{"id":2755,"date":"2011-07-27T21:51:22","date_gmt":"2011-07-28T00:51:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2755"},"modified":"2011-07-27T21:51:22","modified_gmt":"2011-07-28T00:51:22","slug":"palpites-na-fogueira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/palpites-na-fogueira","title":{"rendered":"PALPITES NA FOGUEIRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Noto que em todo evento h\u00e1 sempre um protagonista, dois no m\u00e1ximo, e dezenas ao redor, assuntando. Temos voca\u00e7\u00e3o para o testemunho mudo, com um assombro implodido, que confundem com submiss\u00e3o, mas \u00e9 apenas resultado das press\u00f5es acumuladas na vida pessoal e coletiva. N\u00e3o adianta reclamar dos motoristas que geram engarrafamento para ver algu\u00e9m atropelado. Fa\u00e7a o que quiser, mas a multid\u00e3o estar\u00e1 olhando para o abismo que engoliu o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>O turista franc\u00eas que caiu dos Arcos da Lapa, no Rio, agonizou at\u00e9 chegar o resgate. Quando chegou, estava morto. Se limitaram a bater fotografias da rede de prote\u00e7\u00e3o que falhou (\u00e9 preciso protocolar tudo, menos assistir os necessitados). Enquanto isso,a v\u00edtima tinha sido saqueada em celular e carteira. Um corpo fica no ch\u00e3o at\u00e9 o rabec\u00e3o se dignar a vir peg\u00e1-lo. O vel\u00f3rio ent\u00e3o \u00e9 feito na cal\u00e7ada, com dezenas de olhares em volta. Nas obras, vemos alguns oper\u00e1rios levantando pedra enquanto encarregados de capacete e de bra\u00e7os cruzados, com planilhas a tiracolo, olham o desenrolar da a\u00e7\u00e3o. Sem falar nos pol\u00edticos, que comparecem para apontar o horizonte em frente \u00e0s c\u00e2maras.<\/p>\n<p>Junto com a mudez de quem s\u00f3 sabe olhar, h\u00e1 os tagarelas que pontificam sobre o ocorrido como se fossem diplomados nos assuntos. Eles j\u00e1 sabiam de tudo o que ia acontecer. Avisaram, mas ningu\u00e9m prestou aten\u00e7\u00e3o. Gostam de ser os chegados da primeira hora, antes dos bombeiros e da pol\u00edcia, os que mostram como a coisa funciona. S\u00e3o especialistas amadores, volunt\u00e1rios do palpite. Isso se manifesta desde pequeno. Lembro que meu irm\u00e3o Luiz Carlos, ex\u00edmio empreendedor, se insurgia contra os petizes palpiteiros, que nada faziam mas eram os primeiros a colocar defeito em tudo.<\/p>\n<p>Muito menino, Luiz Carlos era capaz de construir uma obra complicada para abrigar uma cria\u00e7\u00e3o, por exemplo. Fazia o galp\u00e3o, o telhado, colocava a cerca, confeccionava os poleiros, comprava os filhotes, alimentava, recolhia os ovos, fornecia para o abate quando solicitado, etc. Era uma pe\u00e7a rara. Eu ficava olhando, abismado, mas jamais dizia nada, pois nunca me aventurei abordar o que jamais entendi, a arte de bater um martelo ou torcer um arame. O que deixava meu irm\u00e3o enlouquecido era os que davam pitacos sobre sua predile\u00e7\u00e3o, a fogueira das festas de inverno.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ci\u00eancia na fogueira, que deve durar v\u00e1rias horas sob o sereno gelado e acabar sendo pulada por todos os convivas. \u00c9 preciso saber o comportamento da lenha, como o fogo vai se desdobrar sem atingir os fios, montar uma estrutura que n\u00e3o provoque acidentes nem deixe res\u00edduos em excesso na cal\u00e7ada etc. O resto do acontecimento era providenciado pelos adultos, que traziam os fogos, os refrigerantes e as comidas t\u00edpicas. Assim, entre o buscap\u00e9 e o amendoim, rode\u00e1vamos as chamas com a alegria da inf\u00e2ncia alimentada pelo engenheiro precoce, o cara concentrado na sua faina e que liderava os trabalhos, n\u00e3o apenas colocando a m\u00e3o na massa, mas distribuindo encargos. E expulsando os boquirrotos, que vinham atrapalhar com seu palpite infeliz.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Noto que em todo evento h\u00e1 sempre um protagonista, dois no m\u00e1ximo, e dezenas ao redor, assuntando. Temos voca\u00e7\u00e3o para o testemunho mudo, com um assombro implodido, que confundem com submiss\u00e3o, mas \u00e9 apenas resultado das press\u00f5es acumuladas na vida pessoal e coletiva. N\u00e3o adianta reclamar dos motoristas que geram engarrafamento para ver [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2755"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2755"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2756,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2755\/revisions\/2756"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}