{"id":2788,"date":"2011-09-05T09:53:27","date_gmt":"2011-09-05T12:53:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2788"},"modified":"2011-09-05T09:53:27","modified_gmt":"2011-09-05T12:53:27","slug":"dyonelio-machado-quarenta-anos-de-silencio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dyonelio-machado-quarenta-anos-de-silencio","title":{"rendered":"DYONELIO MACHADO: QUARENTA ANOS DE SIL\u00caNCIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Iuri Muller, que no twitter se assina @mulleriuri, que localizou e me enviou o texto, publico hoje o artigo sobre O Louco do Cati, o genial romance oculto de Dyonelio Machado. Originalmente, o artigo saiu na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 1979. Ele me foi pedido pelo pesquisador da obra de Dyonelio Machado, o professor F\u00e1bio Passoni Martins . A\u00ed est\u00e1, na \u00edntegra. Noto agora que este texto tem uma abordagem sintonizada com a luta que n\u00f3s, escritores da gera\u00e7\u00e3o emergente na \u00e9poca, desenvolv\u00edamos em v\u00e1rios fronts, como atestam as cartas de Caio Fernando Abreu que estou postando aqui no Di\u00e1rio da Fonte. \u00c9 sobre marginaliza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, em suma. Com um agravante: \u201cCurioso \u00e9 que o Dyon\u00e9lio h\u00e1 pouco foi \u00b4redescoberto\u00b4 pelas editoras. Pela segunda vez, inclusive, conforme o teu texto\u201d, diz Iuri Muller.<\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Os escritores brasileiros das novas gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o com toda a raz\u00e3o: eles precisam lutar para abrir o mercado editorial, quase sempre avesso aos seus textos, para n\u00e3o serem violentamente reprimidos como aconteceu com o escritor Dyonello Machado, que s\u00f3 a partir do ano passado, com a oportuna edi\u00e7\u00e3o de &#8220;Os Deuses Econ\u00f4micos&#8221;, pela Garatuja de Porto Alegre, come\u00e7ou a ser &#8220;descoberto&#8221; como escritor de muitos livros. Antes, p\u00fablico e critica s\u00f3 o conheciam como o autor &#8211; brllhante \u2014 de &#8220;Os Ratos&#8221;, considerado um dos mais perfeitos livros da nossa literatura. Agora, a editora Vertente lan\u00e7a a segunda edi\u00e7\u00e3o de &#8220;O Louco dc Cati&#8221;, colocado entre os dez melhores romances brasileiros de todos os tempos por Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p>&#8220;O Louco do Cati&#8221; \u2014 que tem uma excelente apresenta\u00e7\u00e3o do escritor Fl\u00e1vio Moreira da Costa, um dos respons\u00e1veis pela redescoberta de Dyonello e apaixonado pelo livro \u2014 revela (com 40 anos de atraso) para o grande p\u00fablico, um g\u00eanio da nossa literatura, mantido num semi-anonimato at\u00e9 agora por v\u00e1rios motivos: pelos equ\u00edvocos e pela pregui\u00e7a da critica; pela opress\u00e3o provinciana da sua pr\u00f3pria cidade: pelos editores que v\u00eaem nele um escritor &#8220;dif\u00edcil&#8221; (quem rompeu com esse equivoco foi Mary Weiss, da editora Garatuja, que depois de &#8220;Os Deuses Econ\u00f4micos&#8221; lan\u00e7ar\u00e1 neste ano outro livro seu, &#8220;Mulheres&#8221;: e pelo seu estigma pol\u00edtico, j\u00e1 que foi um dos mais ativos militantes da esquerda no Rio Grande do Sul (&#8220;Nunca fiz politica na fic\u00e7\u00e3o. Fiz politica nas pra\u00e7as, na Assembl\u00e9ia&#8221; \u2014 ele foi deputado estadual<br \/>\n\u2014 &#8220;e na policia&#8221;, disse ele para &#8216;Escrita\u00b4).