{"id":277,"date":"2009-12-10T10:19:52","date_gmt":"2009-12-10T12:19:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=277"},"modified":"2009-12-21T11:03:22","modified_gmt":"2009-12-21T13:03:22","slug":"trangressao-e-moralidade-no-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/trangressao-e-moralidade-no-cinema","title":{"rendered":"TRANGRESS\u00c3O E MORALIDADE NO CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nVi Les Hauts Murs (Entre os Muros da Pris\u00e3o, 2008), de Christian Faure, filme baseado no livro hom\u00f4nimo e autobiogr\u00e1fico de Auguste Le Breton, o \u00f3rf\u00e3o de guerra (o pai, palha\u00e7o, morreu em 1915, quando ele, Auguste, tinha dois anos) que do reformat\u00f3rio foi jogado nas ruas de Paris, onde aprendeu tudo. O que o salvou foi a Segunda Guerra, quando era uma pedra no sapato da Gestapo da ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 na Fran\u00e7a (e por isso em 1945 foi condecorado). \u00c9 de Le Breton a s\u00e9rie de novelas com a marca Rififi, adotada depois do megasucesso &#8220;Rififi Chez Les Hommes&#8221;, que ningu\u00e9m queria filmar at\u00e9 chegar Jules Dassin, expulso dos Estados Unidos pelo macartismo, e fazer da hist\u00f3ria um filme memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por que este filme, o Hauts Murs, muito bem realizado, \u00e9 um anacronismo? Poderia ter sido feito nos anos 30, quando se passa a hist\u00f3ria do garoto fuj\u00e3o que enfrenta a repress\u00e3o e a brutalidade de uma pris\u00e3o para menores, vendida para a sociedade como uma escola de corre\u00e7\u00e3o. \u00c9, inclusive, de prop\u00f3sito, a ado\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, do clima e at\u00e9 mesmo da interpreta\u00e7\u00e3o dos atores. Tudo lembra o cinema cl\u00e1ssico franc\u00eas, especialmente os de Jean Vigo em &#8220;Z\u00e9ro de conduite&#8221;, Ren\u00e9 Clair em &#8220;A nous la libert\u00e9&#8221;, e Marcel Carn\u00e9 em Cais de Sombras. Mas por que o anacronismo hoje? Vamos relevar o fato, importante, de os cineastas homenagearem Vigo, Clair, Carn\u00e9 ou Le Breton, gl\u00f3rias da cultura francesa. O foco deste coment\u00e1rio \u00e9 a sobreviv\u00eancia de um tipo de enfoque sobre a transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o aponta para filmes como o pr\u00f3prio Rififi, em que existe um c\u00f3digo de \u00e9tica entre os bandidos. E vimos isso em Inimigos P\u00fablicos, em que Dillinger \u00e9 apresentado como um her\u00f3i charmoso. Diferente, claro, das injusti\u00e7as sofridas pelo personagem menino na pris\u00e3o de Hauts Murs. Mas ambos os casos nos remetem a um fato: ser\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o dobrou o cabo da Boa Esperan\u00e7a a abordagem recorrente e can\u00f4nica de que os transgressores s\u00e3o inocentes ou v\u00edtimas do sistema e que por isso se justifica sua rea\u00e7\u00e3o, o crime (no caso do garoto, o furto, no de Dillinger, o assassinato e o roubo a m\u00e3o armada)?. Havia um tempo em que a plat\u00e9ia torcia pela transgress\u00e3o, pois esta estava cal\u00e7ada num conjunto de valores e princ\u00edpios.<\/p>\n<p>A v\u00edtima tinha sofrido uma injusti\u00e7a, a orfandade, o abandono dos pais, a prepot\u00eancia dos adultos, a pobreza, a marginaliza\u00e7\u00e3o, e partia ent\u00e3o para a vingan\u00e7a. Era flagrado e ia para uma institui\u00e7\u00e3o brutal, injusta, sempre com um algoz lapidar, desses vil\u00f5es que dirigem os c\u00e1rceres e se transformaram, na literatura e no cinema, em paradigmas do Mal (em contraposi\u00e7\u00e3o aos humanos seres dentro das celas). O Bem est\u00e3o migrava para o encarcerado e sua rea\u00e7\u00e3o era punida com a morte, o que arrancava l\u00e1grimas do p\u00fablico. Todos se emocionavam com a saga que, for\u00e7osamente, n\u00e3o poderia dar certo, pois a censura no cinema sempre foi pesada e n\u00e3o se podia simplesmente eleger o v\u00edcio como virtude, mesmo que todos saibam que esses conceitos muitas vezes se misturam. Mas a armadilha funcionava e