{"id":2833,"date":"2011-09-05T10:38:09","date_gmt":"2011-09-05T13:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2833"},"modified":"2011-09-05T10:38:09","modified_gmt":"2011-09-05T13:38:09","slug":"arrietty-a-chave-do-tamanho-que-abandonamos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/arrietty-a-chave-do-tamanho-que-abandonamos","title":{"rendered":"ARRIETTY, A CHAVE DO TAMANHO QUE ABANDONAMOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Em 1952 a inglesa Mary Norton come\u00e7ou a lan\u00e7ar uma s\u00e9rie de livros que no Brasil, quando traduzido mais tarde, ganhou no nome de Os Pequeninos . No original \u00e9 The Borrowers, ou Os Emprestadores. \u00c9 sobre seres min\u00fasculos (4 cm) que moram escondidos nas casas e tomam emprestado tudo o que for necess\u00e1rio para viver. Fica assim defendida a \u00e9tica desses personagens, que n\u00e3o seriam ladr\u00f5es, mas pessoas decentes, pois n\u00e3o se apropriam do que pegam, apenas as usam. Para devolver mais tarde? N\u00e3o faz sentido, mas o importante \u00e9 n\u00e3o dar mau exemplo ao p\u00fablico infantil. A n\u00e3o ser que seja uma representa\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia entre esp\u00e9cies diferentes, fundamental para a sobreviv\u00eancia de todos.<\/p>\n<p>Dez anos antes, em 1942, Monteiro Lobato lan\u00e7ou sua obra-prima, A Chave do Tamanho (sempre imaginei que esse livro daria uma magn\u00edfica anima\u00e7\u00e3o) sobre como a humanidade ficou min\u00fascula e teve que enfrentar a vida contra gatos, p\u00e1ssaros e outros predadores. \u00c9 exatamente o que acontece na hist\u00f3ria inglesa, adaptada em 2010 de maneira genial pelo est\u00fadio do mestre japon\u00eas Hayao Miyazaki. A dire\u00e7\u00e3o de Kari-gurashi no Arietti (Arrietti Pega Tudo Emprestado), ou simplesmente Arrietty, a garota que vai completar 14 anos e mora com os pais e \u00e9 descoberta por um menino normal, \u00e9 do disc\u00edpulo de Hayao, o jovem talento de 37 anos Hiromasa Yonebayashi, que trabalhou no departamento de anima\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Ponyo \u2013 Uma Amizade que Veio do Mar.<\/p>\n<p>Quando lembramos de Walt Disney,queu assinou tudo o que talentos da sua equipe criaram (s\u00f3 mais tarde ficamos sabemos de Carl Barks e outros criadores), temos de prestar aten\u00e7\u00e3o na seriedade e na \u00e9tica do g\u00eanio Hayao, que assim repassa o cr\u00e9dito para quem o acompanha e aprende com ele no seu Studio Ghibli. Arrietty \u00e9 sobre um tema recorrente, o rito de passagem da menina para a mulher, como acontece tantas vezes nessas obras-primas da anima\u00e7\u00e3o japonesa. Para variar, o filme \u00e9 um assombro visual e narrativo, com detalhes impressionantes e uma a\u00e7\u00e3o pautada pela persegui\u00e7\u00e3o aos pequeninos e como eles fazem para sobreviver. O foco \u00e9 o amor, a vontade de viver e a fantasia.<\/p>\n<p>O garoto normal que descobre a garota min\u00fascula sofre do cora\u00e7\u00e3o e est\u00e1 na casa da av\u00f3 descansando, deitado a maior parte do tempo. \u00c9 obrigado a se mexer quando a malvada empregada da casa, Haru, descobre a exist\u00eancia da mini-fam\u00edlia e decide chamar os Exterminadores. A fam\u00edlia dos pequeninos pode ser vista como fruto da imagina\u00e7\u00e3o do garoto confinado, que precisa de est\u00edmulo e apoio, j\u00e1 que sofre de uma orfandade brava, pois perdeu o pai e a m\u00e3e vive viajando. Essa fantasia, confinada no por\u00e3o, aflora em forma de menina-mo\u00e7a, a garota corajosa que tenta romper os limites familiares estimulada pela curiosidade pr\u00f3pria da idade e para cumprir seu destino de criatura amorosa em busca da realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O encontro e a despedida entre os dois s\u00e3o duas cenas antol\u00f3gicas, de fazer chorar as pedras. A impossibilidade do amor em dois mundos paralelos e incomensur\u00e1veis, ligados por um sentimento confuso e esplendoroso, jorra nesses momentos encantadores e toma conta da tela. Os dois ganham algo com o sonho que os aproxima: ele sabe que para se sair bem da cirurgia precisa acreditar em viver e ela descobre que para crescer precisa romper com a tradi\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo manter-se fiel aos princ\u00edpios que definem a dec\u00eancia de seu ambiente.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, maravilhosa, do filme foi composta pela francesa C\u00e9cile Corbe. Arriety foi lan\u00e7ado h\u00e1 poucos dias na Fran\u00e7a e na Inglaterra e est\u00e1 para chegar ao Brasil e aos Estados Unidos. O Brasil j\u00e1 tinha o plot, mas voc\u00eas sabem o que fizeram com o S\u00edtio do Pica-Pau Amarelo: destru\u00edram tudo na TV. T\u00ednhamos estatura, t\u00ednhamos tamanho e disp\u00fanhamos da chave. Mas foi tudo abandonado. Pior para n\u00f3s. Os estrangeiros sabem o que fazer com uma id\u00e9ia brilhante, que \u00e9 cl\u00e1ssica na literatura, a come\u00e7ar pelas Viagens de Gulliver.<\/p>\n<p>Depois de ver, emocionado, a hist\u00f3ria da menina que guarda para sempre o amor do garoto que a descobriu e protegeu, liguei na TV aberta. Passava um filme asqueroso, numa cena de banheiro,algu\u00e9m travestido fazia caretas sentado no vaso. \u00c9 assim que a bandidagem funciona no Brasil: desabitam o esp\u00edrito da coletividade com toda sorte de baixaria e deixam no limbo as maravilhas produzidas na nossa \u00e9poca, que tentam exatamente reverter a avassaladora onda de barb\u00e1rie que toma conta do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Em 1952 a inglesa Mary Norton come\u00e7ou a lan\u00e7ar uma s\u00e9rie de livros que no Brasil, quando traduzido mais tarde, ganhou no nome de Os Pequeninos . 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