{"id":2890,"date":"2011-09-30T20:51:13","date_gmt":"2011-09-30T23:51:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2890"},"modified":"2016-02-24T09:01:36","modified_gmt":"2016-02-24T12:01:36","slug":"em-porto-xarope-a-carta-que-caio-f-nao-conseguia-encerrar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/em-porto-xarope-a-carta-que-caio-f-nao-conseguia-encerrar","title":{"rendered":"EM PORTO XAROPE, A CARTA QUE CAIO F N\u00c3O CONSEGUIA ENCERRAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sigo hoje publicando as cartas que Caio Fernando Abreu enviou \u00a0de Porto Alegre (aqui identificado como Porto Xarope) para mim nos anos 70, e que tem causado grande repercuss\u00e3o\u00a0 nas m\u00eddias sociais, blogs e jornais. Digit\u00e1-las uma a uma, cuidando para que tudo saia na \u00edntegra como ele me enviou \u00e9 um exerc\u00edcio n\u00e3o apenas de mem\u00f3ria, mas de resgate de emo\u00e7\u00f5es soterradas, paisagens perdidas, dias ocultos, conversas que o vento tinha levado. Por isso este processo \u00e9 lento, intenso e revelador. Vamos \u00e0 carta:<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Porto Xarope, 6.6.77<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nei,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>eu hoje to t\u00e3o triste \u2013 n\u00e3o, eu tava, agora j\u00e1 passou um pouco, porque eu j\u00e1 cheguei em casa, fiz um mate e to ouvindo o Concerto de Bra(n)denburgo de Bach (\u201cpoucos sabem que Johann Sebastian Bach&#8230;\u201d), um giorno de cane, como costumam ser os dias nesta cidade, especialmente par quem trabalha na<span style=\"text-decoration: underline;\"> Folha da Manh\u00e3<\/span> (tem coisa pior). Tudo come\u00e7ou \u00e0s 8h30 da matina, tirando uma radiografia absolutamente s\u00e1dica de um dente \u2013 \u00e9 assim: o cara enfia ferinhos nos canais abertos de um dente at\u00e9 localizar o nervo. Quando a agulha pica o nervo (e voc\u00ea se crispa de dor)\u00e9 preciso que o pr\u00f3prio radiografado fique segurando uma chapinha contra o dente at\u00e9 radiografar. Brrrrr. Tudo bem: no m\u00ednimo duas encarna\u00e7\u00f5es de karma a menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois o jornal e tanta, mas tanta gente querendo falar comigo. Tem dias que tenho vontade de escrever nas costas da cadeira \u201choje n\u00e3o estou para ningu\u00e9m\u201d ou \u201cseja breve\u201d ou \u201cgenius at Work\u201d ou tamb\u00e9m \u201ckeep distance\u201d. Fui agressivo e desagrad\u00e1vel com o San Martin e com todo mundo. Tenho usado botas \u2013 fisicamente e no sentido figurado tamb\u00e9m. Por fim a Pra\u00e7a XV, vir em p\u00e9 no \u00f4nibus, como gado, um passo \u00e0 frente, outro mais \u2013 e aos peda\u00e7os chegar em casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu queria ter te escrito antes. Tinha POTES de trabalho. Me descontaram cerca de uma milha e quinhentos da quinzena, recebi s\u00f3 900 e s\u00f3 de aluguel tinha 950. Fiquei com menos 50 at\u00e9 o dia 15. Queixas, queixas. A portaria da censura pr\u00e9via aos livros, jornais &amp; revistas estrangeiros. O neg\u00f3cio do INPS, n\u00e3o tem mais direito a atendimento (embora continue descontando) quem ganha mais do que a monumental quantia de tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos. O quebra-pau em belo Horizonte. E coisas que n\u00e3o sei, porque n\u00e3o li e ningu\u00e9m me disse. E um cansa\u00e7o, e uma sensa\u00e7\u00e3o de