{"id":2858,"date":"2011-09-05T11:10:33","date_gmt":"2011-09-05T14:10:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2858"},"modified":"2011-09-05T11:16:06","modified_gmt":"2011-09-05T14:16:06","slug":"caio-fernando-abreu-tres-motivos-para-uma-carta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/caio-fernando-abreu-tres-motivos-para-uma-carta","title":{"rendered":"CAIO FERNANDO ABREU: TR\u00caS MOTIVOS PARA UMA CARTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Continuo hoje compartilhando mais uma carta que Caio Fernando Abreu escreveu para mim nos anos 70. Desta vez, ele enumera tr\u00eas motivos para me enviar suas preciosidades: primeiro, a resenha sobre meu livro de estr\u00e9ia Outubro, que saiu na imprensa de Porto Alegre; segundo a alegria de ter participado de um encontro com jovens estudantes de Vacaria, RS, onde refor\u00e7ou sua certeza na miss\u00e3o de escritor, num trecho antol\u00f3gico sobre nosso of\u00edcio; e terceiro, a descoberta de uma poeta mineira ent\u00e3o desconhecida, Ad\u00e9lia Prado. O desfecho \u00e9 mais do que surpreendente: o relato de um sonho casta\u00f1edistico! Ou seja, \u00e9 tudo alumbramento. Vamos \u00e0 carta:<\/em><\/p>\n<p><strong>Porto 4.7. 76<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nei:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Te escrevi acho que faz umas duas semanas, um pouco menos. Voc\u00ea ainda n\u00e3o respondeu, e tudo bem, n\u00e3o se preocupe nem se apresse. Soube pelo Dudu (o San Martin, n\u00e3o o \u201cMagic Stone\u201d, que \u00e9 meio chatinho) que voc\u00ea saiu da Folha de S\u00e3o Paulo \u2013 ou que te sa\u00edram, digamos assim. Sempre as sacanagens inesperadas, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o imagino que voc\u00ea deva estar um pouco envolvido com a batalha de grana ou de novo emprego, e, sei l\u00e1, espero que tudo j\u00e1 tenha se resolvido ou, pelo menos, que voc\u00ea esteja levando na melhor poss\u00edvel, sem bodiar com isso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>T\u00f4 te escrevendo por tr\u00eas motivos, principalmente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Primeiro: enviar esse recorte, do \u201cCaderno de S\u00e1bado\u201d de ontem \u2013 uma cr\u00edtica do Antonio Hohfeldt sobre Outubro. \u00c9 UMA CR\u00cdTICA ALTAMENTE ELOGIOSA &#8211; e eu fiquei contente. Muita gente pixa o Antonio (inclusive eu), mas, n\u00e3o sei, o Appel diz sempre que \u201cno fundo ele \u00e9 um sujeito bom e esfor\u00e7ado\u201d \u2013 \u00e9 um cara tamb\u00e9m que apesar dos seus muitos defeitos, tem uma grande abertura. \u00c9 muit\u00edssimo menos provinciano e cagador de regras que os Neis Gastais e Cristaldos da vida, o que \u00e9 um ponto (ou muitos) a favor. Al\u00e9m disso, me parece que ele decodificou muito bem o teu livro, que ele sacou, sentiu. Espero que voc\u00ea tamb\u00e9m fique contente. O Wladyr Nader disse que teu livro era adolescente. For\u00e7as! Eu n\u00e3o concordo. Uma vez voc\u00ea falou uma coisa muito bonita, aquilo que \u201ca gente n\u00e3o deve atrai\u00e7oar a pr\u00f3pria juventude\u201d \u2013 e na minha opini\u00e3o \u00e9 exatamente isso que o Nader n\u00e3o sacou no Outubro: o compromisso com o novo (que sempre vem, n\u00e3o \u00e9 Belchior?).<\/strong><\/p>\n<p><strong>E aqui pinta o segundo motivo desta carta. Seguinte: estive dois dias em Vacaria, fazendo palestras para estudantes do n\u00edvel colegial, sobre a experi\u00eancia &#8220;Teia&#8221; e &#8220;H\u00e1 Margem&#8221; e &#8220;a nov\u00edssima literatura ga\u00facha&#8221;. Nei, foi demais bonito. N\u00e3o d\u00e1 para contar tudo, seria assunto pruma carta de 50 p\u00e1ginas. Mas o que aconteceu foi que me dei conta que n\u00e3o estamos escrevendo inutilmente, para ningu\u00e9m ou para n\u00f3s mesmos. A molecada (em Vacaria!) estava excitad\u00edssima, na biblioteca do col\u00e9gio tinha &#8220;Teia&#8221; e tamb\u00e9m &#8220;H\u00e1 Margem&#8221; (a professora de literatura \u00e9 muito legal), ent\u00e3o eles estavam