{"id":291,"date":"2009-12-10T12:30:56","date_gmt":"2009-12-10T14:30:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=291"},"modified":"2009-12-10T12:30:56","modified_gmt":"2009-12-10T14:30:56","slug":"requiem-para-o-jornalismo-impresso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/requiem-para-o-jornalismo-impresso","title":{"rendered":"R\u00c9QUIEM PARA O JORNALISMO IMPRESSO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>State of Play <\/em>pode ser traduzido por \u201ca situa\u00e7\u00e3o atual\u201d. \u00c9 o que pretende mostrar o filme com esse nome (aqui, Intrigas de Estado), baseado numa s\u00e9rie da TV inglesa, mas que foi totalmente adaptada. A trama fica um pouco confusa, com alguns pontos cegos, mas isso n\u00e3o importa. Eu n\u00e3o tenho muita paci\u00eancia para seguir os detalhes das intrincadas conex\u00f5es da espionagem ou da corrup\u00e7\u00e3o, mas desta vez os gringos me d\u00e3o raz\u00e3o, pois h\u00e1 algumas ocorr\u00eancias na rede dizendo exatamente isso, que nem sempre as coisas ficam claras no que \u00e9 apresentado.<\/p>\n<p>Prefiro ver <em>State of play<\/em> por aquilo que seu diretor Kevin McDonald definiu no making of: um r\u00e9quiem para o jornalismo impresso, representada pela sequ\u00eancia final, quando m\u00e1quinas pesadas de uma realidade anal\u00f3gica imprimem enfim a edi\u00e7\u00e3o definitiva que traz toda a trama decifrada. A hist\u00f3ria gira em torno da privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a dentro dos Estados Unidos, denunciando o que j\u00e1 temos entre n\u00f3s: um ex\u00e9rcito privado movimentando muito dinheiro. Uma corpora\u00e7\u00e3o desse ramo est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a ocorrer uma s\u00e9rie de assassinatos aparentemente sem rela\u00e7\u00e3o um com o outro.<\/p>\n<p>\u00c9 um bom filme, se for visto assim como um thriller a que Hollywood est\u00e1 acostumado a fazer. Mas fica melhor se o virmos como uma reflex\u00e3o sobre o atual est\u00e1gio do jornalismo, em que os grandes jornais e os grandes jornalistas, apesar de necess\u00e1rios e fundamentais para a democracia, est\u00e3o morrendo, aparentemente engolidos pela revolu\u00e7\u00e3o digital, mas no fundo sucateados pela ditadura financeira global, que tem horror \u00e0 concorr\u00eancia e \u00e0s den\u00fancias. O filme mostra uma reda\u00e7\u00e3o tomada por computadores, mas ao mesmo tempo soterrada de papel e de bagun\u00e7a. \u00c9 um ambiente de trabalho que ainda n\u00e3o assumiu a atual assepsia das reda\u00e7\u00f5es brasileiras e mant\u00e9m aquele clima saud\u00e1vel do bom e velho jornalismo.<\/p>\n<p>O Washington Globe, o ve\u00edculo fict\u00edcio, est\u00e1 sob press\u00e3o de novos propriet\u00e1rios, que querem lucros, o fim do jornal\u00e3o de qualidade, mas deficit\u00e1rio. Para faturar, \u00e9 preciso ser r\u00e1pido e centrar na fofoca. Contra essa tend\u00eancia luta o rep\u00f3rter interpretado pelo excelente Russel Crowe, um cara que sempre gosto de ver atuando, pela for\u00e7a que imprime em seus personagens. Talvez seja hoje o \u00fanico ator que define um caminhar pr\u00f3prio, como fizeram John Wayne e Robert Mitchum. Crowe anda do mesmo jeito, seja rep\u00f3rter ou o matem\u00e1tico pirado de Mente Brilhante. P\u00e9s para dentro, meio curvado, apressado, meio torto. Muito bom.<\/p>\n<p>Esse personagem, o rep\u00f3rter investigativo bagun\u00e7ado, tem seu paradigma em Dustin Hoffman, do cl\u00e1ssico Todos os homens do presidente. E boas rela\u00e7\u00f5es com outros tipos inesquec\u00edveis como Clint Eastwood no filme que luta contra a dire\u00e7\u00e3o do jornal para livrar um condenado \u00e0 pena de morte. Em State of Play, Crowe \u00e9 daqueles antigos do \u201cparem as m\u00e1quinas\u201d, que faz ironias com a blogueira que, segundo a editora (Helen Mirren, \u00f3tima) prduz uma mat\u00e9ria por hora. Est\u00e1 formada a dupla de ataque, o grande rep\u00f3rter e a foca do notici\u00e1rio superficial. A segunda aprende com o primeiro e v\u00ea como fiscalizar, pesquisar, informar, tudo junto, mentir quando necess\u00e1rio para chegar ao objetivo, fazer concorr\u00eancia com os investigadores policiais, tudo o que uma boa reportagem exige em meio a persegui\u00e7\u00f5es, tiroteios e di\u00e1logos pesados.<\/p>\n<p>\u201cSou jornalista, n\u00e3o publicit\u00e1rio\u201d, diz Crowe para sua editora. &#8220;Tem gente que ainda confia no jornalista que arrisca a vida para dizer a verdade&#8221;. Eis o que passa o filme que mostra a necessidade de existir todas as formas de comunica\u00e7\u00e3o, tanto o jornalismo online quanto o impresso e que \u00e9 preciso, para termos democracia, existir grandes jornalistas, assim como grandes juristas e grandes pol\u00edticos. No Brasil, houve \u00e9poca em que tivemos tudo isso. T\u00ednhamos Tarso de Castro e Barbosa Lima Sobrinho, t\u00ednhamos Darcy Ribeiro e Teot\u00f4nio Villella, t\u00ednhamos Raymundo Faoro e Sobral Pinto. Em que espelho deixamos perdidos nossa face? como diria Cec\u00edlia Meireles.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter que asssina sua mat\u00e9ria fundamental depois de colocar a assinatura da foca, esse cara \u00e9tico que consegue sobrepor a voca\u00e7\u00e3o e o of\u00edcio acima dos interesses pessoais e da amizade, esse \u00e9 o cara que encerra o expediente sob o olhar admirado dos seus pares. N\u00e3o h\u00e1 gl\u00f3ria maior nesta profiss\u00e3o que nada nos d\u00e1, a n\u00e3o ser a sensa\u00e7\u00e3o do dever cumprido, quando fazemos jus \u00e0s responsabilidades num tempo de guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prefiro ver State of play por aquilo que seu diretor Kevin McDonald definiu no making of: um r\u00e9quiem para o jornalismo impresso, representada pela sequ\u00eancia final, quando m\u00e1quinas pesadas de uma realidade anal\u00f3gica imprimem enfim a edi\u00e7\u00e3o definitiva que traz toda a trama decifrada. A hist\u00f3ria gira em torno da privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a dentro dos Estados Unidos, denunciando o que j\u00e1 temos entre n\u00f3s: um ex\u00e9rcito privado movimentando muito dinheiro. 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