enchia as salas de multid\u00f5es que se identificavam com as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Mas aos poucos os transgressores acabaram vencendo em v\u00e1rios filmes. Lembramos como os bandidos acabam indo mesmo para o Rio (deveriam ir para Washington, terra de assassinos, mas eles preferem, claro, o Rio de Janeiro, capital do Brasil soberano, que virou Meca da impunidade no imagin\u00e1rio mundial), ou para o M\u00e9xico (que no cinema americano, \u00e9 a mesma coisa que o Rio ou o Caribe), junto com mocinhas esplendorosas. H\u00e1 o caso de Um sonho de liberdade, em que Tim Roibbins e Morgan Freeman conseguem fugir da pris\u00e3o e v\u00e3o viver juntos, felizes para sempre, numa praia long\u00ednqua, em algum lugar do \u201cplaneta\u201d (tudo o que \u00e9 fora das fronteiras americanas \u00e9 o planeta, terra de ningu\u00e9m).<\/p>\n<p>No caso de Hautes Murs, n\u00e3o h\u00e1 o que discutir: os \u00f3rf\u00e3os dos soldados da guerra s\u00e3o tratados com viol\u00eancia e merecem mesmo reagir, fugir. No caso de Tim Robbins, quem resiste ao charme do fuj\u00e3o genial que, preso por uma injusti\u00e7a, bola por vinte anos uma rota para ele e seu grande amor escapar das paredes que impedem o relacionamento proibido? Dillinger, de Inimigos P\u00fablicos, j\u00e1 vai mais longe, pois o psicopata \u00e9 absolvido por seus problemas psicol\u00f3gicos e sociais. A transgress\u00e3o assim migra para a moralidade e alimenta a ind\u00fastria de espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>O sistema prisional continua bruto e injusto e n\u00e3o \u00e9 reformulado, pelo menos no Brasil, porque n\u00e3o interessa e d\u00e1 pregui\u00e7a e tamb\u00e9m porque faz parte do fosso entre as classes sociais. Bandidos de colarinho branco vivem em iates e jatinhos enquanto a massa despossu\u00edda apodrece nos por\u00f5es da ditadura sem fim. Uma abordagem adulta \u00e9 a de Carandiru , de Hector Babenco, que faz a den\u00fancia mas n\u00e3o endeusa os prisioneiros. O que j\u00e1 fez \u00e1gua \u00e9 insist\u00eancia de apresentar assassino como mocinho e presidi\u00e1rio como algu\u00e9m com direito \u00e0 liberdade. Pode n\u00e3o ter esse direito. Isso n\u00e3o significa que mere\u00e7a ser punido de maneira torpe, com cadeia imunda e corrupta.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deseja cadeia para quem quer que seja. Ou pena de morte. O que se discute aqui \u00e9 o v\u00edcio de apresentar o criminoso como her\u00f3i. Hoje, sabemos, com tanto crime \u00e0 solta, que n\u00e3o se sustenta mais manter o mesmo enfoque. Talvez por isso se lance m\u00e3o do anacronismo, pois assim funciona o velho esquema de confinar a virtude pra que ela escape e denuncie a opress\u00e3o. Esse recado j\u00e1 foi dado. Agora \u00e9 a vez de fundir a cuca para encontrar novas solu\u00e7\u00f5es de roteiro. Ou daqui a pouco teremos traficante perigoso sendo apresentado como gente bem. J\u00e1 existe alguns antecedentes.<\/p>\n<p>O assassino italiano acobertado no Brasil \u00e9 um deles. O matador venezuelano Chacal, que curte uma pris\u00e3o perp\u00e9tua na Fran\u00e7a, est\u00e1 sendo defendido por Chavez. Sem falar no ingl\u00eas que roubou milh\u00f5es e fugiu para o Brasil e s\u00f3 quando estava agonizando decidiu voltar. O ladr\u00e3o se refugia no Rio, mas na hora da morte se entrega nos bra\u00e7os da sua velha Albion. Como dizia Martin Fierro: \u201cInfierno por infierno, prefiro el de la frontera\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A v\u00edtima tinha sofrido uma injusti\u00e7a, a orfandade, o abandono dos pais, a prepot\u00eancia dos adultos, a pobreza, a marginaliza\u00e7\u00e3o, e partia ent\u00e3o para a vingan\u00e7a. Era flagrado e ia para uma institui\u00e7\u00e3o brutal, injusta, sempre com um algoz lapidar, desses vil\u00f5es que dirigem os c\u00e1rceres e se transformaram, na literatura e no cinema, em paradigmas do Mal (em contraposi\u00e7\u00e3o aos humanos seres dentro das celas). 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