estar escorregando (n\u00e3o individual) prum neg\u00f3cio escuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As batalhas de todo-dia parecem ingl\u00f3rias. Claro que a gente insiste. Tenho comprado brigas: esta semana devo falar, quarta, no Clube de Cultura e, na sexta, em pelotas. Quero \u201cdizer coisas\u201d. N\u00e3o sei se posso, se devo \u2013 mas to evitando me omitir e, na medida do poss\u00edvel, atrav\u00e9s das mat\u00e9rias que fa\u00e7o ou desses papos que pintam ir- que pretens\u00e3o \u2013 pelo menos alertando as pessoas para o HORROR\u00a0 que tai em volta delas e pra necessidade \u2013 urgente, urgente \u2013 de modificar as coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00d4 Nei, n\u00e3o temos nenhum l\u00edder, nenhuma ideologia que preste,n\u00f3s estamos sendo roubados, estuprados e assassinados lentamente, todos os dias. Eu ando cheio de raiva. Acho que todo mundo. E de impot\u00eancia. E de vontade de <span style=\"text-decoration: underline;\">agir<\/span> de uma maneira mais eficiente, mais real, mais imediata. Porque NINGU\u00c9M\u00a0 a n\u00e3o ser pessoas como n\u00f3s vai fazer porra nenhuma para modificar essa merda toda. A gente n\u00e3o pode, n\u00e3o deve, n\u00e3o tem o direito de se omitir. Apesar das limita\u00e7\u00f5es pessoais, das dores individuais ou da pr\u00f3pria pele a defender. Que talvez valha muito pouco neste momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pausa. Tomo mate, ou\u00e7o Bach, fumo Carlton.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Individualmente, tudo \u2013 digamos \u2013 bem. Cheguei da\u00ed com uma energia incr\u00edvel. Eu tava todo amortecido aqui, eu s\u00f3 tinha dor e um nojo constante de tudo, de todos, um desprezo, um desgosto. Isso a\u00ed me sacudiu, a partir da ansiedade mesmo das pessoas, da crispa\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es, do desespero gritante de todo mundo. E Julio, teve Julio. Foram 12 dias de conviv\u00eancia intensa, 24 horas por dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando cheguei aqui me faltava um membro, uma metade de c\u00e9rebro. Doeu muito. Tomei meio vidro de Vegostesil (\u00e9\u00f3timo) e dormi 16 horas. Depois fui aterrisando aos poucos, e perdendo energia, e voltando aquele desgosto, aquela n\u00e1usea, e contra\u00e7\u00e3o no canto da boca. mas to resistindo, Che. E tento me quer bem apenas por isso \u2013 por insistir e resistir. \u00a0Nem sempre consigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e1bado faz uma semana que me mudei. Desde que tinha proclamado minha independ\u00eancia ou me auto-parido, em novembro, tava morando num apartamento em pleno centro (Jer\u00f4nimo Coelho) onde a paisagem<\/p>\n<p>onde a paisagem<\/p>\n<p>(onde a paisagem)<\/p>\n<p>onde h\u00e1 pais agem<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passou um tempo. Agora \u00e9 quase meia noite. Eu jantei, fumei, bebi vinho (pouco), conversei com Gui e Gra\u00e7a Medeiros, depois chegou Sandra \u2013 e tantas coisas se passam, na real-de-fora e na da-mente-de-dentro-t\u00e3o-real-quanto. \u00d4 Nei, \u00e1s vezes eu fico t\u00e3o confuso. Agora to meio chapado e acho que antes estava tentando dar umas coordenadas objetivas da minha vida, mas agora eu fico me perguntando se t\u00eam import\u00e2ncia. Suponhamos que sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A\u00ed continuo a te contar. Retome a p\u00e1gina anterior, na parte (&#8230;Coelho) onde a paisagem \u2013 bem a paisagem l\u00e3s era um pared\u00e3o de concreto. Agora estou numa casinha, em Petr\u00f3polis, com terra e p\u00e1tio. Tento me adaptar. De qualquer forma, anyway, me adaptaria. Mas teve coisas\/tem coisas boas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei. Mas passa pela cabe\u00e7a que isso n\u00e3o interessa, e me d\u00e1 vontade de reler tudo o que te escrevi antes para tentar pegar algum sentido. Mas \u00e9 t\u00e3o partido.