{"id":2792,"date":"2011-09-05T09:58:19","date_gmt":"2011-09-05T12:58:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2792"},"modified":"2011-09-05T09:58:19","modified_gmt":"2011-09-05T12:58:19","slug":"fedora-billy-wilder-filma-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/fedora-billy-wilder-filma-o-cinema","title":{"rendered":"FEDORA: BILLY WILDER FILMA O CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Num enfoque tradicional, cinema \u00e9 produ\u00e7\u00e3o e consumo de mitos, encarnados em rostos que imantam a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 precioso atuar, basta ter essa m\u00e1gica visual, muito al\u00e9m da fotogenia: o mist\u00e9rio da proje\u00e7\u00e3o de personalidades que transcendem a vida ordin\u00e1ria do p\u00fablico, que assim se identifica com algo maior e mais alto. A abordagem oposta \u00e9 outra ilus\u00e3o: a do cinema verdade, que aposta em narrativas cruas sobre personagens comuns e n\u00e3o carism\u00e1ticos. Em v\u00e1rios momentos, esses dois conceitos antag\u00f4nicos da S\u00e9tima Arte entraram em confronto direto por meio de obras, autores, atores e atrizes, roteiristas, produtores.<\/p>\n<p>S\u00e3o processos empresariais que se digladiam e transbordam na tela em conflitos expl\u00edcitos. \u00c9 famoso o caso da nova gera\u00e7\u00e3o de cineastas, como Coppola e George Lucas, que se insurgiram e depois foram tragados pela megaind\u00fastria. Mas h\u00e1 antecedentes. Na virada para o cinema sonoro, esse antagonismo era entre o rosto angelical e expressivo de Greta Garbo, a transpar\u00eancia do ego divinal, e o rosto mascarado de Al Jolson em The Jazz Singer (1927), a persona sobreposta ao personagem de maneira clara para o p\u00fablico. Garbo emanava luz em closes majestosos de cinema mudo (apesar do filme ser falado) sobre o conv\u00e9s de A Rainha Cristina (1933); Al Jolson colocava diante do p\u00fablico uma outra realidade: a da imagem de m\u00e3os dadas com o som, dividindo assim a aten\u00e7\u00e3o que antes ia inteira para o fotograma (e o piano das sess\u00f5es era apenas coadjuvante e n\u00e3o protagonista, como a m\u00fasica inserida na obra e as falas em voz alta).<\/p>\n<p>Essa ruptura e suas graves conseq\u00fc\u00eancias para o cinema cl\u00e1ssico est\u00e3o magistralmente colocada na obra-prima Sunset Boulevard (1950), de Billy Wilder, em que o narrador morto, bi\u00f3grafo gigol\u00f4 e vigarista, interpretado pro William Holden, extorque dinheiro a estrela decadente e veterana (Gloria Swanson, ela mesma atriz que conheceu a fama e estava fora do circuito), alimentando sua ilus\u00e3o de que continua no auge, quando n\u00e3o passa de uma ru\u00edna. Billy debocha do cinema verdade ao colocar o narrador boiando numa piscina e tirando sarro da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o. Mas seu drama em forma de com\u00e9dia, como em toda sua obra, \u00e9 cruel, pois mostra a derrocada de um conceito de se fazer cinema em detrimento de outro, vencedor, que traz o cinismo para a tela e enterra a mitologia das divas.<\/p>\n<p>N\u00e3o por muito tempo, pois o cinema sonoro foi ainda mais expl\u00edcito na sua fabrica\u00e7\u00e3o de mitos, como a provar que essa ess\u00eancia sobrevive \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es e mant\u00e9m-se intacta, como se fosse a raz\u00e3o de ser do cinema. Billy Wilder continuou sua saga de filmar o cinema e \u00e9 isso que se v\u00ea em v\u00e1rias obras suas, como em Stalag 17, em que o prisioneiro se apaixona por Betty Grable em intermin\u00e1veis sess\u00f5es de cinema e alimenta sua idolatria com o poster dela de corpo inteiro. No mesmo filme, h\u00e1 um especialista em imita\u00e7\u00f5es que a toda hora traz \u00e0 tona James Cagney, Cary Grant e outros mitos masculinos que irromperam com for\u00e7a a partir dos anos 30, quando Billy, sa\u00eddo da persegui\u00e7\u00e3o nazista, chegava com tudo em Holllywood para fazer hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ele mesmo aparece num dos seus cantos de cisne, Fedora (1978), numa cena em que filma um baile de gala, cena t\u00edpica do cinema mit\u00f4nomo dos 30 em que a aristocracia europ\u00e9ia era o modelo dos sonhos de uma rep\u00fablica envolvida na depress\u00e3o