{"id":2753,"date":"2011-07-27T21:49:45","date_gmt":"2011-07-28T00:49:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2753"},"modified":"2011-07-27T21:49:45","modified_gmt":"2011-07-28T00:49:45","slug":"hobson%c2%b4s-choice-david-lean-e-a-escolha-obrigatoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hobson%c2%b4s-choice-david-lean-e-a-escolha-obrigatoria","title":{"rendered":"HOBSON\u00b4S CHOICE: DAVID LEAN E A ESCOLHA OBRIGAT\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O criador ingl\u00eas Thomas Hobson (1544\u20131631) permitia que seus clientes escolhessem qual cavalo iriam levar, desde que fosse o da pr\u00f3xima baia. N\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o, s\u00f3 essa. Sen\u00e3o, nada feito. Isso evitava que fossem levados os melhores exemplares e o encalhe ficasse para o dono do haras. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, que se diferencia de outras semelhantes, como a escolha de Sofia, o dilema em que h\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es onde a desist\u00eancia acarreta a morte de quem \u00e9 preterido. A Hobson\u00b4s choice (a escolha de Hobson) foi adotada por Henry Ford quando dizia que o carro poderia ser de qualquer cor, desde que fosse preto.<\/p>\n<p>A express\u00e3o foi levada \u00e0 literatura pela primeira vez, segundo o Oxford English Dictionary, por Samuel Fisher em 1660. E se consagrou no uso popular. Em 1916, uma pe\u00e7a de Harold Brighouse gerou uma s\u00e9rie de desdobramentos: um musical da Brodway e dois filmes est\u00e3o entre eles. O primeiro \u00e9 de 1931 e o segundo, que vi ontem, \u00e9 de 1954, dirigido por David Lean. Hobson\u00b4s Choice, do mestre absoluto,com Charles Laughton no papel do vi\u00favo dono da sapataria que explorava seus oper\u00e1rios e filhas para beber tudo num pub, onde debochava dos seus subalternos para falsos amigos, \u00e9 um filme antol\u00f3gico,como tudo o que David Lean fez. O g\u00eanio n\u00e3o d\u00e1 folga, \u00e9 o tempo todo.<\/p>\n<p>Numa r\u00e1pida visita \u00e0s resenhas dispon\u00edveis sobre o filme, principalmente as que foram feitas quando foi lan\u00e7ado o DVD, noto que falam em com\u00e9dia deliciosa de costumes, entre outras fatuidades. \u00c9 outra coisa, claro. O oper\u00e1rio explorado que vivia no por\u00e3o fazendo botas femininas primorosas \u00e9 escolhido pela filha mais velha do dono, uma solteirona, para declarar independ\u00eancia do pai que n\u00e3o queria perder a m\u00e3o-de-obra escrava de empregados e fam\u00edlia. Trata-se um retrato arrasador da perda de poder do pater familias, pressionado pelas imposi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, diante da emerg\u00eancia de novos protagonistas, como o trabalhador e a mulher.<\/p>\n<p>O novo empreendimento, que far\u00e1 concorr\u00eancia ao neg\u00f3cio tradicional onde todos perdem, menos o beberr\u00e3o poderoso, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o encontrada para romper as amarras sociais. O papel da aristocracia, encarnada na cliente que reconhece o trabalho do mestre de of\u00edcio, fica em oposi\u00e7\u00e3o ao propriet\u00e1rio pr\u00e9-industrial (baseado no artesanato) de comportamento burgu\u00eas (que vive da mais valia expropriada do trabalho alheio e da clientela rica). Pois a madame \u00e9 quem cacifa o novo neg\u00f3cio por meio de juros de 20% ao ano (a hist\u00f3ria se passa no s\u00e9culo 19, antes que a ind\u00fastria financeira tomasse o poder). Ou seja, \u00e9 um filme sobre luta de classes, que denuncia o cinismo das rela\u00e7\u00f5es sociais, j\u00e1 que o patr\u00e3o quer manter as filhas solteiras para n\u00e3o perder a mordomia, enquanto toma todas.<\/p>\n<p>A cena do delirius tremens de Laughton, assustadora, e a sequ\u00eancia em que, completamente b\u00eabado (foto acima), tenta pisar na lua refletida em po\u00e7as de \u00e1gua na rua, s\u00e3o absolutamente antol\u00f3gicas. John Mills, no papel do sapateiro que sobe na vida gra\u00e7as \u00e0 gerentona, a filha mais velha do patr\u00e3o (Maggie, interpretada por Brenda De Banzie), que casa com ele e monta o novo empreendimento, \u00e9 outro destaque obrigat\u00f3rio. Seus gestos travados, formatados na vida dura no por\u00e3o trabalhando por mis\u00e9ria e vivendo num bairro pobre, dizem tudo da escravid\u00e3o do mundo que come\u00e7ava a dar o salto para a idade industrial. O personagem ascende socialmente e acaba repartindo o neg\u00f3cio com seu ex-patr\u00e3o, que n\u00e3o tem outra escolha sen\u00e3o ceder. O nome do homem que perde sua hegemonia \u00e9 exatamente Hobson, como o antigo e impositivo criador de cavalos.<\/p>\n<p>Ou seja, est\u00e1 longe de uma divertida com\u00e9dia de costumes. N\u00e3o se trata de um v\u00f4o de p\u00e1ssaro de um mestre do cinema &#8211; para muita gente, o melhor de todos os tempos. \u00c9 um mergulho na sociedade inglesa, interpretado pelos seus melhores talentos e por meio de imagens absurdamente genais, inesquec\u00edveis. Filme para chato cin\u00e9filo puxar a manga de multid\u00f5es dizendo: vejam, vejam, olhem, n\u00e3o esque\u00e7am como se fazia cinema nos anos 50, quando ainda n\u00e3o t\u00ednhamos perdido a embocadura da genialidade na S\u00e9tima Arte.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode escolher o que quiser ver, desde que seja Hobson\u00b4s Choice, de David Lean.<\/p>\n<p><em>As informa\u00e7\u00f5es para fazer este post foram pesquisadas na magn\u00edfica wikipedia em ingl\u00eas e no site de cinema IMDB.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O criador ingl\u00eas Thomas Hobson (1544\u20131631) permitia que seus clientes escolhessem qual cavalo iriam levar, desde que fosse o da pr\u00f3xima baia. N\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o, s\u00f3 essa. Sen\u00e3o, nada feito. Isso evitava que fossem levados os melhores exemplares e o encalhe ficasse para o dono do haras. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2753"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2753"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2753\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2754,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2753\/revisions\/2754"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}