{"id":294,"date":"2009-12-10T12:33:52","date_gmt":"2009-12-10T14:33:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=294"},"modified":"2009-12-10T12:33:52","modified_gmt":"2009-12-10T14:33:52","slug":"frostnixon-a-pauta-improvavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/frostnixon-a-pauta-improvavel","title":{"rendered":"FROST\/NIXON: A PAUTA IMPROV\u00c1VEL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Atualidade absoluta: os americanos fazem um filme que resgata os crimes de Nixon, com o objetivo de acusar a gest\u00e3o Bush, mas est\u00e1 sob medida para o Brasil. Temos casos id\u00eanticos, como Collor, que tamb\u00e9m renunciou \u00e0 presid\u00eancia para escapar de ser deposto, ou Lula, que tamb\u00e9m nada sabia sobre o que faziam seus assessores. S\u00f3 essas sintonias j\u00e1 justificam tratar como obrigat\u00f3rio o filme Frost\/ Nixon (2008), de Ron Howard, baseado em pe\u00e7a do mesmo nome de Peter Morgan e que recebeu cinco indica\u00e7\u00f5es para Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator &#8211; Frank Langella, no papel do ex-presidente -, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem).<\/p>\n<p>A pauta era improv\u00e1vel, j\u00e1 que ningu\u00e9m queria saber de Nixon a n\u00e3o ser que fizesse um mea culpa em p\u00fablico. As grandes figuras carimbadas do jornalismo americano n\u00e3o queriam pagar esse mico, arriscar sua credibilidade caindo nas armadilhas de Nixon, que poderia sair fortalecido do embate. Talvez, e nisso acreditavam os que tinham muito a perder na m\u00eddia americana, em vez de ser destru\u00eddo publicamente num balan\u00e7o da sua presid\u00eancia, o ex-presidente poderia recuperar espa\u00e7o e fazer um retorno humilhante para seus advers\u00e1rios, como aconteceu aqui depois dos grandes esc\u00e2ndalos, quando vimos antigos acusados gargalhando juntos nos pal\u00e1cios republicanos.<\/p>\n<p>O desastre quase aconteceu para o jornalista brit\u00e2nico David Frost e sua brava equipe. Mas l\u00e1 existe imprensa, opini\u00e3o p\u00fablica, preparo, f\u00f4lego. Os Estados Unidos s\u00e3o outra coisa. N\u00e3o quer dizer que foi uma tarefa f\u00e1cil. A seriedade, a responsabilidade, a coragem encontraram dificuldades. Pois a entrevista, para a televis\u00e3o, de 12 horas que Frost fez com o ex-presidente em 1977, cinco anos depois da sua ren\u00fancia em fun\u00e7\u00e3o do esc\u00e2ndalo de Watergate, tinha tudo para dar errado.<\/p>\n<p>O entrevistador n\u00e3o era do ramo, acreditavam, j\u00e1 que amargava um ex\u00edlio na Austr\u00e1lia, fazendo show de entretenimento depois de mete\u00f3rica passagem por Nova York. Enquanto Nixon era considerado do ramo, tinha manha televisiva, e iria esmag\u00e1-lo. Esqueceram que a especialidade do jornalista \u00e9 o jornalismo, n\u00e3o a pol\u00edtica ou qualquer outro assunto. E que um pol\u00edtico, em frente as c\u00e2maras, por mais experiente e vivo que seja, sempre ser\u00e1 uma fonte, jamais um jornalista, que no seu meio est\u00e1 em vantagem.<\/p>\n<p>O filme foi concebido como uma luta de boxe, decis\u00e3o do t\u00edtulo de campe\u00e3o dos peso pesados. As equipes jogavam a toalha, interrompiam, falavam na cara do lutador na hora do intervalo. Os contendores escutavam, recuperavam o f\u00f4lego, se preparavam para mais um round. O estudo detalhado das fitas gravadas do caso Watergate, a pesquisa minuciosa, a elabora\u00e7\u00e3o exaustiva de cada pergunta, o exerc\u00edcio de dramaturgia que tentava adivinhar o que o advers\u00e1rio iria dizer, fazem do filme uma sucess\u00e3o de golpes com o \u00fanico objetivo de destruir o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os dois personagens principais se superam na briga. Nixon, que vinha de uma derrota absoluta, a condena\u00e7\u00e3o geral da na\u00e7\u00e3o e amargava um isolamento que o deixava exasperado, come\u00e7a a ganhar pontos nas primeiras horas de entrevista, quase levando o entrevistador a nocaute. Foi um detalhe importante, conseguido pelo pesquisador interpretado pelo excelente Sam Rockwell, autor de quatro livros sobre Nixon, que descobriu a prova do crime. Ou seja, de que o presidente sabia da invas\u00e3o do pr\u00e9dio onde funcionava o Partido Democrata e que tentou obstruir a justi\u00e7a por meio do suborno das testemunhas.<\/p>\n<p>Isso foi fatal para virar o jogo. De cara no ch\u00e3o, o entrevistado confessa que errou, mas se recusa a pedir desculpas e a se humilhar. Arrosta toda a responsabilidade e exibe, no final, o rosto demolido de sua grande derrota, que era o que a popula\u00e7\u00e3o queria ver. O sucesso da entrevista foi tremendo. Enriqueceu os poucos investidores que ajudaram a cacifar os 600 mil d\u00f3lares de custo, cobrados por Nixon para falar. E devolveu Frost para o centro do mundo. Hoje ele continua em destaque em Londres, onde \u00e9 Sir.<\/p>\n<p>Grandes atores em cena nos mant\u00e9m em aten\u00e7\u00e3o constante ao longo da narrativa. Al\u00e9m de Langella, soberbo, h\u00e1 Mike Sheen no papel de Frost (ele tem um ar de Tom Cruise). E al\u00e9m de Sam Rockwell, h\u00e1 Oliver Platt, hil\u00e1rio na equipe de Frost, e Kevin Bacon, no papel de um oficial da Marinha e confidente de Nixon.<\/p>\n<p>Frost\/Nixon: ver para aprender como se faz. Mais do que obrigat\u00f3rio, antol\u00f3gico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atualidade absoluta: os americanos fazem um filme que resgata os crimes de Nixon, com o objetivo de acusar a gest\u00e3o Bush, mas est\u00e1 sob medida para o Brasil. Temos casos id\u00eanticos, como Collor, que tamb\u00e9m renunciou \u00e0 presid\u00eancia para escapar de ser deposto, ou Lula, que tamb\u00e9m nada sabia sobre o que faziam seus assessores. 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