\u00d4 Nei, eu tenho ficado t\u00e3o confuso. Tem uma divis\u00e3o aqui \u2013 uma querendo fugir a todo vapor a qualquer compra de qualquer barra e uma outra onipotente, querendo ficar no controle de absolutamente todas as emo\u00e7\u00f5es, sensacionais, situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenho planos. Acho um pouco temer\u00e1rio? ut\u00f3pico? fant\u00e1stico? escapista? ainda ter planos a esta altura do campeonato, mas \u2013 que se h\u00e1 de fazer? \u2013 tenho. Tem uma coisa contra a cidade, contra a moral local, estadual, contra a burrice, a estreiteza e a mediocridade crescendo. H\u00e1 uma possibilidade de conseguir um registro profissional no Sindicato. Ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel ir l\u00e1 (dentista todas as manh\u00e3s), mas eu gostaria de cair daqui depois de julho. Acho que esta casa para onde vim e todas as barras que possivelmente pintarem nela \u2013 boas ou\/e m\u00e1s \u2013 devem ser transadas. Mas eu quero ir. \u00d4 Nei, eu sinto um sufoco terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Me escapam queixas, chicotinhos autopunitivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi bom e quente ver voc\u00ea. Depois, na tua casa, eu fiquei achando que a vida de voc\u00eas t\u00e1 bastante dura. Que era uma vida muito nua. A partir das paredes da casa, dos poucos m\u00f3veis \u2013 de tudo o que h\u00e1 (ou que n\u00e3o h\u00e1) de objetos dentro dela. E que isso me dava uma outra face tua. Como te ver no jornal tamb\u00e9m me dava. E me ocorre que \u2013 porra, que tro\u00e7o mais liter\u00e1rio \u2013 que as pessoas s\u00e3o um pouco quebra-cabe\u00e7as que voc\u00ea vai juntando peda\u00e7o por peda\u00e7o (\u00e0s vezes misturando dois ou mais jogos diversos e fazendo confus\u00f5es medonhas, ou tentando freneticamente encaixar pe\u00e7as que absolutamente n\u00e3o cabem nos espa\u00e7os, ou \u2013 tanta coisa). Me confundo nessas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto te escrevo, me passa uma id\u00e9ia ubaldiana na cabe\u00e7a: at\u00e9 que ponto \u00e9 <span style=\"text-decoration: underline;\">inviol\u00e1vel<\/span> tudo isso que digo aqui? (*) Outro dia \u2013 h\u00e1 uma semana \u2013 recebi uma carta de Madri que foi colocada no correio dia 12 de dezembro de 1976!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o importa muito. Acho que j\u00e1 te disse que ando meio agressivo \u2013 tenho pensado que n\u00e3o existe nada absolutamente inconfess\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando eu voltava pra casa, hoje, ao descer do \u00f4nibus, quando ia cruzar na frente de uma garagem \u2013 de dentro da garagem saiu uma moto em alta velocidade, com um garoto em cima, passou zunindo na minha cara e espatifou-se contra o poste da cal\u00e7ada oposta. Eu n\u00e3o parei pra olhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 meia-noite, a minha cuca n\u00e3o t\u00e1 rendendo mais nada, to dispersando e