{"id":281,"date":"2009-12-10T10:21:20","date_gmt":"2009-12-10T12:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=281"},"modified":"2009-12-10T10:21:21","modified_gmt":"2009-12-10T12:21:21","slug":"jean-charles-filme-livra-a-cara-dos-ingleses","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/jean-charles-filme-livra-a-cara-dos-ingleses","title":{"rendered":"JEAN CHARLES: FILME LIVRA A CARA DOS INGLESES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A Justi\u00e7a brit\u00e2nica j\u00e1 decidiu: a Scotland Yard agiu dentro dos princ\u00edpios de pol\u00edcia ao fuzilar pelas costas em 2005 o brasileiro Jean Charles Menezes na esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4 Stockwell, confundido com um terrorista no auge das investiga\u00e7\u00f5es dos atentados em Londres. Mas essa atitude oficial arrogante pega mal para um pa\u00eds que quer transmitir a imagem de politicamente correto. Assim, al\u00e9m de agradar os conservadores, que ap\u00f3iam a a\u00e7\u00e3o covarde dos assassinos, \u00e9 preciso tamb\u00e9m atender os cr\u00edticos e para isso existem os advogados sensibilizados com a injusti\u00e7a, as ongs, os progressistas branquelos, entre outros exemplares da fauna. Enquanto os bandidos ficam impunes, s\u00e3o distribu\u00eddos b\u00f4nus para quem ficou puto da cara.<\/p>\n<p>Um desses mimos foram as 15 mil libras doadas pela pol\u00edcia brit\u00e2nica \u00e0 fam\u00edlia de Jean Charles, que vive em Gonzaga, pequena cidade do interior de Minas. Outra passadinha na cabe\u00e7a \u00e9 o filme Jean Charles, produzido e patrocinado em parte por ingleses, como Stephen Frears, dirigido pelo brasileiro que vive na Inglaterra, Henrique Goldman e protagonizado por um ator que nesse filme transmite a leveza, o veneno, a superficialidade, a ligeireza e a desimport\u00e2ncia de ser brasileiro, principalmente no exterior, Selton Melo. Est\u00e1 feito o carreto. Basta contar direitinho a vers\u00e3o apropriada da hist\u00f3ria do eletrecista chacinado que ningu\u00e9m vai desconfiar de nada.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que se diga que o filme \u00e9 uma sacanagem do come\u00e7o ao fim. Apresenta Jean Charles n\u00e3o como um boa pra\u00e7a, mas como um sujeito falso e aproveitador, que mente para a imigra\u00e7\u00e3o inglesa e ainda debocha dela; que mente para os empregadores dizendo que a amiga rec\u00e9m chegada de Minas fala ingl\u00eas; que rouba clientes do seu empregador conterr\u00e2neo; que cuida de documentos falsos e ainda n\u00e3o consegue cumprir a palavra dada.<\/p>\n<p>Esse personagem safado e sem escr\u00fapulos \u00e9 apresentado como f\u00e3 de uma contrafa\u00e7\u00e3o: Sidney Magal. O certo seria chamar o Zeca Pagodinho, que na vida real era o \u00eddolo do eletricista, mas como n\u00e3o deu certo, chamaram Magal. Que serve perfeitamente para o papel: \u00e9 \u201clatino\u201d, ou seja, hisp\u00e2nico, caliente, rebolante, com putas que requebram no palco com bandeirinhas do Brasil cobrindo as partes pudendas e fazendo gestos exagerados de lambada. Est\u00e1 ent\u00e3o definido o perfil do brasileirinho mentiroso e enganador, med\u00edocre consumidor de cultura trash e que foi colhido n\u00e3o por um erro policial, mas por uma opera\u00e7\u00e3o de guerra \u201cjusta e limpa\u201d.<\/p>\n<p>Daria muita bandeira todo esse esquema sem-vergonha do filme se n\u00e3o hovuesse alguns contrapontos. Um deles \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o desesperada e violenta do seu primo contra os policiais, que chega a dar verossimilhan\u00e7a a um povo que clama por justi\u00e7a e tem coragem de dizer isso na cara. O mesmo personagem destrata os emiss\u00e1rios da Scotland Yard que v\u00e3o no ermo mineiro entregar o cheque. A emo\u00e7\u00e3o dos funerais na cidadezinha tamb\u00e9m ajuda a dar um aspecto de retrata\u00e7\u00e3o ao crime hediondo, pois a emo\u00e7\u00e3o que provoca limparia a culpa de todos, tantos dos assassinos, quanto dos migrantes que mentem para ficar l\u00e1.