e depois na guerra. Em Fedora, que \u00e9 sobre cinema, o personagem de William Holden ressurge 28 anos depois de Sunset Boulevard como produtor de filmes independentes. Mantem-se id\u00eantica a rela\u00e7\u00e3o desse personagem, que cruza tr\u00eas d\u00e9cadas, com a atriz decadente \u2013 do cinema mudo no cl\u00e1ssico com Gloria Swanson e do cinema falado nesta continua\u00e7\u00e3o encarnada pela atriz Marthe Keller. O sujeito precisa da estrela que se apagou para levantar um dinheiro. Sabemos do que trata a primeira hist\u00f3ria, cl\u00e1ssico absoluto sobre o terremoto do som na S\u00e9tima Arte e a desgra\u00e7a dos que tinham tudo e ficaram sem nada. Mas o que acontece em Fedora, deste Billy Wilder em fim de carreira, sem cacife dos grandes est\u00fadios e que acaba criando com apoio do escasso dinheiro europeu?<\/p>\n<p>O mestre n\u00e3o abre m\u00e3o do g\u00eanio e junto com seu fiel roteirista, IAL Diamond, conta a saga da estrela que envelheceu e resolveu manter a lenda colocando na roda a pr\u00f3pria filha, que encarna o mito. Isso \u00e9 fatal para a substituta, que, como diz o filme, \u00e9 uma amadora, n\u00e3o tem o a\u00e7o apropriado para manter-se firme sob a maquiagem. A insist\u00eancia em manter o rosto intacto, como quis Greta Garbo ao se recolher no auge da carreira (n\u00e3o permitia que as c\u00e2maras captassem sua derrocada f\u00edsica) gerou um estado psic\u00f3tico na filha,que depois de fazer alguns filmes como a falsa Fedora acaba se apaixonando por um jovem ator (Michael York, interpretando ele mesmo) e desistindo da carreira ao saber que teria de continuar como Fedora at\u00e9 morrer.<\/p>\n<p>O p\u00fablico est\u00e1 cansado de cinema verdade, diz a verdadeira Fedora disfar\u00e7ada de condessa. Precisa voltar ao mito, \u00e0 lenda. \u00c9 o que pensa Billy Wilder em fim de carreira, encerrando assim suas atividades de mestre do of\u00edcio, quando homenageia seus \u00eddolos, colocando Henry Fonda como o presidente da academia de cinema que d\u00e1 um Oscar de consola\u00e7\u00e3o para a atriz escondida. Pois o cinema n\u00e3o vive de arte, mas de lucros e se a arte traz lucro, como aconteceu com Wilder em grandes sucessos, melhor. Se n\u00e3o acenar com essa perspectiva, o autor fica fora. Foi o que aconteceu com ele. Mas, em vez de se entregar ao besteirol que tomou conta de Hollywood, ele foi atr\u00e1s dos investidores europeus, para manter seu trabalho. Mais ou menos como Woody Allen e Roman Polanski hoje, que sa\u00edram do circuito e criaram outro para continuar trabalhando.<\/p>\n<p>Billy viu na frente por ter uma vis\u00e3o crua do espet\u00e1culo que ajudava a inventar. Tudo n\u00e3o passa de truque e ilus\u00e3o, dizem os personagens l\u00facidos de Fedora. Mesmo aqui, nesta obra que pesquisa as engrenagens do monstro e n\u00e3o se limite apenas aos bastidores da S\u00e9tima Arte. Tudo \u00e9 representa\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 linguagem. Os g\u00eanios sabem disso como ningu\u00e9m. Por isso s\u00e3o radicais na sua gana de mostrar todas as camadas superpostas da ind\u00fastria do espet\u00e1culo. Contribuem assim, com seu of\u00edcio e testemunho, para nos dar esperan\u00e7a de que o confronto entre cinema cl\u00e1ssico e interven\u00e7\u00f5es opostas tenham como resultado o triunfo do g\u00eanio e a emo\u00e7\u00e3o de sermos transportados para uma gl\u00f3ria t\u00e3o ef\u00eamera quanto eterna que \u00e9 o espa\u00e7o de tempo que dura uma sess\u00e3o de cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Num enfoque tradicional, cinema \u00e9 produ\u00e7\u00e3o e consumo de mitos, encarnados em rostos que imantam a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 precioso atuar, basta ter essa m\u00e1gica visual, muito al\u00e9m da fotogenia: o mist\u00e9rio da proje\u00e7\u00e3o de personalidades que transcendem a vida ordin\u00e1ria do p\u00fablico, que assim se identifica com algo maior e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2792"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2792"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2794,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2792\/revisions\/2794"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}