{"id":28,"date":"2005-05-13T21:18:39","date_gmt":"2005-05-13T23:18:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=28"},"modified":"2009-12-20T19:17:00","modified_gmt":"2009-12-20T21:17:00","slug":"vinicius-de-moraes-a-sintese-da-paixao-morena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vinicius-de-moraes-a-sintese-da-paixao-morena","title":{"rendered":"Vin\u00edcius de Moraes: A s\u00edntese da paix\u00e3o morena"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/icons\/vinicius.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>O soneto \u00e9 paradoxo: apesar do destino tra\u00e7ado em quatro estrofes, se desdobra. Quer tocar o outro lado, sem perder a forma. Por isso seu capricho \u00e9 repetir-se dizendo coisas novas. Territ\u00f3rio ideal para Vin\u00edcius de Moraes, poeta plural que no in\u00edcio de carreira possu\u00eda de heran\u00e7a apenas a letra morta de antigos sonetos: amada noturna, de carne branca ao luar, imut\u00e1vel e \u00fanica. Clima de culpa, doen\u00e7a, desmaio, fastio. Um fardo rom\u00e2ntico de palavras funcionando como um ba\u00fa de ossos: p\u00e1lida, fria, l\u00fabrica, devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desarrumar esse esp\u00f3lio com algumas provoca\u00e7\u00f5es foi sua grande emo\u00e7\u00e3o aos 24 anos. Em 1937 come\u00e7ou a rimar ci\u00fame com estrume, bela com cadela (1). Procurou enfrentar o paradoxo: amor, se \u00e9 fugaz, pode ser profundo? Se o presente \u00e9 tudo, \u00e9 poss\u00edvel ser eterno? S\u00e3o contradi\u00e7\u00f5es que a modernidade do poeta n\u00e3o resolve na primeira tacada. Ao contr\u00e1rio: carregado pela tradi\u00e7\u00e3o, Vin\u00edcius precisa optar dolorosamente.<\/p>\n<p>Foi assim que, em 1938, do momento im\u00f3vel se fez o drama (2). \u00c9 o fim de antigos la\u00e7os, a vida torna-se uma aventura e poeta despede-se, mais do que da amada, de toda uma velha poesia. \u00c9 chegada a hora de n\u00e3o temer mais o fim da madrugada. N\u00e3o \u00e9 mais preciso fugir ou esconder-se. &#8220;Ela despertar\u00e1 sob o meu beijo\/enquanto a treva se desfaz l\u00e1 fora&#8221; (3). O dia ilumina o amor com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es. O que era pesado, triste, se revela complexo, estranho, real. Os gemidos, antes desolados, possuem agora um calor rude. &#8220;Amamos, vagamente surpreendidos\/pelo ardor com que estamos unidos\/N\u00f3s que and\u00e1vamos sempre separados&#8221; (4).<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia o poema, que era p\u00e1lido, se torna transl\u00facido. A fraqueza enfrenta a escurid\u00e3o, a palavra perde a saudade e, enfim: a &#8220;mulher me ama e me ilumina&#8221; (5). Assim o sol &#8211; o amor, no espelho de met\u00e1foras do jovem Vin\u00edcius &#8211; come\u00e7a a passear pelo corpo branco da amada. H\u00e1, por\u00e9m, dois problemas: tanto a mulher, objeto de desejo, quanto o poeta continuam presos ao passado. &#8220;Como ocultar a sombra em mim suspensa?&#8221; (6), pergunta-se.