{"id":2956,"date":"2011-10-30T13:24:33","date_gmt":"2011-10-30T15:24:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2956"},"modified":"2011-10-30T13:24:33","modified_gmt":"2011-10-30T15:24:33","slug":"caio-f-carta-de-uma-data-adivinhada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/caio-f-carta-de-uma-data-adivinhada","title":{"rendered":"CAIO F: CARTA DE UMA DATA ADIVINHADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Da solid\u00e3o \u00e0 epifania, esta carta que Caio escreveu para mim em data incerta, mas determinada (vejam por que logo no in\u00edcio) percorre as dificuldades que enfrent\u00e1vamos na \u00e9poca, como desemprego, projetos frustrados, amores que se esvaziam, relacionamentos que acabam, dor de cabe\u00e7a que n\u00e3o passa. Come\u00e7a mostrando como se fazia nos anos 70: ia-se pessoalmente \u00e0 reda\u00e7\u00e3o levar o texto para ser publicado. N\u00e3o tinha essa moleza de e-mail . E n\u00e3o era um lugar qualquer, mas na mais profunda Marginal do Tiet\u00ea,na reda\u00e7\u00e3o da Veja. Ia-se a p\u00e9, ou seja, de \u00f4nibus. Assim viv\u00edamos naquele tempo her\u00f3ico. Caio mostra com todas as letras o que se passava na \u00e9poca, dando continuidade a esta s\u00e9rie de cartas perdidas que j\u00e1 \u00e9 um cult entre antigos e novos admiradores. Destaque para a hist\u00f3ria \u00f3tima com Mario Quintana<\/em><\/p>\n<p>Porto, acho que 23.11.77<\/p>\n<p>Nei,<\/p>\n<p>tanto sil\u00eancio meu que, eu sei, pode ter soado a desamor. N\u00e3o foi n\u00e3o, s\u00f3 um ac\u00famulo de coisas internas e externas, lan\u00e7amento de livro, inseguran\u00e7a, medos, bodes &amp; bodes que n\u00e3o vale a pena enumerar. Mas hoje pensei forte em voc\u00ea porque fui na sucursal da Veja levar \u2013 depois de muita marca\u00e7\u00e3o \u2013 uma resenha que o Humberto Werneck tinha pedido sobre \u201cA Vaca e o Hipogrifo\u201d, do Mario Quintana \u2013 e que eu abri cotando aqueles versos seus, o dinossauro, a borboleta, \u00e9 incr\u00edvel como ele dinossaureia e borboleteia nos textos. Depois levei na Folha a minha p\u00e1gina de quinta, estou s\u00f3 com duas p\u00e1ginas, agora uma \u00e0s segundas, outras \u00e0s quintas, sobre o que eu quiser, depois fui no psiquiatra e sa\u00ed t\u00e3o desantenado (dem\u00f4nios novos na roda&#8230;) que n\u00e3o suportei sequer a id\u00e9ia de tomar um \u00f4nibus na Pra\u00e7a XV e voltar pra casa.<\/p>\n<p>Da\u00ed fui ver um filme qualquer, meu deus, uma pornochanchada gross\u00edssima, \u201cGente Fina \u00e9 Outra Coisa\u201d, do Calmon, que j\u00e1 fez coisa boa, e sa\u00ed mais desantenado ainda e na rua tava uma puta agita\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria de terremoto no interior. S\u00f3 li as manchetes, meio apavorado, apocal\u00edptico demais, acabei enfrentando a Pra\u00e7a XV, a casa vazia, eu e Tigra, ,cozinhei, lavei pratos e panelas, fiz um ch\u00e1 de cidr\u00f3-hortel\u00e3-funcho colhidos no quintal, que to tomando agora, dez e meia da noite e uma pontada do lado esquerdo da cabe\u00e7a, que n\u00e3o me larga faz dias.<\/p>\n<p>E eu tava no meio da comida quando me dei conta que tinha come\u00e7ado a chorar e a repetir meio dementemente \u201ctudo-faz-tanto-tempo-tudo-faz-tanto-tempo\u201d, talvez em parte um efeito colateral da mat\u00e9ria enorme sobre o Tropicalismo que li ontem em parte uma sensa\u00e7\u00e3o presente, cada vez mais, e mais constante, de qualquer coisa como estar-ficando-velho, ou j\u00e1 ter atr\u00e1s de mim uma hist\u00f3ria dessas com ag\u00e1 mesmo. E uma solid\u00e3o muito grande. E uma sede. E uma vontade de ir embora, obsessiva, esgotante. E uma falta de coragem. E um desgosto com a cidade semi-destru\u00edda, com as pessoas esvaziadas e semi-destru\u00eddas tamb\u00e9m (e eu nem sequer me excluo disso).