{"id":2747,"date":"2011-07-27T21:46:06","date_gmt":"2011-07-28T00:46:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2747"},"modified":"2011-07-27T21:46:06","modified_gmt":"2011-07-28T00:46:06","slug":"quadrinhos-e-bobagens","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quadrinhos-e-bobagens","title":{"rendered":"QUADRINHOS E BOBAGENS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Certa vez Jos\u00e9 Onofre foi definido por Luis Fernando Ver\u00edssimo como o melhor produto de Bag\u00e9 em duas pernas. Lembro bem dessa cr\u00f4nica. Foi na Folha Tarde, em 1974 ou 75, na v\u00e9spera de LFV tirar f\u00e9rias, quando deixaria JO como substituto. H\u00e1 pouco tempo Onofre foi-se para sempre, deixando pistas da sua personalidade brilhante e contradit\u00f3ria. Escritor magn\u00edfico, frasista de m\u00e3o cheia, intelectual como poucos, jornalista de destaque, foi lembrado como um sujeito complicado numa reda\u00e7\u00e3o, territ\u00f3rio de vaidades e trai\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dos seus h\u00e1bitos era achincalhar algum colega tido como erudito ao flagr\u00e1-lo lendo gibi, como aconteceu com Jotab\u00ea Medeiros, outro exemplar dessa gera\u00e7\u00e3o de grandes jornalistas. Medeiros conta que, depois de feito o servi\u00e7o, Onofre lhe arrebatava a revistinha e ia para sua sala se deliciar com as bobagens em quadrinhos. Uma de suas paix\u00f5es eram as frases dos grandes romancistas policiais como Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Gostava de aplicar frases de filmes de a\u00e7\u00e3o, como uma de \u201cOs 12 condenados\u201d. Diante de um prato feito no restaurante muito popular da Lapa de Baixo, onde trabalh\u00e1vamos em S\u00e3o Paulo, disse, citando a frase do filme: \u201cJ\u00e1 pisei nisso. Comer, \u00e9 a primeira vez\u201d.<\/p>\n<p>No tempo em que t\u00ednhamos s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o, por aconselhamento de bons professores, ambiente escolar ou s\u00f3 por iniciativa autodidata, a cultura sup\u00e9rflua e descart\u00e1vel era uma das nossas predile\u00e7\u00f5es. Hoje, quando o lixo tomou conta de tudo e a qualidade liter\u00e1ria foi para o ralo, perdeu a gra\u00e7a. Mas gost\u00e1vamos demais de repetir as express\u00f5es de Tarzan, como \u201cBandolo matar\u201d, ou as tiradas de Tonto, o \u00edndio do Zorro, como na c\u00e9lebre \u201cn\u00f3s quem, cara p\u00e1lida?\u201d quando a dupla viu-se cercada de apaches e o mocinho branco achava que ambos estavam ralados.<\/p>\n<p>Cultura tamb\u00e9m \u00e9 bobagem, principalmente se for engra\u00e7ada e compartilhada sem pose, j\u00e1 que esse parece ser o objetivo da asneira, romper com o circulo vicioso da seriedade chata e muitas vezes falsa. Em Blumenau, quando faz\u00edamos o Jornal de Santa Catarina, t\u00ednhamos a companhia de Virson Holderbaum, que criava tipos hil\u00e1rios e os interpretava. Um deles era um agente funer\u00e1rio alem\u00e3o chamado Herr Lubow, de cara impass\u00edvel , que se curvava diante dos familiares da v\u00edtimas e dizia em tom carregado: \u201cP\u00ea\u00ea\u00easames!\u201d isso dito numa cidade fechada, no inverno, era uma forma de afastarmos as nuvens. Outro grande personagem seu era um general chamado Ostil Vanderlei. \u201cOstil com O\u201d, explicava.<\/p>\n<p>Essa verve era fruto da leitura compulsiva de gibis, imagino. Desde a antiga Billiken argentina, passando pelo faroeste do Cavaleiro Negro, e curtindo as aventuras do Batman, Capit\u00e3o Marvel e do Marvel Jr., tamb\u00e9m naveg\u00e1vamos em Bolinha, Tio Patinhas, Pinduca etc. Disput\u00e1vamos a tapa as revistas e \u00e0s vezes algum gatuno nos assaltava na fila do cinema, onde \u00edamos trocar preciosidades. Confiscavam at\u00e9 os trocados. Meu irm\u00e3o deitava na sopa: \u201cLeva dois cruzeiros para a entrada e seis para os batedores de carteira\u201d!, dizia, rindo da minha ingenuidade de mostrar grana e quadrinhos diante de petizes de olho espichado para nossos tesouros.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Certa vez Jos\u00e9 Onofre foi definido por Luis Fernando Ver\u00edssimo como o melhor produto de Bag\u00e9 em duas pernas. Lembro bem dessa cr\u00f4nica. Foi na Folha Tarde, em 1974 ou 75, na v\u00e9spera de LFV tirar f\u00e9rias, quando deixaria JO como substituto. 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