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento de uma nova dolorosa op\u00e7\u00e3o: romper o cerco da treva significa um desenlace espiritual? \u00c9 poss\u00edvel amar intensamente longe de antigas obsess\u00f5es e arrancar pureza \u00e0 carne intransigente? &#8220;Brancas trevas&#8221; (7) espica\u00e7am o poeta nessa fase. Quem resolve o novo paradoxo \u00e9 a pr\u00f3pria poesia, atrav\u00e9s de uma obra-prima: o amor, j\u00e1 que n\u00e3o pode ser imortal, torna-se infinito(8) e o verbo, ent\u00e3o livre de culpa, pode unir-se \u00e0 natureza.(9). E definir Vin\u00edcius, identific\u00e1-lo: &#8220;Nas\u00e7o amanh\u00e3\/Ando onde h\u00e1 espa\u00e7o\/Meu tempo \u00e9 quando&#8221; (10).<\/p>\n<p>Tendo encontrado o seu caminho e sem ter jogado fora totalmente suas heran\u00e7as &#8211; pois as coisas que passam urgem e o que \u00e9 morto vibra &#8211; Vin\u00edcius atinge finalmente a maioridade. Aos 41 anos: &#8220;Nascemos para o sol: \u00e9s mocidade \/em plena flora\u00e7\u00e3o, fruto sem dano&#8221; (11). A nudez da mulher amada agora \u00e9 diferente da nudez lunar. &#8220;Uma mulher ao sol, eis todo o meu desejo&#8221; (12). A chuva e o vento cedem &#8220;\u00e0 pura claridade\/do sol do amor intenso&#8221;. A conseq\u00fc\u00eancia de tanta ilumina\u00e7\u00e3o no corpo branco da amada s\u00f3 pode ser uma: a &#8220;rosa morena&#8221;. Todas as cores, unidas, leva a mulher morena ao &#8220;branco negrume do meu leito em chamas&#8221;(13). Mas, se a natureza salva o amor e provoca a s\u00edntese da paix\u00e3o morena, a maldi\u00e7\u00e3o do poeta criado na penumbra n\u00e3o o abandona. Ele tem ci\u00fames da terra, do ar, do fogo e da \u00e1gua que tratam sua amada sem muita cerim\u00f4nia. E, apesar do amor sem culpa e da mulher morena e linda, existem ciladas contra a luz: &#8220;Descubro meu reflexo obscuro\/num soneto de espumas inexatas&#8221;. Num dos sonetos in\u00e9ditos (existem, neste lan\u00e7amento, nove), ele identifica-se com a treva e a mulher (a baiana Gesse, em 1971) com a luz(14).<\/p>\n<p>Esse novo paradoxo produz o poente, a morte. Para n\u00f3s, \u00f3rf\u00e3os de Vin\u00edcius, iluminados pelo seu exemplo e coragem, \u00e9 imposs\u00edvel evitar a saudade. Resta-nos acompanhar sua trajet\u00f3ria da treva para o sol nestes sonetos ontol\u00f3gicos, viajar nas paisagens contradit\u00f3rias de sua poesia. E morrer de amor pela palavra, resgatar sua emo\u00e7\u00e3o, faz\u00ea-la ocupar seu espa\u00e7o. Em vez de p\u00f3, p\u00f3len.<\/p>\n<p>1. Soneto de Devo\u00e7\u00e3o e Soneto de Identidade, 1937<br \/>\n2. Soneto de Sepra\u00e7\u00e3o,1938<br \/>\n3. Soneto de Oxford,1938<br \/>\n4. Soneto de Agosto, 1938<br \/>\n5. Quatro Sonetos de Medita\u00e7\u00e3o,(II),1938<br \/>\n6. Soneto de V\u00e9spera, 1939<br \/>\n7. Soneto de Londres, 1939<br \/>\n8. Soneto de Fidelidade, 1939<br \/>\n9. Soneto da Rosa, 1944<br \/>\n10. Po\u00e9tica (1),1950<br \/>\n11. Soneto da Maioridade, 1954<br \/>\n12. Soneto da Mulher ao Sol, 1956<br \/>\n13. O Espectro da Rosa, 1958<\/p>\n<p><em>resenha publicada em 18 de maio de 1981, no jornal &#8216;O ESTADO DE S\u00c3O PAULO&#8217;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O soneto \u00e9 paradoxo: apesar do destino tra\u00e7ado em quatro estrofes, se desdobra. Quer tocar o outro lado, sem perder a forma. 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