prima Os passos Perdidos (um livro que te joga para sempre no ex\u00edlio, j\u00e1 que depois dele nada mais precisa ser escrito), de 1953, implica em algo maior do que apenas abrir m\u00e3o da superficialidade ou da aliena\u00e7\u00e3o. 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