{"id":2846,"date":"2011-09-05T10:47:30","date_gmt":"2011-09-05T13:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2846"},"modified":"2011-09-05T10:47:30","modified_gmt":"2011-09-05T13:47:30","slug":"status-e-soberania-em-my-fair-lady","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/status-e-soberania-em-my-fair-lady","title":{"rendered":"STATUS E SOBERANIA EM MY FAIR LADY"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O rigor da l\u00edngua falada, fonte e ao mesmo tempo estu\u00e1rio da escrita, define soberania nacional e tamb\u00e9m status social. S\u00f3 quem tem recursos consegue acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o plena. Isso em tese, no espa\u00e7o virtual euclidiano da linguagem, j\u00e1 que no Brasil at\u00e9 gente rica est\u00e1 falando errado e mesmo em pa\u00edses tradicionais essa hist\u00f3ria est\u00e1 bem misturada. Diferente do tempo de My Fair Lady, em que as amea\u00e7as eram nascentes, tanto no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, quando Bernard Shaw escreveu a pe\u00e7a Pigmali\u00e3o, quanto nos anos 40 e 60, quando a pe\u00e7a foi levada \u00e0 tela. O problema n\u00e3o estava consolidado como hoje, mas o autor detectou com maestria no momento em que se manifestava.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do professor de fon\u00e9tica escandalizado com o pouco caso que a educa\u00e7\u00e3o inglesa dava \u00e0 forma\u00e7\u00e3o escolar dos seus cidad\u00e3os, e seu esfor\u00e7o de transformar uma vendedora ambulante numa lady, se reporta ao uso da l\u00edngua como afirma\u00e7\u00e3o imperial (a inglesa), externa, e a conseq\u00fcente afirma\u00e7\u00e3o interna, da nobreza. No caso do professor Higgins, essa nobreza n\u00e3o era bem a da aristocracia, mas a da elite intelectual. Higgins \u00e9 um p\u00e1ria da corte, uma esp\u00e9cie de insurgente contra os maus h\u00e1bitos dos chamados sangue azul. Seu status \u00e9 o conhecimento e para afirm\u00e1-lo usa a fon\u00e9tica &#8211; a excel\u00eancia da fala, que deve se equivaler \u00e0 majestade da l\u00edngua escrita de Shakespeare.<\/p>\n<p>O filme de 1964 dirigido por George Cukor e com Rex Harrison como o professor e Audrey Hepburn como a florista \u00e9 um assombro vencedor de oito Oscar (inclusive o de melhor ator para Harrison). As m\u00fasicas, de Frederick Lowe e Alan Jay Lerner, s\u00e3o todas maravilhosas. O filme mostra o desprezo intelectual do professor pelos guinchos da mulher pobre, seduzida pela possibilidade de aprender a falar melhor para subir na vida. A ascens\u00e3o social \u00e9 uma impossibilidade na Inglaterra (o filme \u00e9 americano e um escracho contra as manias brit\u00e2nicas). Que o diga Charles Chaplin, que voltou para l\u00e1 c\u00e9lebre e milion\u00e1rio e foi tratado como sempre tinha sido, um pobre ( e por esse e outros motivos se recolheu na Su\u00ed\u00e7a).<\/p>\n<p>Em conluio com um dos seus pares, Colonel Hugh Pickering (interpretado por Wilfrid Hyde-White), o ingl\u00eas que estuda fon\u00e9tica na India, a j\u00f3ia da Coroa, o professor faz uma aposta de intelectuais que podem enganar os toscos aristocratas apenas pela apar\u00eancia: vestindo sua florista como uma princesa e a ensinando a pronunciar o ag\u00e1 aspirado entre outros truques. Eliza Doolittle era sem ber\u00e7o e filha de pais pobres separados. O pai, interpretado por Stanley Holloway ( indicado ao Oscar de melhor coadjuvante), \u00e9 um convicto representante da working class que se entrega \u00e0 bebedeira e odeia quando sobe na vida, pois precisa cumprir os rituais da desprez\u00edvel classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>O professor \u00e9 vitorioso no seu intento, mas cai na armadilha da rela\u00e7\u00e3o, pois se apaixona pela mulher que desprezava. A Cinderela acaba conquistando seu pr\u00edncipe, mesmo que ele seja velho e solteir\u00e3o empedernido. A excel\u00eancia da linguagem assim cede aos sentimentos, fica em segundo plano para que Hollywood d\u00ea seu recado eterno de o amor que vence no fim (pelo menos essa era a mensagem at\u00e9 os anos 60, quando ent\u00e3o resolveram detonar tudo).<\/p>\n<p>Hoje a pe\u00e7a e o filme servem de suporte educacional, pelo pouco que vi na internet. No ensino da l\u00edngua inglesa a hist\u00f3ria \u00e9 uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia para reencaminhar as novas gera\u00e7\u00f5es, v\u00edtimas do esfor\u00e7o da modernidade que tenta destruir a base civilizat\u00f3ria por meio da ind\u00fastria do espet\u00e1culo e de outras demandas de massa. A hist\u00f3ria serve para mostrar a alian\u00e7a da elite intelectual com o povo no esfor\u00e7o de desmoralizar a aristocracia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o comportamento que define uma lady, mas o modo como \u00e9 tratada, diz a florista. E o tratamento do ingl\u00eas que veio da India serviu de apoio para ela driblar os maus modos do professor e se transformar radicalmente. No fundo, a vit\u00f3ria \u00e9 sua, n\u00e3o de seu mentor. Ela ascende n\u00e3o apenas socialmente, mas na ajuto-consci\u00eancia da cidadania, para usar uma palavra recorrente de hoje.<\/p>\n<p>O enfoque deste texto pode ser facilmente contestado. Mas, ao contr\u00e1rio do trabalho acad\u00eamico, que precisa se reportar \u00e0s fontes de tudo que afirma, e fazer o balan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de pensamento anterior sobre o tema que est\u00e1 sendo abordado, o ensaio n\u00e3o perde tempo. Se limpassem as justificativas e cita\u00e7\u00f5es minuciosas das teses, ter\u00edamos grande arejamento cultural. Isso tornaria acess\u00edvel o n\u00facleo das quest\u00f5es a um p\u00fablico que n\u00e3o quer se enredar no recorrente h\u00e1bito de repetir sempre nas mesmas coisas. \u00c9 preciso incorporar os avan\u00e7os te\u00f3ricos e partir para a diferencia\u00e7\u00e3o j\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo, sen\u00e3o continuaremos com esse ar de zumbi no mundo que deveria ser uma tarde de sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O rigor da l\u00edngua falada, fonte e ao mesmo tempo estu\u00e1rio da escrita, define soberania nacional e tamb\u00e9m status social. S\u00f3 quem tem recursos consegue acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o plena. 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