{"id":289,"date":"2009-12-10T12:29:42","date_gmt":"2009-12-10T14:29:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=289"},"modified":"2009-12-21T11:05:55","modified_gmt":"2009-12-21T13:05:55","slug":"ser-daqui","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ser-daqui","title":{"rendered":"SER DAQUI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daqui?\u201d \u00e9 a pergunta recorrente que acompanha o advent\u00edcio onde ele for. Ser daqui faz parte da natureza e a toda hora \u00e9 preciso definir quem pertence a esse grupo homog\u00eaneo, dedicado a uma preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva pelo assunto. Mas descobri alguns segredos sobre o estranho costume. Uma pessoa confidenciou, em conversa no \u00f4nibus, que fingia ser daqui para evitar aborrecimentos. N\u00e3o que sofresse hostilidades, mas estava cansada de dar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dia, notei que o famoso chiado de chaleira, acompanhado do erre gutural, que em tese definiria os cariocas, era no fundo exercido pelo pessoal de fora, que tinha a imagem errada sobre a pron\u00fancia no Rio de Janeiro. Os nativos exerciam outro sotaque, mais sofisticado e musical, que s\u00f3 de longe se identificava com alguns aspectos do patu\u00e1 alien\u00edgena inventado pelos que vinham de outros lugares, secos para adotarem a cidadania da ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que esse enigma, o brasileiro, n\u00e3o pertence mais a lugar nenhum. A na\u00e7\u00e3o dividida em nichos, territ\u00f3rios fechados, celebra\u00e7\u00f5es regionalistas, n\u00e3o consegue mais ser sintetizada por sinais de unidade. A bandeira e a sele\u00e7\u00e3o de futebol s\u00e3o insuficientes para enfrentar a mar\u00e9 alta de orgulhos confinados em viv\u00eancias tornadas familiares pelo excesso de devo\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o se intensifica com a evid\u00eancia cada vez maior dos males que assolam o pa\u00eds, da corrup\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia. \u00c9 como declarar independ\u00eancia de uma reserva, que pule por cima da capital nacional e entre em contato direto com outras nacionalidades.<\/p>\n<p>Isso aconteceu na \u00e9poca em que o regime ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o do Porto de 1820 quis destruir o Reino Unido, que tinha como capital uma cidade fora de Portugal, o Rio de Janeiro. Os novos senhores fizeram com que os representantes provinciais se reportassem diretamente a Lisboa. Contra isso se fez uma guerra de tr\u00eas anos, de 1821 a 1823. Guerra que caiu no esquecimento, pois \u00e9 preciso provar que os brasileiros s\u00e3o um povo que n\u00e3o lutou para ser livre e por isso merece ser esquecido dentro de suas fronteiras.<\/p>\n<p>Quando me perguntam se n\u00e3o sou daqui, respondo invariavelmente que sou, como cidad\u00e3o brasileiro. Mas isso n\u00e3o convence. Basta abrir a boca para ficar expl\u00edcito: sou de l\u00e1, \u201cdo sudoeste onde o Brasil termina\u201d, como diz o velho poema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daqui?\u201d \u00e9 a pergunta recorrente que acompanha o advent\u00edcio onde ele for. Ser daqui faz parte da natureza e a toda hora \u00e9 preciso definir quem pertence a esse grupo homog\u00eaneo, dedicado a uma preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva pelo assunto. Mas descobri alguns segredos sobre o estranho costume. Uma pessoa confidenciou, em conversa no \u00f4nibus, que fingia ser daqui para evitar aborrecimentos. N\u00e3o que sofresse hostilidades, mas estava cansada de dar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=289"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1558,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289\/revisions\/1558"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}