{"id":2819,"date":"2011-09-05T10:21:38","date_gmt":"2011-09-05T13:21:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2819"},"modified":"2011-09-05T10:21:38","modified_gmt":"2011-09-05T13:21:38","slug":"freud-de-huston-o-detetive-de-um-filme-noir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/freud-de-huston-o-detetive-de-um-filme-noir","title":{"rendered":"FREUD, DE HUSTON, O DETETIVE DE UM FILME NOIR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme Freud (1962), de John Huston, que ganhou no Brasil um adendo no t\u00edtulo (\u201cAl\u00e9m da alma\u201d, que n\u00e3o quer dizer absolutamente nada), \u00e9 um filme noir de detetive. O roteiro infilm\u00e1vel de 800 p\u00e1ginas de Sartre, encomendado por Huston, foi abandonado (sobreviveram algumas cenas e di\u00e1logos). A tarefa ent\u00e3o foi entregue a pessoas do ramo, como Charles Kaufman, que transformaram o pai da psican\u00e1lise num Sherlock Holmes (interpretado por Montgomery Clift) vagando pelas ruas de Viena em tudo parecida com a Londres do fog. Disp\u00f5e at\u00e9 de um Watson, tamb\u00e9m m\u00e9dico, o Dr. Joseph Breuer (interpretado por Larry Parks), encarregado de cuidar dele e que \u00e9 seu principal confidente e cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Sherlock precisa descobrir o assassino que age nos bastidores da mente e leva as pessoas ao suic\u00eddio. Para isso ele tem algumas pistas, deixadas por um especialista franc\u00eas que descobriu os recursos terap\u00eauticos da hipnose e do seu pr\u00f3prio Watson\/Breuer, que trabalha com pacientes que sofrem de histeria. Al\u00e9m disso, descobre em si mesmo os vest\u00edgios da neurose, o que o torna um referencial para o caso. A lucidez desaparece sem deixar rastros e no seu lugar \u00e9 colocado um comportamento f\u00edsico hediondo, incontrolado e falas desconexas varridos pelo p\u00e2nico e o terror. O serial killer faz muitas v\u00edtimas e a medicina oficial (esp\u00e9cie de uma incompetente Scotland Yard) apega-se a conceitos e m\u00e9todos obsoletos fundados em preconceitos de classe principalmente (o chefe dos m\u00e9dicos \u00e9 um aristocrata que despreza a mis\u00e9ria f\u00edsica e mental dos pacientes, acusados de fingimento).<\/p>\n<p>O detetive precisa romper o c\u00edrculo formado em torno do mist\u00e9rio, pois, apesar de o crime estar \u00e0 vista de todos e faz v\u00edtimas tanto na pobreza quanto nos pal\u00e1cios, h\u00e1 uma cegueira geral porque o c\u00e2none \u00e9 a racionalidade como \u00fanico recurso da mente humana e a sexualidade \u00e9 colocada exclusivamente da adolesc\u00eancia para cima. A inoc\u00eancia da inf\u00e2ncia anexava a assexualidade, como se o sexo se manifestasse tardiamente e n\u00e3o desde o ber\u00e7o. O assassino que Freud precisa encontrar para desmascar\u00e1-lo e impedir o estrago que fazia \u00e9 a fonte da histeria. Onde ela se esconde? O m\u00e9todo \u00e9 a pesquisa e a dedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias, mascaradas nas lembran\u00e7as remotas e nos gestos expl\u00edcitos dos pacientes hipnotizados, apavoram o detetive, um m\u00e9dico tradicional, de fam\u00edlia tradicional. Tudo obedece \u00e0s narrativas policiais cl\u00e1ssicas, pois o que \u00e9 revelado num primeiro esfor\u00e7o se mostra apenas a imagem avessa ou obl\u00edqua de algo mais oculto. Para chegar ao n\u00facleo da quest\u00e3o, ele preciso trabalhar um jogo complexo de representa\u00e7\u00f5es. Aceita, por exemplo, ser o amor da sua paciente sabendo que ela apenas o uso para projetar um relacionamento traum\u00e1tico mais fundo com o pai. Isso ajuda o problema a aflorar, com todos os riscos poss\u00edveis, pois seu casamento, como aconteceu com o do Dr. Breuer, balan\u00e7a com esse ass\u00e9dio.<\/p>\n<p>A mulher em quest\u00e3o \u00e9 a bela Suzannah York, numa interpreta\u00e7\u00e3o fort\u00edssima, identificada com o que h\u00e1 de melhor de outra grande atriz, Julie Christie. N\u00e3o por serem ambas loiras e jovens, mas porque fazem da ang\u00fastia o aparato principal de um amor imposs\u00edvel, sem a afeta\u00e7\u00e3o do of\u00edcio, apenas a afeta\u00e7\u00e3o natural, da personagem. Ela imagina um relacionamento amoroso com o pai e transforma a vida da m\u00e3e num inferno. O pr\u00f3prio Freud descobre que seu \u00f3dio n\u00e3o percebido ao pai (que o impedia de cruzar o umbral do cemit\u00e9rio onde o velho estava enterrado) vinha da fantasia com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>As revela\u00e7\u00f5es bomb\u00e1sticas do m\u00e9dico outsider passam como um vendaval no meio cient\u00edfico e o estigmatizam para sempre. Mas Huston acredita na psican\u00e1lise e na sua import\u00e2ncia para a humanidade, que compara com a de Darwin e a de Cop\u00e9rnico. A f\u00e9 na psiquiatria tomou conta de Hollywood dos anos 40 at\u00e9 os anos 60. As pessoas eram problem\u00e1ticas, se tratavam e se curavam , como vimos em in\u00fameros filmes. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim, descobrimos mais tarde. O buraco \u00e9 mais embaixo e n\u00e3o \u00e9 um s\u00f3. O vil\u00e3o foi preso, mas acabou solto. E mais solto do que nunca, mesmo com toda a ind\u00fastria da psican\u00e1lise em plena atividade.<\/p>\n<p>Mas esses filmes permanecem como modelares porque conseguem ser did\u00e1ticos sem serem falsos, talvez pela f\u00e9 que todos devotavam a Freud na \u00e9poca. Clift inclusive queria dar pitacos sobr as falas, pois se considerava um entendido, o que provocu brigas com o diretor. Huston \u00e9 um homem malvado e conseguiu fazer, como sempre, um grande filme. Freud \u00e9 um filme pesado, n\u00e3o por ser em preto e branco, mas porque aborda temas pesados de maneira clara e corajosa. Por isso seu filme se mant\u00e9m firme, como um farol \u00e0 beira mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O filme Freud (1962), de John Huston, que ganhou no Brasil um adendo no t\u00edtulo (\u201cAl\u00e9m da alma\u201d, que n\u00e3o quer dizer absolutamente nada), \u00e9 um filme noir de detetive. 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