confundindo. \u00d4, Nei, eu queria te dar um grande abra\u00e7o \u2013 tem um jeito disso n\u00e3o soar for\u00e7ado? \u2013 aquele dia em que voc\u00ea entrou na sala Vladimir Herzog me deu um ufa! interno. Eu acho que vou cair enseguida nessa briga a\u00ed, pra dar um jeito d enseguida cair pra outra fora daqui. Brigas, brigas. Eu quero te mandar um poema aqui do fim, tem a obra completa de Mario de Andrade aqui na minha frente. Vemos ver o que ele sugere:<\/p>\n<p>(abriu nos <span style=\"text-decoration: underline;\">poemas de amiga<\/span>, j\u00e1 est\u00e1 viciado)<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00edamos calados pela rua<\/p>\n<p>e o calor dos rosais nos salientava tanto<\/p>\n<p>que um desejo de exemplo me inspirava, e voc\u00ea me aceitou por entre os santos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Erguer do ch\u00e3o um toco de cigarro,<\/p>\n<p>fum\u00e1-lo sem saber por que boca passou,<\/p>\n<p>a terra me eri\u00e7ava a l\u00edngua e uma saliva seca<\/p>\n<p>poisando nos meus l\u00e1bios molhados renasceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos os boitat\u00e1s queimavam minha boca<\/p>\n<p>mas quando recomecei a olhar, oh minha doce amiga,<\/p>\n<p>os oper\u00e1rios passavam-se todos para o meu lado,<\/p>\n<p>todos com flores roubadas na abertura da camisa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sol no poente, de novo auroral e nativo,<\/p>\n<p>fazia em caminho contr\u00e1rio um dia novo,<\/p>\n<p>e as noites ficaram luminosamente diurnas,<\/p>\n<p>e os dias massacrados se esconderam no cov\u00e3o duma noite sem fim<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00b4D\u00e1 um beijo na Ida, outra nos petizes (petizes \u00e9 bom, n\u00e3o \u00e9?). D\u00e1 um abra\u00e7o no Moacir Am\u00e2ncio e anota l\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o, Che: Rua Chile, 661, 90000 Petr\u00f3polis Porto Alegre (o CEP deveria vir ap\u00f3s <span style=\"text-decoration: underline;\">Petr\u00f3polis<\/span>, e n\u00e3o antes \u2013 a minha objetividade \u00e0s vezes tamb\u00e9m marca).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora abri de novo o Mario de Andrade e peguei ele \u201csonetizando\u201d lindo. Che, veja estes, a La Augusto dos Anjos (que tenho lido muito):<\/p>\n<p>\u201cVou fazer do meu fim minha esperan\u00e7a,<\/p>\n<p>Oh sono, vem!&#8230;Que eu quero amar a morte<\/p>\n<p>com o mesmo engano com que amei a vida\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>T\u00f4 espichando para terminar.<\/p>\n<p>Julio (Santa Hoerst) tem me escrito muito. Tem pintado baixezas &amp; vilezas na hist\u00f3ria do livro do Pasquim absolutamente vergonhosas. Um pouco por isso, tamb\u00e9m, a minha cuca est\u00e1 um pouco descacetada. Me d\u00e1 uma puta decep\u00e7\u00e3o e uma certeza de novo que a pol\u00edtica-dos-bastidores-liter\u00e1rios \u00e9, realmente, de vomitar. Blllleeeeaaaarrrrggghhhh! (n\u00e3o \u00e9 assim v\u00f4mito de HQ?). A minha cuca t\u00e1 cheia de id\u00e9ias pra escrever, mas eu n\u00e3o tenho ousado. Li a entrevista do Ferreira Gullar no Pasquim (leia o poema dele chamado <span style=\"text-decoration: underline;\">Alegria<\/span> no Anima n\u00ba 2 \u2013 achei ele aqui -_ e ele diz que agora s\u00f3 escreve quando \u00e9 pressionado por alguma coisa interna muito forte. Comigo tem sido assim, n\u00e3o sei se \u00e9 uma desculpa para a minha falta de m\u00e9todo. Esse poema do Gullar a\u00ed me incendiou por uns tr\u00eas dias, \u00e9 uma barra de lucidez meio alucinante, veja:<\/p>\n<p>\u201cO sofrimento n\u00e3o tem<\/p>\n<p>nenhum valor.