{"id":2914,"date":"2011-10-03T16:53:12","date_gmt":"2011-10-03T19:53:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2914"},"modified":"2011-10-03T16:53:12","modified_gmt":"2011-10-03T19:53:12","slug":"duelos-entre-o-amor-e-a-solidao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/duelos-entre-o-amor-e-a-solidao","title":{"rendered":"DUELOS ENTRE O AMOR E A SOLID\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Resenha publicada na revista ISTO\u00c9 11\/05\/1988 sobre o livro Os Drag\u00f5es N\u00e3o Conhecem O Paraiso, de Caio Fernando Abreu. Companhia das Letras, 157 p\u00e1ginas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A lucidez fecha as portas do para\u00edso. No campo minado da linguagem de Caio Fernando Abreu, o para\u00edso significa a \u201ceterna monotonia de pac\u00edfica falsidade\u201d. Enxergar \u00e9 n\u00e3o ter contempla\u00e7\u00e3o com ningu\u00e9m. Por isso, desfila nos treze contos que comp\u00f5em este seu novo livro, ao lado de uma personagem central \u2014 tensa com a idade e o pr\u00f3prio corpo -, uma fauna urbana nomeada pela adjetiva\u00e7\u00e3o inspirada em equ\u00edvocos de comportamento, como O Homem Independente Que N\u00e3o Necessita Mais Dessas Bobagens de Amor ou A Mulher Totalmente Liberada Por\u00e9m Profundamente Incompreendida.<\/p>\n<p>Enxergar, para Caio, \u00e9 desvendar, entre outras coisas, a adolesc\u00eancia cultivada no interior do Rio Grande do Sul \u2014 onde nasceu em 1948 \u2014, ambiente de onde saem contos primorosos como Pequeno Monstro, que descreve a descoberta do outro, primeiro passo para a psican\u00e1lise e a transcend\u00eancia. Livrar-se da carga cultural do interior implica, no entanto, um paciente trabalho de recupera\u00e7\u00e3o da linguagem do passado.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse territ\u00f3rio de dif\u00edcil acesso \u2014 pois \u00e9 f\u00e1cil cair na pieguice \u2014 que Caio constr\u00f3i textos antol\u00f3gicos, como O Destino Desfolhou, descri\u00e7\u00e3o de uma desilus\u00e3o amorosa do 12 aos 16 anos de idade. Para isso, resgata palavras incomuns, de uso regional ou presas ao tempo. Tendo o cuidado de n\u00e3o limitar os assuntos em fechados compartimentos, o autor combina habilmente o pesado clima de uma cidade provinciana e suas perspectivas com a leveza dos di\u00e1logos, a poesia das descri\u00e7\u00f5es, a riqueza dos detalhes.<\/p>\n<p>Todo esse universo compilcado e exausto chega ao \u00e1pice em Linda, uma Hist\u00f3ria Horr\u00edvel, que descreve a visita da personagem central \u00e0 casa paterna. Revisitar a inf\u00e2ncia, com todo o seu horror exposto na velha casa, \u00e9 o caminho para tentar, de volta \u00e0 grande cidade, entender a idade, o corpo e resgatar possibilidades de uma supera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, um caminho f\u00e1cil. Na voragem de contos como Saudades de Audrey Hepburn, Dama da Noite e Sapatinhos Vermelhos o autor desmonta as fic\u00e7\u00f5es urbanas da era da AIDS. Uma viagem inperd\u00edvel, onde a solid\u00e3o duela com o amor o tempo todo. Caio, nestes contos, detecta m\u00faltiplas personagens, que tanto podem ser um publicit\u00e1rio, uma prostituta, um psic\u00f3logo. Gente l\u00facida da mesquinharia ambiente, que, sem concess\u00e3o, descreve a rotina ag\u00f4nica de h\u00e1bitos tidos como exc\u00eantricos, mas que no fundo revelam apenas o horror de estar vivo.<\/p>\n<p>\u00c9 assim, pela meticulosa constru\u00e7\u00e3o de uma linguagem pr\u00f3pria, que o pequeno monstro do interior, pelo excesso de. lucidez, tra\u00e7a o perfil de suas obsess\u00f5es. Essas, num truque onde entram o sonho e a emo\u00e7\u00e3o, encarnam na figura do drag\u00e3o. \u00c9 ele que convive com o escritor, como met\u00e1fora de liberta\u00e7\u00e3o: os drag\u00f5es, como os pesidelos, n\u00e3o t\u00eam exist\u00eancia real. O que existe \u00e9 um autor diante de suas palavras, ordenadas pela paix\u00e3o de continuar vivendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de buscar a salva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o \u00e1spero caminho escolhido por Caio Fernnando Abreu, desde sua estr\u00e9ia em I970 aos 21 anos, com o livro de contos Invent\u00e1rio do Irremediavel, n\u00e3o permite solu\u00e7\u00f5es \u00f3bvias nem otimismo. Essa coragem &#8211; que gerou j\u00e1 sete livros, entre eles O Ovo Apunhalado (1975), Morangos Mofados (1982) e Tri\u00e2ngulo das \u00c1guas (1983) \u2014 justifica plenamente o prest\u00edgio de Caio no meio liter\u00e1rio brasileiro. Um prest\u00edgio constru\u00eddo com a for\u00e7a dos verdadeiros artistas.<\/p>\n<p><em>Esta minha resenha n\u00e3o constava mais nos arquivos aqui de casa e foi enviada por e-mail por especial gentileza de Laura Souto Santana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Resenha publicada na revista ISTO\u00c9 11\/05\/1988 sobre o livro Os Drag\u00f5es N\u00e3o Conhecem O Paraiso, de Caio Fernando Abreu. Companhia das Letras, 157 p\u00e1ginas. A lucidez fecha as portas do para\u00edso. No campo minado da linguagem de Caio Fernando Abreu, o para\u00edso significa a \u201ceterna monotonia de pac\u00edfica falsidade\u201d. 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