{"id":2760,"date":"2011-07-27T21:59:38","date_gmt":"2011-07-28T00:59:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2760"},"modified":"2011-07-27T22:59:08","modified_gmt":"2011-07-28T01:59:08","slug":"moernismo-uma-religiao-oficial","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/moernismo-uma-religiao-oficial","title":{"rendered":"MODERNISMO: UMA RELIGI\u00c3O OFICIAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A Flip, festa liter\u00e1ria em Paraty, celebrou o Modernismo, a atual religi\u00e3o oficial do regime que governa o Brasil, a ditadura de fato sob a capa da falsa democracia. O cr\u00edtico e intelectual Antonio Candido, que acha Lula um modelo de antropofagista cultural, pois \u00e9 capaz de reelaborar tudo o que escuta sem jamais clonar o que absorve, como disse no evento, \u00e9 o gr\u00e3o-sacerdote dessa seita, que tem como di\u00e1cono e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas o dramaturgo e ator Jos\u00e9 Celso Martinez Correa, recentemente agraciado com uma fortuna de R$ 569 mil por ter enfrentado a ditadura, al\u00e9m dos cinco mil mensais a que tem direito na sua regia indeniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, Jos\u00e9 Dirceu, denunciado pela Procuradoria Geral da Justi\u00e7a como chefe da gang do mensal\u00e3o, e mourixaba do petismo oficial, acaba de ser nomeado patrono da Funda\u00e7\u00e3o Nemirovsky, detentora de um dos mais importantes acervos de arte moderna do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os santos dessa religi\u00e3o, o Modernismo assimilado oficialmente pela ditadura, s\u00e3o o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter e o comedor de carne humana, o antrop\u00f3fago (representado pelo quadro de Tarsila Amaral, Abaporu, que tem a imagem chupada \u2013j\u00e1 que n\u00e3o foi citada a fonte \u2013 de uma foto de Edward West). Dois personagens que na \u00e9poca em que foram criados assumiam o perfil da den\u00fancia, viraram modelos culturais. O her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter est\u00e1 em toda parte na corrup\u00e7\u00e3o que faz o sistema funcionar e no chamado pragmatismo pol\u00edtico, que substituiu o \u201crouba mas faz\u201d pelo simplesmente \u201crouba porque \u00e9 assim \u00e9 que se faz\u201d.<\/p>\n<p>E a antropofagia, que era uma proposta de reelabora\u00e7\u00e3o cultural de influ\u00eancias estrangeiras, \u00e9 tomada ao p\u00e9 da letra, pois se celebra o banquete de carne humana baseado na degluti\u00e7\u00e3o do bispo Sardinha (exemplo radical de Oswald de Andrade para se fazer entender) como se fosse a coisa em si. Vendo o mortic\u00ednio e a carnificina nacionais na viol\u00eancia urbana e rural, no tr\u00e2nsito, nos assassinatos pol\u00edticos, notamos que a met\u00e1fora encarnou na realidade sem a transcend\u00eancia do conceito. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por acaso que a grande proposta do Teatro Oficina, o festim bacante e dionis\u00edaco da vida, fa\u00e7a parte das pr\u00e1ticas do submundo do poder, como mostraram in\u00fameras denuncias.<\/p>\n<p>Um dos vetores do Modernismo,foi o operarismo, esp\u00e9cie de sintonia com as lutas mundiais da classe oper\u00e1ria mas que aqui acabou elegendo um falso trabalhador para implantar a atualiza\u00e7\u00e3o do sistema que favorece a ind\u00fastria financeira internacional. Temos assim que conviver com o paradoxo em que a casca da esquerda est\u00e1 no bolso dos bancos e leva uma grana preta para exercer o papel de laranja da especula\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o, que se deteriorou como direita, desmoralizada na brutalidade dos anos de chumbo, diluiu-se no tucanato de resultados e exerce comportamento endogenamente antropof\u00e1gico, com lideran\u00e7as que se entredevoram como se fossem personagens de uma pe\u00e7a oswaldiana do teatro Oficina.