<\/p>\n<p>Me olho no espelho e vejo uma cara endurecendo dia a dia, uma falta de espanto nos olhos. N\u00e3o fa\u00e7o nada. Um dia engendra o outro, sem alegria, desde que voltei. E quando andei por a\u00ed parecia tudo t\u00e3o novo, me veio outra vez uma curiosidade pelo mundo, um carinho pelas pessoas, uma vontade de continuar vivo, de lutar, de seguir. As \u00e1guas estagnadas de escorpi\u00e3o deste porto parecem fazer dueto com o zero grau do meu escorpi\u00e3o ascendente. Meu deus (h\u00e1 poucos dias fiz uma grande descoberta: deus est\u00e1 na cl\u00ednica), quanta queixa sem ponto de exclama\u00e7\u00e3o. Por isso tamb\u00e9m tava evitando escrever, porque sabia que a torneira ia abrir e jorrar \u00e1gua barrenta.<\/p>\n<p>Me conta de voc\u00ea, Ida, de Daniel e Ju Jaegger, das batalhas pela nova casa (espero que ainda esteja a\u00ed na antiga, sen\u00e3o essa carta vai se perder). Voc\u00eas foram t\u00e3o bonitos comigo quando estive a\u00ed, n\u00e3o agradeci porque sou sem jeito pressas coisas, mas tinha um agradecimento impl\u00edcito que acho que foi percebido. Olha, se eu continuar escrevendo, vou continuar me queixando, ent\u00e3o vou te mandar este poema do C\u00e9sar Vallejo, que eu gosto muito. L\u00e1 vai:<\/p>\n<p>ESPERGESIA<br \/>\nYo nac\u00ed un d\u00eda<br \/>\nque Dios estuvo enfermo.<\/p>\n<p>Todos saben que vivo,<br \/>\nque soy malo; y no saben<br \/>\ndel diciembre de ese enero.<br \/>\nPues yo nac\u00ed un d\u00eda<br \/>\nque Dios estuvo enfermo.<\/p>\n<p>Hay un vac\u00edo<br \/>\nen mi aire metaf\u00edsico<br \/>\nque nadie ha de palpar:<br \/>\nel claustro de un silencio<br \/>\nque habl\u00f3 a flor de fuego.<\/p>\n<p>Yo nac\u00ed un d\u00eda<br \/>\nque Dios estuvo enfermo.<\/p>\n<p>Hermano, escucha, escucha&#8230;<br \/>\nBueno. Y que no me vaya<br \/>\nsin llevar diciembres,<br \/>\nsin dejar eneros.<br \/>\nPues yo nac\u00ed un d\u00eda<br \/>\nque Dios estuvo enfermo.<\/p>\n<p>Todos saben que vivo,<br \/>\nque mastico&#8230; y no saben<br \/>\npor qu\u00e9 en mi verso chirr\u00edan,<br \/>\noscuro sinsabor de fer\u00e9tro,<br \/>\nluyidos vientos<br \/>\ndesenroscados de la Esfinge<br \/>\npreguntona del Desierto.<\/p>\n<p>Todos saben&#8230; Y no saben<br \/>\nque la Luz es t\u00edsica,<br \/>\ny la Sombra gorda&#8230;<br \/>\nY no saben que el misterio sintetiza&#8230;<br \/>\nque \u00e9l es la joroba<br \/>\nmusical y triste que a distancia denuncia<br \/>\nel paso meridiano de las lindes a las Lindes.<\/p>\n<p>Yo nac\u00ed un d\u00eda<br \/>\nque Dios estuvo enfermo,<br \/>\ngrave.<\/p>\n<p>Uma for\u00e7a grande pro vestibular da Ida.<br \/>\nAgrade\u00e7a por mim ao Moacir Am\u00e2ncio a publica\u00e7\u00e3o da entrevista, e diga que to esperando a Esta\u00e7\u00e3o dos Confundidos. Falar nisso, pedi ao Mangarielo que te levasse um exemplar das Pedras. Levou? Se n\u00e3o levou, dede ele pra mim.<br \/>\nA pontada na cabe\u00e7a continua. N\u00e3o consigo parar de escrever. Oc\u00ea me ag\u00fcenta mais algumas laudas? Podia ser assim:<br \/>\nYo naci um dia<br \/>\nque Dios estuve loco,<br \/>\ndespelotado<\/p>\n<p>Produzindo (\u00e9 a palavra) as p\u00e1ginas pra Folha, veio um lado bom \u2013 n\u00e3o-ir \u00e0 reda\u00e7\u00e3o \u2013 e um lado mau, me esgotar pra parir textos imbecis praquele jornal imbecil. Veja s\u00f3: fui escrever mau e escrevi meu : lapso freudiano, t\u00edpico.