informados sobre voc\u00ea e o resto do pessoal. Senti que est\u00e3o muito \u00e1vidos de uma literatura que fale do aqui-agora, que fale deles tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um garoto me falou que n\u00e3o suportava a literatura antes do meu papo porque pensava que \u201cliteratura eram s\u00f3 aqueles caras chatos do livro de portugu\u00eas: Jos\u00e9 de Alencar, Raul Pomp\u00e9ia\u201d. Por a\u00ed afora. Me deixou muitas coisas boas, uma delas a certeza que minha miss\u00e3o \u00e9 exatamente essa: fazer as cabe\u00e7as alheias. Distribuir, salpicar aqui e ali pitadinhas de inquieta\u00e7\u00e3o, de sonho, tamb\u00e9m de luta. Uma certeza objetiva (fora de mim) que existo como escritor, voc\u00ea me entende? E que o nosso recado, atrav\u00e9s do que escrevemos, sem que a gente saiba, est\u00e1 voando por a\u00ed \u2013 e que n\u00f3s temos que ser cada vez melhores, mais verdadeiros e mais conscientes do que podemos dar ao outro que nos l\u00ea. Isso a\u00ed. Pessoalmente, um dia, te conto como foi tudo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O terceiro motivo \u00e9 poesia, tamb\u00e9m. Encontrei uma poeta chamada Ad\u00e9lia Prado, mineira \u2013 acho que j\u00e1 te falei dela -, tem um livro chamado &#8220;Bagagem&#8221;. E tenho lido os poemas dela sempre pensando em voc\u00ea. Deu a vontade de dividir contigo e, na impossibilidade de te mandar o livro (n\u00e3o me separo dele), te mando tamb\u00e9m esses poemas: Grande Desejo, Impressionista, Ensinamento, Um Jeito, Bilhete em Papel Rosa, Psic\u00f3rdica, Clareira, Cabe\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 isso a\u00ed. Tem muito mais, \u00e9 um livro farto de singelezas, gosto de bolinho, dia de chuva e caf\u00e9 preto. Ad\u00e9lia tem me encantado e me feito ver o mundo de um jeito muito mais simples, \u201csem s\u00e9rias patologias\u201d, que existe e que a gente j\u00e1 teve e se perdeu.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ah, queria te contar tamb\u00e9m de um sonho casta\u00f1edistico que tive em Vacaria: muitas coisas, uma festa, eu assistindo do port\u00e3o uma festa que passava sobre a rua, e a rua era rolante, as pessoas n\u00e3o caminhavam, a rua \u00e9 que carregava eles. A\u00ed entrei na casa branca, grande, colonial, e tinha uma bacia de lou\u00e7a cheia de objetos, principalmente pedras. Mergulhei as m\u00e3os dentro da bacia. A voz da minha av\u00f3 disse: \u201cS\u00e3o objetos de poder\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Saudade de voc\u00ea. Um beijo pro Daniel, outro pra Ida. At\u00e9 de repente, do seu<\/strong><br \/>\n<strong>Caio<\/strong><\/p>\n<p>RETORNO \u2013 <em>1. Sobre personalidades: \u00e9 a opini\u00e3o do Caio, que deixo aqui na \u00edntegra. 2. Gostei muito da resenha do Antonio Hohfeldt. 3. Teia e H\u00e1 Margem s\u00e3o dois livros coletivos de contos e poemas que foram publicados naquela \u00e9poca em Porto Alegre. 4. Pedi demiss\u00e3o da Folha para trabalhar na Isto\u00c9 onde, a\u00ed sim, me sa\u00edram. 5. Outubro \u00e9 meu livro de estr\u00e9ia, publicado pelo Instituto Estadual do Livro \u2013RS em que Caio foi um dos consultores: era preciso tr\u00eas aprova\u00e7\u00f5es \u2013 uma outra foi do Irm\u00e3o Elvo Clemente, da PUC. 6. Wladyr Nader escancarou as p\u00e1ginas da Escrita para minhas resenhas. 7. Caio datilografou todos os poemas citados da Ad\u00e9lia Prado. N\u00e3o reproduzo aqui porque tomaria muito espa\u00e7o.8. Pelo mesmo motivo s\u00f3 reproduzo a primeira, a segunda e a \u00faltima p\u00e1gina da carta. As outras cont\u00e9m reprodu\u00e7\u00f5es dos poemas de Ad\u00e9lia. Ao todo, s\u00e3o tr\u00eas folhas escritas na frente e no verso.<\/em>9. <em>Na postagem original no Di\u00e1rio da Fonte (http:\/\/outubro.blogspot.com) as cartas est\u00e3o escaneadas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Continuo hoje compartilhando mais uma carta que Caio Fernando Abreu escreveu para mim nos anos 70. 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