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Dyonello faz uma literatura social fora dos esquemas de &#8220;direita&#8221; ou &#8220;esquerda&#8221;, o que ajudou tamb\u00e9m a critica a valorizar &#8220;Os Ratos&#8221; \u2014 mais facilmente catalog\u00e1vel como um romance &#8220;de protesto&#8221; \u2014 e a desprezar &#8220;O Louco do Cati&#8221;. Fl\u00e1vio Moreira da Costa aponta alguns elementos da atualidade do livro:<\/p>\n<p>&#8220;Precursor em v\u00e1rios n\u00edveis, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por isso, no entanto, que &#8220;O Louco do Catl&#8221; se imp\u00f5e: ele \u00e9 o romance brasileiro da ditadura (de Vargas, poderia ser de outro); o grande romance latino-americano da persegui\u00e7\u00e3o e da pris\u00e3o pol\u00edtica. E isso tudo sem &#8220;engajamentos&#8217;!&#8221; superficiais, sem discursos de fora para dentro (ou de cima para baixo, como parece ser comum hoje, e n\u00e1o s\u00f2 em literatura). A narrativa se apresenta t\u00e3o consciente de seu poder que em nenhum momento as palavras-chaves s\u00e2o ditas: certamente, sutileza e grandeza do autor que, assim, evitou escrever um romance datado\u201d.<\/p>\n<p>Don\u00e9lio levou t\u00e2o a fundo essa sua qualidade de apenas sugerir \u2014 por elimina\u00e7\u00e3o das palavras-chaves, como notou Fl\u00e1vio \u2014 que o pr\u00f3prio personagem principal do livro, na maior parte da narrativa, \u00e9 apenas uma sugest\u00e3o. Ele fica \u00e0 margem da a\u00e7\u00e3o, do primeiro plano \u2014 que por uma habilidade genial do autor nunca \u00e9 a &#8220;a\u00e7\u00e2o principal&#8221;. O personagem principal, assim, \u00e9 um enigma que se decifra \u2014 de m\u00faltiplas maneiras \u2014 s\u00f3 no final. Ao longo da hist\u00f3ria, ele vai a reboque de outros personagens, atrav\u00e9s de uma viagem pelo Interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria narrativa n\u00e3o est\u00e1 orientada apenas para o &#8220;suspense&#8221; desse mist\u00e9rio, mas para dentro de si mesma: as situa\u00e7\u00f5es, aparentemente absurdas e sem objetivos, se bastam devido ao rigor da linguagem de Dyonelio Machado. Elas s\u00e3o o romance e poder\u00e3o desorientar o leitor viciado em esquemas tradicionais. Essa \u00e9 a grandeza de Dyonelio: para encontrar a grandeza de seus personagens, ele n\u00e3o precisou mentir, n\u00e3o precisou inventar, n\u00e3o precisou dramatizar, for\u00e7ar a emo\u00e7\u00e3o a partir do arqu\u00e9tipos! Ele aparentemente narra o trivial simples. E isso nos faz descobrir a import\u00e2ncia de um cotidiano &#8220;sem import\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a sua atualidade: a realidade, despida Inclusive dos conceitos sobre &#8220;realidade&#8221;. Uma descoberta m\u00edtica da loucura desconexa do dia-a-dia. A &#8220;Inven\u00e7\u00e3o&#8221; de um novo real.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; Estava em fechamento na Ilustrada e pedi para o escritor Moacir Am\u00e2ncio, que trabalhava nesse caderno da Folha,que levasse meu exemplar rar\u00edssimo de O Louco do Cati, que me foi presenteado pelo amigo Eduardo San Martin,para a noite de aut\u00f3grafos de Dyon\u00e9lio. Am\u00e2ncio me contou depois que Dyonelio, antes de autografar, insistiu para ficar com o exemplar, pois era uma edi\u00e7\u00e3o rara e ele n\u00e3o tinha mais. O livro ficou entre meus guardados e foi recuperado em S\u00e3o Paulo num trabalho gr\u00e1fico primoroso que colocou uma sobrecapa e cuidou do aspecto geral do livro, gra\u00e7as a meu filho Daniel Ducl\u00f3s, apaixonado pela obra. Mais tarde, Daniel me presenteou de novo com a raridade recuperada. Para facilitar a busca, coloco aqui a fonte da pesquisa do texto: DUCL\u00d3S, Nei. Quarenta anos de sil\u00eancio. Folha de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, p. 27, 3 fev. 1979<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Gra\u00e7as a Iuri Muller, que no twitter se assina @mulleriuri, que localizou e me enviou o texto, publico hoje o artigo sobre O Louco do Cati, o genial romance oculto de Dyonelio Machado. Originalmente, o artigo saiu na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 1979. 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