{"id":286,"date":"2009-12-10T10:31:02","date_gmt":"2009-12-10T12:31:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=286"},"modified":"2009-12-21T11:05:29","modified_gmt":"2009-12-21T13:05:29","slug":"quatro-em-cena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quatro-em-cena","title":{"rendered":"QUATRO EM CENA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um padre progressista acusado de ped\u00f3filo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) est\u00e3o no filme A D\u00favida, de John Patrick Shanley. Um velho lutador de luta livre ainda em atividade (Mickey Rourke) e uma stripper que trabalha para sustentar o filho e se mudar para longe (Marisa Tomei) est\u00e3o em O Lutador , de Darren Aronofsky. Os dois filmes s\u00e3o de 2008 e os quatro atores e atrizes citados concorreram ao Oscar. Junto com Sean Penn, j\u00e1 abordado aqui, que venceu com Milk, \u00e9 o que de melhor pode o cinema contempor\u00e2neo nos oferecer em mat\u00e9ria de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seymour, Streep, Rourke e Tomei s\u00e3o do ramo, ou seja, n\u00e3o fingem, comp\u00f5em criaturas veross\u00edmeis para expressar conflitos, biografias, performances, mem\u00f3rias. N\u00e3o \u00e9 uma humanidade admir\u00e1vel o que eles representam, ao contr\u00e1rio. \u00c9 uma sucess\u00e3o de trag\u00e9dias pessoais, manipuladas pela ind\u00fastria cultural. Reiteram certezas da civiliza\u00e7\u00e3o a qual pertencem, a americana, que jamais relativiza. A Am\u00e9rica inclui, encara, reporta, mas jamais perdoa ou abre m\u00e3o do que considera irremov\u00edvel. Anexa, emociona, seduz, mas jamais deixa de lado o papel que o destino lhe reserva.<\/p>\n<p>Que destino \u00e9 esse? Os quatro em cena nos d\u00e3o uma pista. O padre e o lutador s\u00e3o como o escorpi\u00e3o de piada, que pede carona para cruzar o rio e, na outra margem, pica de morte o salvador. \u201cPor que fez isso?\u201d pergunta a consci\u00eancia. &#8220;Porque \u00e9 da minha natureza&#8221;, responde o escorpi\u00e3o. O padre tenta se justificar num escudo de compaix\u00e3o, id\u00e9ias arejadas, preocupa\u00e7\u00e3o com os alunos, mas de par\u00f3quia em par\u00f3quia ele continua o mesmo, sempre ao redor de seus objetos de desejo. Seu oposto \u00e9 a freira que se comporta como uma bruxa, interpretada por esse monstro que \u00e9 Merryl Streep (basta amea\u00e7ar franzir o rosto, olhar ou debru\u00e7ar-se rapidamente para ela definir seu papel em poucos frames).<\/p>\n<p>A freira tem uma miss\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o as ilus\u00f5es do amor ou da racionalidade que v\u00e3o desviar de seu caminho, sua meta. Ela far\u00e1 qualquer coisa , at\u00e9 seguir seus instintos, para provar que o padre embriagou um garoto e o seduziu, transtornado a mente do aluno. Comporta-se como o olho humano diante das fraquezas dos outros e jamais com a solidariedade religiosa, que no fundo \u00e9 o que une padres , p\u00e1rocos e arcebispos, todos sob suspeita neste filme sobre a d\u00favida. A Igreja Cat\u00f3lica, ligada ao mundo hisp\u00e2nico, derrotado pelos Estados Unidos no s\u00e9culo 19 com a tomada de Cuba, recebe de Hollywood as mais violentas obras e ataques. N\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o para a religi\u00e3o do crucificado.<\/p>\n<p>Seymour \u00e9 um exagero. Mergulha no papel como se fosse a \u00faltima vez que far\u00e1 um personagem. Ele se coloca \u00e0 altura do enfoque: a pantagru\u00e9lica refei\u00e7\u00e3o de carne crua que ele divide com outros padres \u00e9 a vis\u00e3o asquerosa de seu comportamento e atitudes. O que ele faz contrasta com a excel\u00eancia de seus serm\u00f5es. No fundo, o filme fala que o texto bem articulado pode esconder um car\u00e1ter duvidoso e, mais importante do que a par\u00e1bola ou a li\u00e7\u00e3o de moral, \u00e9 a pergunta incisiva, insistente, que vai no osso: \u201cVoc\u00ea embriagou o aluno?\u201d<\/p>\n<p>Mickey Rourke atrapalhou-se na vida quando achou que atuar era dar um sorrisinho cool e virar s\u00edmbolo sexual, como acontece no execr\u00e1vel 9 e meia semanas de amor. Ou quando tenta imitar Marlon Brando montando uma motocicleta. Mas em O Lutador ele se supera e traz a gana de um veterano que volta ao centro do ringue. Sua obsess\u00e3o \u00e9 a profiss\u00e3o que exerce, levada at\u00e9 o desenlace. Suas tentativas de mudar de rumo s\u00e3o apenas desvios de conduta, pois no fundo n\u00e3o est\u00e1 interessado em reatar com a filha ou formar fam\u00edlia com a stripper. Ele quer mesmo \u00e9 se acabar dando e levando porrada, pois s\u00f3 assim se sente vivo. Fazer o trabalho, cumprir a miss\u00e3o, a meta, como Streep e seu h\u00e1bito negro. \u00c9 como disse Nixon filmado no cl\u00e1ssico \u201cCora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d: \u201cO importante \u00e9 que os pilotos foram l\u00e1 e cumpriram seu dever\u201d (did the job). O \u201ctrabalho\u201d era jogar bombas no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Marisa Tomei \u00e9 a intelig\u00eancia que vai no osso da personagem sem se entregar a frescuras. \u00c9 uma atriz determinada, que encarna de maneira perfeita a profiss\u00e3o que simula o sexo e trata os amigos como clientes. Criou para si uma armadura anti-emo\u00e7\u00e3o e \u00e9 punida por isso. Ela tem o objetivo de saltar fora daquela vida e por isso sacrifica sua chance de ter algu\u00e9m ao seu lado. \u00c9 a Am\u00e9rica envolvida com suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, em que a grana \u00e9 ca\u00e7ada para a liberdade, mas a liberdade verdadeira, o sentimento , foge dos esp\u00edritos que viram pedra.<\/p>\n<p>Quatro grandes profissionais de primeira linha em cena: bom demais para quem vive num ambiente hostil \u00e0 arte e em que as pessoas ainda insistem em \u201cjogar conversa fora\u201d, talvez a pior express\u00e3o do mundo em peda\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um padre progressista acusado de ped\u00f3filo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) est\u00e3o no filme A D\u00favida, de John Patrick Shanley. 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