<\/p>\n<p>O que me deixa intrigado \u00e9 o empreiteiro que emprega Jean Charles em Londres e faz o papel dele mesmo. Ningu\u00e9m comenta que no filme Jean fica mal na fita, pois rouba o cliente daquele que o considera amigo. Quer dizer, essa hist\u00f3ria foi contada pelo patr\u00e3o e todos confirmam, \u00e9 isso? Reproduzem essas hist\u00f3rias para &#8220;humanizar&#8221; o personagem, jamais trat\u00e1-lo como her\u00f3i (isso nunca! \u00e9 um brasileiro, ora).<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que Jean Charles n\u00e3o pode se defender. N\u00e3o pode expressar sua luta, a grandeza de sua presen\u00e7a como cidad\u00e3o que se reinventa no mundo. Est\u00e1 calado para sempre nosso her\u00f3i solit\u00e1rio, brasileiro que se foi e levou junto sua verdade. Enquanto isso, os chacais se locupletam com sua mem\u00f3ria, enganando inclusive os familiares, que se emocionaram com o filme. E a pol\u00edcia pede \u201cdesculpas\u201d. Hip\u00f3critas. Voc\u00ea n\u00e3o comete um crime e depois diz: &#8220;foi mal a\u00ed&#8221;. \u00c9 porque n\u00e3o pedem desculpas, jamais pedem perd\u00e3o de nada. Mant\u00e9m-se firmes e isso \u00e9 representado no filme pela voz cavernosa e prepotente em off relatando os antecedentes do equ\u00edvoco. Como a dizer: havia motivos para os tiros na nuca. Animais.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos essa na\u00e7\u00e3o de mendigos que est\u00e1 em Londres de favor. Estamos cobrando a conta de tantos s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria. Estamos voltando para a origem dos nossos males, lutando por enquanto pela sobreviv\u00eancia, mas daqui a pouco impondo nossa cultura real, n\u00e3o essa, fake, rebolante, de araque, t\u00e3o incensada pelos entregadores do pa\u00eds.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; Quando mataram Jean Charles, publiquei aqui um texto e um poema. Reproduzo o poema hoje:<\/p>\n<p>O PASSO DA BANDEIRA<\/p>\n<p>(Para Jean Charles Menezes, in memoriam)<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Essa bandeira omissa amortalha tua presen\u00e7a<br \/>\nVoltas para a origem embalado em nosso ombro<br \/>\nDepositam teu corpo no ch\u00e3o pleno de sonho<br \/>\nUm poema in\u00fatil engrossa a fila da den\u00fancia<\/p>\n<p>\u00c9s a coragem que cruza o mar de bolso vazio<br \/>\n\u00c9s o medo de cidad\u00e3os amorda\u00e7ados pelo Mal<br \/>\nO Hino \u00e9 a despedida que cerca a indiferen\u00e7a<br \/>\nQuerias o Tempo, mas teu \u00fanico sal caiu no rio<\/p>\n<p>N\u00e3o temos como recuar, agora que \u00e9s lembran\u00e7a<br \/>\nPor que a ferocidade destruiu o teu exemplo?<br \/>\nMorreste num curral, derrubado de vingan\u00e7a<\/p>\n<p>A covardia \u00e9 a moeda vil dos que nos compram<br \/>\nUma esta\u00e7\u00e3o de flores foi plantada com terror<br \/>\nOlhamos para ti e nosso choro \u00e9 apenas vento<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso que se diga que o filme \u00e9 uma sacanagem do come\u00e7o ao fim. Apresenta Jean Charles n\u00e3o como um boa pra\u00e7a, mas como um sujeito falso e aproveitador, que mente para a imigra\u00e7\u00e3o inglesa e ainda debocha dela; que mente para os empregadores dizendo que a amiga rec\u00e9m chegada de Minas fala ingl\u00eas; que rouba clientes do seu empregador conterr\u00e2neo; que cuida de documentos falsos e ainda n\u00e3o consegue cumprir a palavra dada.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":282,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281\/revisions\/282"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}