<\/p>\n<p>O Modernismo brasileiro assim \u00e9 a justificativa cultural de um regime que se alimenta de carne humana e processa o poder por meio de personalidades sem nenhum car\u00e1ter. E tamb\u00e9m a fonte de degluti\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos num pa\u00eds que sucateou o ensino e tornou milion\u00e1rios os apaniguados do poder com seus eleitos recorrentes, dos pr\u00eamios liter\u00e1rios \u00e0s curadorias suspeitas.<\/p>\n<p>O Modernismo foi uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 macaquice do estrangeiro, uma forma de apontar caminhos para a nacionalidade num ambiente que se desvinculava das tradi\u00e7\u00f5es seculares. Mas se transformou, via engessamento das consci\u00eancias e comodismo pol\u00edtico, num paradigma, num modelo de pensamento, comportamento e produto cultural. \u201cComo ficou chato ser moderno\u201d, escreveu uma vez Carlos Drummond de Andrade. Agora \u00e9 pior: ficou perigoso. O Modernismo, do jeito que est\u00e1, \u00e9 excludente e permite a fritura decana de Monteiro Lobato e impede que novos protagonistas, opostos \u00e0s certezas endossadas por decreto, emerjam no cen\u00e1rio cultural do pa\u00eds, entregue \u00e0s moscas da preda\u00e7\u00e3o e da barb\u00e1rie. Trata-se de um ex-Modernismo, que se esconde no talento e coragem de gera\u00e7\u00f5es passadas para vibrar o malho da anti-cultura.<\/p>\n<p>Poucas d\u00e9cadas depois da Semana, Manuel Bandeira, que era colunista de arte em v\u00e1rios ve\u00edculos, dizia que o Modernismo era um novo academismo (\u201cComo tem portinarices nesta exposi\u00e7\u00e3o\u201d, dizia ele num artigo). O Modernismo acabou substituindo o que mais criticava, n\u00e3o gra\u00e7as a seus fundadores, mas aos ac\u00f3litos e seguidores. Engessou-se de tal maneira que sucessivas ondas que se insurgiram contra seu c\u00e2none acabaram quebrando na praia. Gera\u00e7\u00e3o 45, Praxis, Concretismo, Catequese Po\u00e9tica, tudo virou manifesta\u00e7\u00e3o referencial do Modernismo. Foram anexados, por motivos pol\u00edticos, absorvidas pelo poder devorador, j\u00e1 que se formaram gera\u00e7\u00f5es de burocratas que cuidam da cultura e precisam de um paradigma s\u00f3lido para manter seus nichos de poder e dinheiro.<\/p>\n<p>Trata-se de um paradoxo, pois o Modernismo n\u00e3o nasceu engessado, ao contr\u00e1rio, \u00e9 cheio de contradi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que se ofereceu ao p\u00fablico como um patroc\u00ednio da elite e ao mesmo tempo manifestou a radicalidade da \u201cOde ao Burgu\u00eas\u201d, de Mario de Andrade. Era um evento a favor da nacionalidade, mas crivado de vanguarda europeia, uma contradi\u00e7\u00e3o que se subdividiu no manifesto Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, que pregava a absor\u00e7\u00e3o criativa do que vinha de fora, e o movimento verde-amarelista, que procurava voltar ao nativismo do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Hoje, como uma das personas da ditadura mascarada de democracia, o Modernismo precisa de um confronto mais radical para ceder de vez.\u00a0 \u00c9 preciso ir fundo, revisitar os pioneiros com a mesma acidez com que eles enfrentaram os paradigmas da \u00e9poca e desmascarar o truque do poder que posa de revolucion\u00e1rio mantendo as injusti\u00e7as seculares.<\/p>\n<p><em>Texto publicado no Jornal Op\u00e7\u00e3o (a vers\u00e3o acima cont\u00e9m algumas modifica\u00e7\u00f5es m\u00ednimas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capa da Op\u00e7\u00e3o Cultural;originalmente, uma vers\u00e3o menor do texto foi publicado no Di\u00e1rio da Fonte, do blog Outubro).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A Flip, festa liter\u00e1ria em Paraty, celebrou o Modernismo, a atual religi\u00e3o oficial do regime que governa o Brasil, a ditadura de fato sob a capa da falsa democracia. 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