{"id":2839,"date":"2011-09-05T10:43:19","date_gmt":"2011-09-05T13:43:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2839"},"modified":"2011-09-05T10:43:19","modified_gmt":"2011-09-05T13:43:19","slug":"paraiso-perdido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paraiso-perdido","title":{"rendered":"PARA\u00cdSO PERDIDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Desde que acabou a moleza do Para\u00edso, somos obrigados a pegar no batente. Mas fica a saudade, o vest\u00edgio: sempre sonhamos em nos recolher a algum tipo de lugar ed\u00eanico, para voltar ao bem bom. Nunca d\u00e1 certo, claro. N\u00e3o existe lugar intacto, pois por toda a parte carregamos a n\u00f3s mesmos, fonte de todos os conflitos. Os descobridores no s\u00e9culo 15 acharam que tinham encontrado esse mundo perdido, como mostra, de maneira magistral, a maior obra da erudi\u00e7\u00e3o do Brasil, \u201cVis\u00f5es do Para\u00edso\u201d, o livro obrigat\u00f3rio de Sergio Buarque de Holanda, em que cada cap\u00edtulo equivale a um livro \u00e0 parte.<\/p>\n<p>O que deslumbrou os europeus foram os bons ares (uma express\u00e3o que serviu para os hermanos argentinos batizarem sua ofuscante capital), a generosidade da terra e as provas de que realmente se tratava do ninho b\u00edblico, formador da humanidade a partir do primeiro casal. O maracuj\u00e1 com seus sinais cr\u00edsticos estaria no rol dos candidatos ao fruto proibido, entre outras \u201cevid\u00eancias\u201d. Da mesma forma que naquela \u00e9poca remota, continuamos nos enredando em especula\u00e7\u00f5es, mesmo com a fe\u00e9rica desconstru\u00e7\u00e3o de mitos, baseadas em investiga\u00e7\u00f5es pesadas.<\/p>\n<p>A mediunidade ainda n\u00e3o foi elevada \u00e0 categoria de ci\u00eancia, nem a literatura pode se arvorar a ser Hist\u00f3ria, mas acredito que talvez os mist\u00e9rios estejam decifrados na nossa frente e n\u00e3o nos damos conta. Toda vez que vou \u00e0 praia, aqui em Florian\u00f3polis, admiro as constru\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas, as pedras empilhadas, algumas do mesmo jeito que s\u00e3o vistas no interior da Inglaterra. L\u00e1, os menires s\u00e3o isso mesmo, aqui n\u00e3o passam de pedras na praia. Somos avessos \u00e0 Hist\u00f3ria, que dir\u00e1 a arqueologia, que busca o conhecimento ainda mais oculto. Mas talvez as causas, os motivos, estejam expl\u00edcitos.<\/p>\n<p>Uma lenda antiga dos ind\u00edgenas brasileiros fala de um gigante que se prevaleceu de uma formosa humana e por isso foi castigado, transformando-se na Serra do Mar. As nossas montanhas s\u00e3o gigantes deitados e dentro das ruinas do passado, que s\u00e3o a pr\u00f3pria paisagem, h\u00e1 te tudo. J\u00e1 descobriram ouro, ferro, pedras preciosas, ni\u00f3bio. S\u00e3o os tesouros ancestrais que continuam sendo pilhados, mais do que nas pir\u00e2mides do Egito. L\u00e1, os acervos s\u00e3o ainda recentes. Os nossos, s\u00e3o multimilenares. Valas geom\u00e9tricas no Acre, monumentos perdidos na Amaz\u00f4nia, incluindo pir\u00e2mides cobertas de selva etc. est\u00e3o \u00e0 espera da curiosidade nacional.<\/p>\n<p>Uma batalhadora da arqueologia alerta h\u00e1 anos para a destrui\u00e7\u00e3o das Sete Cidades do Piau\u00ed, conjunto arqueol\u00f3gico valiosssimo e ainda n\u00e3o decifrado. D\u00e3o tiros em pinturas rupestres. Usam jipes envenenados para destruir os sambaquis aqui no litoral catarinense. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m in\u00fameros estudiosos que procuram entender a complexidade da ocupa\u00e7\u00e3o das terras brasileiras, as mais antigas do mundo, antes da chegada de Cabral. Estudam o que um dia foi encarado como Para\u00edso, mas que n\u00e3o passa de territ\u00f3rio hostil e amig\u00e1vel ao mesmo tempo, como qualquer outro. Onde se formaram as gentes que receberam os invasores, foram dizimados por eles e tamb\u00e9m se misturaram.<\/p>\n<p>Tudo habita dentro de n\u00f3s, em forma de linguagem.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Desde que acabou a moleza do Para\u00edso, somos obrigados a pegar no batente. Mas fica a saudade, o vest\u00edgio: sempre sonhamos em nos recolher a algum tipo de lugar ed\u00eanico, para voltar ao bem bom. 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