<\/p>\n<p>N\u00e3o acende um halo<\/p>\n<p>em volta de tua cabe\u00e7a, n\u00e3o<\/p>\n<p>ilumina trecho algum<\/p>\n<p>de tua carne escura<\/p>\n<p>9nem mesmo o que iluminaria a lembran\u00e7a<\/p>\n<p>ou a ilus\u00e3o<\/p>\n<p>de uma alegria)<\/p>\n<p>Sofre tu, sofre<\/p>\n<p>um c\u00e3o ferido, um inseto<\/p>\n<p>que o neocid envenena.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 maior a tua dor<\/p>\n<p>que a daquele gato que viste<\/p>\n<p>a espinha quebrada a pau<\/p>\n<p>arrastando-se a berrar pela sarjeta<\/p>\n<p>sem ao menos poder morrer?<\/p>\n<p>A justi\u00e7a \u00e9 moral, a injusti\u00e7a n\u00e3o.<\/p>\n<p>A dor te iguala a ratos e baratas<\/p>\n<p>que tamb\u00e9m de dentro dos esgotos<\/p>\n<p>espiam o sol<\/p>\n<p>e no seu corpo nojento<\/p>\n<p>de entre fezes<\/p>\n<p>querem estar contentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u00e9 A Alegria.<\/p>\n<p>(definitivamente n\u00e3o estou conseguindo encerrar esta carta) .<\/p>\n<p>S\u00e1bado foi o anivers\u00e1rio do Dudu SM (Dudu SM \u00e9 um bom nome prum personagem. n\u00e3o?). A gente fez um jantar aqui e tentou fazer com que com que \u2013 quem sabe?- as coisas ficassem um pouco legais, pra todo mundo. Foi meio crispado, meio o final desse poema. Acho que \u00e9 assim quase sempre. Ou sempre, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Magra Jane vai sexta embora para o Rio. Eu acho \u00f3timo.<\/p>\n<p>A cidade, \u00f4 Nei, a cidade.<\/p>\n<p>O jornal, \u00f4 Nei, o jornal.<\/p>\n<p>Mas o inverno, tem frio chegando e aqui em Petr\u00f3polis um c\u00e9u incr\u00edvel. Que eu quase nem olho, mas quando olho \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Vi um filme absolutamente lindo: <span style=\"text-decoration: underline;\">A Hist\u00f3ria de Adele H.<\/span>, de Truffaut, um amor alujcinado, romantismo louco, uma paix\u00e3o levada ao limite da loucura. D\u00e1 uma grandeza pros sentimentos humanos.<\/p>\n<p>Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>Um beijo. N\u00e3o escreve se tu n\u00e3o puder ou n\u00e3o tiver tempo. Tudo bem. At\u00e9<\/p>\n<p>Caio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>RETORNO \u2013<em>1. Tempo brabo de censura, Caio se preocupava com a inviolabilidade das cartas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interfer\u00eancia da ditadura e n\u00e3o ao eventual segredo contido nelas. 2. O carinho de Caio por mim e minha fam\u00edlia \u00e9 uma presen\u00e7a recorrente e marcante em todas essas cartas, assim como a rela\u00e7\u00e3o afetiva que t\u00ednhamos, como dois escritores em pleno processo de cria\u00e7\u00e3o. 3. Pessoas queridas citadas est\u00e3o aqui como Caio se referiu a elas, sempre do seu jeito liter\u00e1rio de ser, considerando cada um como um personagem. O meu personagem, v\u00ea-se nessa carta, era um pouco desafiante e por toda a correspond\u00eancia interagimos como duas pessoas pr\u00f3ximas e ao mesmo praticamente desconhecidas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s &nbsp; Sigo hoje publicando as cartas que Caio Fernando Abreu enviou \u00a0de Porto Alegre (aqui identificado como Porto Xarope) para mim nos anos 70, e que tem causado grande repercuss\u00e3o\u00a0 nas m\u00eddias sociais, blogs e jornais. 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