{"id":2855,"date":"2011-09-05T11:06:28","date_gmt":"2011-09-05T14:06:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2855"},"modified":"2011-09-05T11:06:28","modified_gmt":"2011-09-05T14:06:28","slug":"mr-august-uma-carta-de-caio-fernando-abreu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mr-august-uma-carta-de-caio-fernando-abreu","title":{"rendered":"MR. AUGUST: UMA CARTA DE CAIO FERNANDO ABREU"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Decidi achar as cartas do Caio Fernando Abreu no meu arquivo (soterrado de pap\u00e9is, acumulados em d\u00e9cadas) . Ele escrevia normalmente para mim nos anos 70,quando por um tempo fomos muito amigos e nos correspondemos, ele em Porto Alegre, eu em S\u00e3o Paulo. Bi\u00f3grafos e estudiosos j\u00e1 me pediram essas cartas. Uma bi\u00f3grafa chegou a duvidar da exist\u00eancia delas, j\u00e1 que eu n\u00e3o ofere\u00e7o a apar\u00eancia de um capital simb\u00f3lico suficiente para convencer os deslumbrados. Mas por algum motivo n\u00e3o cedi.<\/em><\/p>\n<p><em>Agora vou revisitar cada uma delas e aos poucos vou postando por aqui, sem obedecer a nenhuma cronologia. S\u00e3o todas cartas leg\u00edtimas, originais, com a assinatura do amigo que j\u00e1 tinha grande prest\u00edgio na \u00e9poca e se transformou num escritor cult, numa celebridade nacional, querid\u00edssimo por muitos milhares de leitores. Divulgo para o meu pa\u00eds conforme recebi: com o esp\u00edrito desarmado e abra\u00e7ado ao grande amor que os escritores do Brasil tem pela literatura que aqui se faz e aqui se paga com a vida.<\/em><\/p>\n<p><em>Com voc\u00eas, o Caio que me escrevia e foi uma personalidade chegada, um amigo por algum tempo pr\u00f3ximo, irm\u00e3o das letras e generoso em sua amizade e talento. A primeira, que divulgo hoje , \u00e9 do in\u00edcio de agosto de 1976. Foi escrita em papel pardo comum, a m\u00e1quina e corrigida a caneta. Tem algumas frases antol\u00f3gicas, que poder\u00e3o ser notadas ao longo do seu texto.<\/em><\/p>\n<p><strong>Porto, 2. 8. 76<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nei:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nosso velho conhecido \u2013 Mr. August \u2013 chegou ontem, vestido a car\u00e1ter: aquele velho terno cinza muito molhado, e t\u00e3o velho que j\u00e1 tem algumas manchas de limo. Agora \u00e9 preciso hosped\u00e1-lo por 29 dias. E resistir, j\u00e1 que ele insiste sempre em nos puxar para dentro e para baixo. Resistiremos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Junto com ele veio tamb\u00e9m \u2013 gra\u00e7as! \u2013 um pouco de luz, acho que para contrabalan\u00e7ar: a Pifa, um pouco mais ruiva e muito mais bonita. Deu not\u00edcias de voc\u00ea, da Ida, Daniel e Juliana (as m\u00e3os de Juliana j\u00e1 est\u00e3o famosas aqui no Sul, dizem que s\u00e3o longu\u00edssimas, expressivas, espirituais). Eu tinha recebido os teus BIC de pena (lindos) e a not\u00edcia do nascimento dela, fazia algum tempo. Devia ter respondido, mas a barra andou pesando, tremores de terra internos e tamb\u00e9m bodes de fora \u2013 mortes, doen\u00e7as na fam\u00edlia (av\u00f4s, av\u00f3s, tias \u2013 essas coisas).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Agora estou recome\u00e7ando\/refazendo. Batalho emprego COM vontade de achar y me vuelve a la universidad, dia 9. Independ\u00eancia ou morte \u00e9 a ordem do dia. Tenho escrito bastante, umas coisas muito cru\u00e9is, \u00e0s vezes at\u00e9 meio porcas, genetianas. Por a\u00ed voc\u00ea pode supor o estado da cuca. Mas tudo bem: botar o horror pra fora \u00e9 um dos jeitos de n\u00e3o deixar que ele nos esmague.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Estou mandando proc\u00ea o recorte duma entrevista com o M\u00e1rio Quintana, sa\u00edda no Caderno de S\u00e1bado, e onde voc\u00ea \u2013 gl\u00f3ria!- pinta como um dos poetas preferidos dele. Congratulations efusivas! Acho que \u00e9 o maior elogio que voc\u00ea j\u00e1 recebeu em toda a sua vida. Confesso, fiquei com inveja. T\u00e1 saindo um novo livro dele \u2013 \u201cApontamentos de Hist\u00f3ria Sobrenatural\u201d. Um dos poemas que mais me fez a cabe\u00e7a \u00e9 este aqui:<\/strong><\/p>\n<p><strong>O MORITURO (Mario Quintana)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cPor que \u00e9 que assim, com suas caras im\u00f3veis e simiescas,\/ os vivos nos devassam num c\u00ednico impudor?\/ Por que nos olham assim \u2013 como se f\u00f4ssemos cousas -\/ quando os nossos tra\u00e7os v\u00e3o repousando, enfim,\/ na tranq\u00fcila dignidade da morte?\/\/Por que \u00e9 que eles, com a sua obscena curiosidade,\/ n\u00e3o respeitam o at\u00e9 mais \u00edntimo da nossa vida\/ &#8211; ato que deveria ser testemunhado apenas pelos Anjos?\/\/ Ah, que Deus me guarde na hora da minha morte, am\u00e9n, \/ que Deus me guarde da humilha\u00e7\u00e3o deste espet\u00e1culo\/ e me livre de todos, de todos eles:\/\/ n\u00e3o quero os seus olhos pousando como moscas na minha cara.\/ Quero morrer na selva de algum pa\u00eds distante&#8230;\/Quero morrer sozinho como um bicho!\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sinto saudade de ti. Sinto falta. Os amigos est\u00e3o raros, distantes, esquivos. N\u00e3o deu para viajar em julho, talvez no fim do ano, ou de repente, sempre pode ser.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Que teus tr\u00eas companheiros estejam bem. Um beijo para eles. At\u00e9 a outra.<\/strong><br \/>\n<strong>Teu<\/strong><br \/>\n<strong>Caio<\/strong><\/p>\n<p>RETORNO &#8211; <em>Foi assim, naquele distante agosto, que Caio me falou de suas leituras, seus planos, seu trabalho, suas faltas e me informou sobre o elogio do Quintana para o poeta estreante. E se despediu beijando as tr\u00eas pessoas da minha fam\u00edlia, mulher e um casal de filhos (o terceiro veio dois anos mais tarde). Deus guarde Caio, que entre n\u00f3s cultivou a amizade sincera e a proximidade solid\u00e1ria e calorosa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Decidi achar as cartas do Caio Fernando Abreu no meu arquivo (soterrado de pap\u00e9is, acumulados em d\u00e9cadas) . 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