{"id":2728,"date":"2011-06-22T21:05:29","date_gmt":"2011-06-23T00:05:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2728"},"modified":"2011-06-22T21:05:29","modified_gmt":"2011-06-23T00:05:29","slug":"o-discurso-de-ruptura-no-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-discurso-de-ruptura-no-cinema","title":{"rendered":"O DISCURSO DE RUPTURA NO CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A sociedade do espet\u00e1culo vende o que prega, n\u00e3o o que pratica. Amor, princ\u00edpios, \u00e9tica, honestidade,solidariedade devem se sobrepor ao pragmatismo, \u00e0 morte, ao \u00f3dio, \u00e0 vingan\u00e7a, \u00e0 gan\u00e2ncia, que s\u00e3o a rotina da vida real. Vimos como a publicidade falava em sa\u00fade vendendo gordura artificial e energia com energ\u00e9ticos artificiais colocados nos produtos aliment\u00edcios. No cinema o espectador \u00e9 mais exigente e \u00e9 preciso gerar uma dramaturgia que leve a um desfecho favor\u00e1vel. Leva-se em conta que a vida \u00e9 assim mesmo, complicada e contra o cora\u00e7\u00e3o humano, mas isso pode mudar, pelo menos no pacote de boa vontade exposto no mercado do entretenimento.<\/p>\n<p>Temos, em conseq\u00fc\u00eancia, sempre um ponto de muta\u00e7\u00e3o entre o mal hegem\u00f4nico e o bem que emerge gra\u00e7as a algum evento extraordin\u00e1rio que tira o protagonista da rotina. Os bons sentimentos ent\u00e3o se imp\u00f5em \u00e0 avassaladora presen\u00e7a do dinheiro e do prest\u00edgio. A bondade rompe a rede maligna por meio de uma fala decisiva, o discurso de ruptura no cinema.<\/p>\n<p>A origem \u00e9 nobre, n\u00e3o o que foi feito dela. O discurso de ruptura no cinema foi inventado por Charles Chaplin no final de O Grande Ditador (1940). N\u00e3o conhe\u00e7o antecedentes, mas se existem, n\u00e3o tira o m\u00e9rito do g\u00eanio que elevou essa solu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica ao esplendor. Todos conhecem a hist\u00f3ria. O ditador da Tasm\u00e2nia \u00e9 convidado a discursar para as massas e nesse momento supremo, decisivo, em que todos est\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o numa \u00fanica pessoa, que vai definir seu status de poder, algo se quebra. Lembrei de Chaplin ao tentar costurar os v\u00e1rios discursos de ruptura em filmes variados e quem sempre abordam a mesma situa\u00e7\u00e3o: \u00e9 quando o orador fala a verdade e contraria assim os pr\u00f3prios interesses em favor de algo maior.<\/p>\n<p>H\u00e1 exemplos de sobra, vou s\u00f3 elencar alguns. No filme Kate &amp; Leopold (2001), Meg Ryan \u00e9 a executiva que enfim chega ao topo, \u00e9 anunciada como chefe do escrit\u00f3rio da sua corpora\u00e7\u00e3o em Nova York. Ele come\u00e7a seu discurso de maneira tradicional, dizendo como \u00e9 bem sucedida ao fazer o que todos querem, mas aos poucos cai em si e fala que deve deixar tudo em favor de um princ\u00edpio, uma grande paix\u00e3o. Matt Damon no recente Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, 2011) \u00e9 um jovem candidato a senador que conhece uma mulher num banheiro, \u00e9 fisgado por ela e na hora de discursar depois da derrota eleitoral diz que esteve mentindo o tempo todo. E o mega bem sucedido funcion\u00e1rio de uma empresa que \u00e9 paga para demitir pessoas, interpretado por George Clooney em Amor sem Escalas (2009) faz o mesmo: abre m\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o para confessar sua ren\u00fancia do cargo em favor de um grande amor.<\/p>\n<p>O general americano da II Grande Guerra interpretado por George C. Scott no filme de 1970, Patton (papel que lhe deu merecidamente o Oscar) \u00e9 obrigado a fazer um discurso pedindo desculpas por ter ofendido um soldado. Ele acaba se desculpando , mas n\u00e3o abre m\u00e3o de sua verve e faz todo mundo cair na gargalhada no in\u00edcio da fala. Ele rompe com o esperado dizendo que estava ali para dizer o quanto era um grande filho da puta. Diz a verdade e mostra como estava contrariado em ter que pedir perd\u00e3o por algo que ele achava justo (bateu num combatente que fugiu do front por ter sentido medo).<\/p>\n<p>Quando enfim consegue vencer os fac\u00ednoras que vieram lhe matar e aterrorizar a cidade na hora em que se retirava do seu papel de Xerife, Gary Cooper em High Noon (Matar ou Morrer, 1952) tem seu instante de transgress\u00e3o. N\u00e3o faz um discurso, mas olha par todos os que o abandonaram e joga a estrela de lata na areia. \u00c9 o corte mudo em palavras, mas contundente no gesto e na imagem inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois do macartismo, que eliminou a cr\u00edtica verdadeira do cinema americano e abriu a guarda para as barbaridades que temos hoje, o discurso de ruptura no cinema diluiu-se em com\u00e9dias rom\u00e2nticas ou filmes falsos sobre pol\u00edtica. Nunca mais tivemos um momento grandioso como o de Gregory Peck no final de O Sol \u00c9 Para Todos (1962, To Kill a Mockingbird), em que ele faz o papel do advogado que livra da pena de morte um trabalhador inocente, negro. Peck termina sua fala, vence na parada e espera todos sa\u00edrem do recinto. S\u00f3 ficam, no mezanino,confinados, a fam\u00edlia e toda a comunidade de negros da pequena cidade. O filho do advogado est\u00e1 com eles e permanece sentado enquanto o pai se retira lentamente. Ao que a senhora, m\u00e3e do acusado enfim liberto, adverte: \u201cFique de p\u00e9, menino, que o seu pai est\u00e1 passando\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A sociedade do espet\u00e1culo vende o que prega, n\u00e3o o que pratica. Amor, princ\u00edpios, \u00e9tica, honestidade,solidariedade devem se sobrepor ao pragmatismo, \u00e0 morte, ao \u00f3dio, \u00e0 vingan\u00e7a, \u00e0 gan\u00e2ncia, que s\u00e3o a rotina da vida real. 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