{"id":2925,"date":"2011-10-03T16:58:06","date_gmt":"2011-10-03T19:58:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2925"},"modified":"2011-10-03T16:58:06","modified_gmt":"2011-10-03T19:58:06","slug":"ainda-e-cedo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ainda-e-cedo","title":{"rendered":"AINDA \u00c9 CEDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo, amor, para retribuir teu beijo, porque devo esperar a hora certa. Um sinal ser\u00e1 dado pelo navio que cruza o rio e fica em frente a n\u00f3s como um aviso de que tudo poder\u00e1 acontecer de novo, nossa cama coberta de sonho, a janela aberta para os p\u00e1ssaros. N\u00e3o devemos pensar em mais nada, a n\u00e3o ser nos desvencilhar desse la\u00e7o a que nos condenamos e nos impede de viver o que foi dito acima: o Tempo domesticado pelo sentimento ainda vivo, o sopro divino de uma tardia esperan\u00e7a. Sim, palavras bonitas que te lan\u00e7o porque me resta a sedu\u00e7\u00e3o do verbo, j\u00e1 que perdi a chance quando estive perto e agora distante inauguro a vontade de rever o que perdemos.<\/p>\n<p>Dizem que nada disso vale e \u00e9 preciso aquilo que sabemos e j\u00e1 foi experimentado em v\u00e3o pelas carruagens de sempre. Elas passam, amor, enquanto n\u00f3s ficamos na beira da rodovia em p\u00e2nico, esse pa\u00eds quebrado em mil peda\u00e7os . N\u00e3o \u00e9 mais hora de queixas, pois anulamos a capacidade de ver melhor quando t\u00ednhamos na frente a verdade que n\u00e3o ous\u00e1vamos pronunciar. Ficou tarde para levantarmos do campo, aberto em mil cris\u00e2ntemos. Mas como o sol esbo\u00e7a chegar e tudo fica quieto como na v\u00e9spera da cria\u00e7\u00e3o, posso esperar o melhor da vida nova que nos toma o cora\u00e7\u00e3o que consider\u00e1vamos morto.<\/p>\n<p>Libero a palavra de seus encargos, visto-a com roupa de domingo para me recuperar do estrago. Tinhas um vestido que despetalei escondido naquela dobra de vento. E eu cal\u00e7ava botas de pano, que n\u00e3o faziam ru\u00eddo quando inaugur\u00e1vamos jardins colhendo a esmo flores que em pouco tempo morreriam. Inventamos essa doce compuls\u00e3o de canteiros enquanto o mato tomava conta dos ger\u00e2nios. Perdi a no\u00e7\u00e3o do que falo, pois apenas exer\u00e7o a hipnose que te prende como o olhar do bicho de tocaia no p\u00e2ntano. A m\u00e1gica ainda funciona? Me diga, amor, antes que eu suma outra vez no trem desse destino.<\/p>\n<p>Na esta\u00e7\u00e3o te vi ainda intacta com teu rosto vermelho de paix\u00e3o pelo que cultivamos. E nos despedimos, como dois absurdos contratempos. Foi o trem bater no trilho da colina seguinte para eu saber que estava tudo perdido, apesar da promessa e teu bilhete, que guardo ainda. Arranjei at\u00e9 um cofre onde revisito quando chove e imagino que o tempo bom \u00e9 uma id\u00e9ia que pertence ao deserto que nos impuseram. Mas um cheiro teu cruza o infinito dessa dist\u00e2ncia insuport\u00e1vel e levanto para ver a manh\u00e3 ainda no esbo\u00e7o de um clar\u00e3o da iminente primavera. Sim, eu falava do inverno, meu amor, e de como ficamos enrijecidos e tontos e como nos recolhemos achando que ir\u00edamos sobreviver se nos encolh\u00eassemos at\u00e9 al\u00e9m do limite da ins\u00e2nia.<\/p>\n<p>Mas a chuva parou e as \u00e1rvores se colocam em guarda como num dia de batalha que mede os advers\u00e1rios com o olhar de esc\u00e2ndalo. H\u00e1 mudez nos ninhos e r\u00fatilos girass\u00f3is est\u00e3o prontos para lan\u00e7ar seu amarelo ouro sobre o verniz do dia ainda no esbo\u00e7o. Falo sempre da mesma coisa, amor, e direi sempre, toda a vida e mais a pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o, se isso existir de fato. Quero a mulher que me enche de mel como um o\u00e1sis numa paisagem de metais e fogo.<\/p>\n<p>Quero teu amor, e isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana. 2. Imagem desta edi\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Ainda \u00e9 cedo, amor, para retribuir teu beijo, porque devo esperar a hora certa. Um sinal ser\u00e1 dado pelo navio que cruza o rio e fica em frente a n\u00f3s como um aviso de que tudo poder\u00e1 acontecer de novo, nossa cama coberta de sonho, a janela aberta para os p\u00e1ssaros. 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