{"id":2938,"date":"2011-10-03T17:04:23","date_gmt":"2011-10-03T20:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2938"},"modified":"2011-10-03T17:04:23","modified_gmt":"2011-10-03T20:04:23","slug":"moby-dick-nao-ver-a-ruptura-em-john-huston","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/moby-dick-nao-ver-a-ruptura-em-john-huston","title":{"rendered":"MOBY DICK: N\u00c3O VER, A RUPTURA EM JOHN HUSTON"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A Queda, ch\u00e3o que falta subitamente \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 provocada pela indiferen\u00e7a. A divindade se vinga do bocejo colocando prazo de validade na criatura. Sua inten\u00e7\u00e3o original, j\u00e1 que tratava da imagem e semelhan\u00e7a, seria a eternidade, mas esse projeto perdeu o sentido com o que chamaram de pecado e foi apenas uma insubmiss\u00e3o ao del\u00edrio da a\u00e7\u00e3o, a sesta contra o baile de gala.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastou, para o Criador, decidir sobre o tempo datado do ser, foi preciso estender o an\u00e1tema a toda esp\u00e9cie. Esse drama \u00e9 pontuado pelo esfor\u00e7o em super\u00e1-lo. Isso, em John Huston, se faz por meio da ins\u00e2nia, que \u00e9 a ruptura da indiferen\u00e7a por meio de um ato de vontade de objetivos gigantescos. Pode ser o de decifrar a alma humana, como em Freud, ou capturar a baleia branca, como em Moby Dick. Mas a tarefa \u00e9 enorme, precisa de alian\u00e7as. A exemplo de Deus, que fez o pacto depois da borrasca, o capit\u00e3o Ahab (inesquec\u00edvel personagem de Herman Melville interpretado pelo assombroso Gregory Peck numa performance de g\u00eanio) seduz as pessoas para conseguir a meta.<\/p>\n<p>O discurso do convencimento entra na roda, em Freud, por meio da argumenta\u00e7\u00e3o, a pesquisa e a dedu\u00e7\u00e3o. Em Moby Dick por meio do discurso prof\u00e9tico, de tom b\u00edblico, apoiado pelo despertar da cobi\u00e7a, pois o humano em Huston \u00e9 a malvadeza, sua den\u00fancia favorita contra a m\u00e1scara de falsos sentimentos que costumam vestir a selvageria dos civilizados.<\/p>\n<p>Tanto a alma cheia de neuroses quanto sua representa\u00e7\u00e3o, a baleia arpoada por in\u00fameros ca\u00e7adores, est\u00e3o ocultas. A arma para a sobreviv\u00eancia \u00e9 n\u00e3o ser visto, mas o que fica submerso se transforma em sufoco. O doente mental est\u00e1 preso na neurose e precisa achar a porta da sa\u00edda. O capit\u00e3o Ahab sofre na obscuridade, carrega sua maldi\u00e7\u00e3o e \u00f3dio, sua obsess\u00e3o pelo que identifica como sendo o Mal. Ele n\u00e3o aparece para a tripula\u00e7\u00e3o nas rotinas do navio, esconde-se e s\u00f3 \u00e0 noite sugere sua presen\u00e7a por meio do assustador passo com a perna feita de osso de baleia.<\/p>\n<p>Moby Dick tamb\u00e9m se esconde. \u00c9 mortal a cena em que apenas as aves indicam a presen\u00e7a do monstro oculto, enquanto o rosto enlouquecido do arpoador se equilibra na fragilidade da sua persegui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vemos as v\u00edtimas por algum tempo at\u00e9 que elas assomam com estrondo, tanto no parapeito do barco quando no meio do oceano levantando espuma. Ver ent\u00e3o \u00e9 uma tempestade, irm\u00e3 gema da cegueira. Os doutores que acompanham Freud n\u00e3o enxergam o que ele v\u00ea na sua \u00e2nsia de mostrar a solu\u00e7\u00e3o da charada. E a tripula\u00e7\u00e3o de Ahab est\u00e1 sem perceber a verdadeira chave daquele enigma. Foram fisgados pela autoridade e o discurso do navegador, mas s\u00f3 conseguem ver que ele foi arrastado para sempre.<\/p>\n<p>O cinema, arte de ver, precisa sugerir que o n\u00facleo da a\u00e7\u00e3o se situa fora da tela: dentro da cabe\u00e7a dos doentes mentais ou no fundo do oceano, onde dorme o mam\u00edfero gigante. Como Huston faz essa sugest\u00e3o? O barulho dos passos da perna de osso de baleia do capit\u00e3o que os novatos ainda n\u00e3o viram pessoalmente, ou as aves que sobrevoam o cet\u00e1ceo mergulhado crispam os rostos e olhos dos protagonistas, a mostrar que a imagem \u00e9 apenas a margem de um espa\u00e7o mais amplo, a palavra, ou sua queda, o ru\u00eddo.<\/p>\n<p>N\u00e3o ver ocupa a posi\u00e7\u00e3o de protagonista nestes filmes de Huston. Ele prefere mostrar o impacto do enigma nos rostos cl\u00e1ssicos de brutalidade, j\u00e1 que seu cinema \u00e9 tamb\u00e9m arte pict\u00f3rica de tom sacro (basta ver Orson Welles discursando na nave de um templo antes da viagem fatal). Marinheiros, Imediato, fam\u00edlias, o pastor, todos se esfor\u00e7am para ver o que est\u00e1 oculto e o cineasta mostra esse direcionamento do olhar para algo que n\u00e3o se revela num primeiro momento.<\/p>\n<p>As mulheres compenetradas e sinistras em grupos no cais diante do navio que parte para o perigo extremo, os marujos que lutam por uma moeda de ouro e sofrem de alucina\u00e7\u00f5es na calmaria, o arpoador que l\u00ea nos buzios a pr\u00f3pria morte e emudece para morrer e \u00e9 tirado do torpor pela press\u00e3o da crueldade dos vivos, o capit\u00e3o que suspende uma ca\u00e7a proveitosa em favor de uma ilus\u00e3o, de um gesto demente: criaturas que n\u00e3o v\u00eaem e acabam sendo devorados pelas revela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A ins\u00e2nia \u00e9 uma forma de a criatura convencer o Criador que nem tudo \u00e9 indiferen\u00e7a na plan\u00edcie. H\u00e1 tamb\u00e9m esfor\u00e7o em ficar \u00e0 altura da Cria\u00e7\u00e3o, nem que para isso nos chamem de loucos e nos joguem coisas quando decidimos abordar certos filmes com o esp\u00edrito desarmado e a alma livre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A Queda, ch\u00e3o que falta subitamente \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 provocada pela indiferen\u00e7a. A divindade se vinga do bocejo colocando prazo de validade na criatura. 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