<br \/>\nSandra e Gui chegam, semi-demolidos, foram assistir \u201cFace to Face\u201d&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes tenho vontade de dormir at\u00e9 1\u00ba de janeiro de 1978. Andei t\u00e3o mas t\u00e3o paran\u00f3ico que parei de fumar e de beber. Fiquei inteiramente careta. A \u00faltima vez que fumei, me deu um nervoso tal que mudei de lugar todos os moveis do quarto e fiz uma puta faxina: eram cinco da matina quando terminei. O que eu diria dessa coisa que n\u00e3o d\u00e1 mais p\u00e9? Nada: em boca fechada n\u00e3o entra mosca. El Zwetsch mandou o \u201cV\u00edcio da Palavra\u201d, que distribu\u00ed por aqui, preciso escrever a ele, pero no hay saco, fiquei coma puta rejei\u00e7\u00e3o do livro- guardei um exemplar pra mim sem conseguir ler nada.<\/p>\n<p>Aristides Klafke passou por aqui, ficou uns dias aqui em casa, foi bom, uma cuca nova! acho que sou meio vampiro de cucas, depois se mandou pra Montevid\u00e9u pra ver dois amigos. S\u00e1bado chegou um cart\u00e3o dele: os dois amigos est\u00e3o presos h\u00e1 tr\u00eas meses, sem perspectiva de serem soltos&#8230;Soube pelo Julio que oc\u00ea teve no Rio, pro lan\u00e7amento do Torpalium. Ele vezenquando escreve cartas dement\u00edssimas, \u00f3timas, e eu fico pensando que podia ter sido diferente, se ele n\u00e3o fosse assim como \u00e9 e se eu n\u00e3o fosse assim como sou, est\u00e1s a ver que j\u00e1 parto de uma premissa imposs\u00edvel. Mas.<\/p>\n<p>Pifa voltou de Vit\u00f3ria pra pegar no meu p\u00e9. Vai ficar aqui at\u00e9 o fim deste m\u00eas. Transei um pouco, depois destransei, cansei, bodiei. Detesto a sensa\u00e7\u00e3o de \u201cter compromisso\u201d com algu\u00e9m. Mas a solid\u00e3o r\u00f3i, d\u00f3i, m\u00f3i, como diz a Lara de lemos. Estou tentando me organizar para ir embora: decidi (teoricamente, at\u00e9 agora) dar uma inje\u00e7\u00e3o de adrenalina na minha Caderneta de Poupan\u00e7a (por enquanto tenho 50 pilas!), mas sofro ataques cotidianos fort\u00edssimos de bundamolismo. Magliani voltou triste. Bem, Magliani \u00e9 triste, mas voltou mais ainda, dizendo que a barra do desemprego t\u00e1 pesada . Me cansei, desisti, se h\u00e1 sorte? eu n\u00e3o sei, nunca vi. Vontade de ver um filme de vampiro. Voc\u00ea tem a \u201cVaca e o Hipogrifo?\u201d Se n\u00e3o tem diz,que te mando. O Mario Quintana l\u00e1 pelas tantas diz que adora filme de vampiro. Quando eu tava autografando as \u201cPedras\u201d ele entrou na fila para apanhar um aut\u00f3grafo. Eu abanei o rabo de puro contentamento, e disse: \u201cO t\u00edtulo do livro \u00e9 de um poema seu\u201d. Ele agitou as asas de borboleta, fixou em mim os olhos de dinossauro e soltou: \u201cEu sei. Foi s\u00f3 porisso que comprei\u201d. Achei marioquintanamente \u00f3timo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem alguma receita pra gente mudar de vida? E pra tomar decis\u00f5es? E para mudar de personalidade? E para flagrar-se? E para pagar o karma em suaves presta\u00e7\u00f5es? E pra desorienta\u00e7\u00e3o aguda, voc\u00ea tem? Se tiver, me passa que eu preciso. Se n\u00e3o tiver, me escreve e me d\u00e1 um corte. Vontade, tamb\u00e9m, de tomar uma Brahma contigo e ouvir Carm\u00e9lia Alves. Anyway, um beijo. Segura as pontas da\u00ed que eu seguro as daqui. E n\u00e3o se preocupe: Deus estaria conosco at\u00e9 o pesco\u00e7o, se n\u00e3o estivesse na divis\u00e3o Melanie Klein.<br \/>\nTe gosto.<br \/>\nSempre. Caio<\/p>\n<p>RETORNO \u2013 1. A foto maior, de Caio, \u00e9 de autoria de Juarez Fonseca, meu maior incentivador no in\u00edcio da carreira, pessoa fundamental da agita\u00e7\u00e3o cultural no sul e do jornalismo cultural brasileiro 2. Mario Quintana: gosto de contar a hist\u00f3ria desse poema que fiz para ele e que cont\u00e9m forte dose de Caio, que trabalhava conosco a edi\u00e7\u00e3o do meu livro de estr\u00e9ia Outubro. O poema \u00e9 este: Olhem o ant\u00edpoda\/ olhem o animal da palavra\/ \u00c9 um dinossauro na cidade de vidro\/ borboleta branca na floresta queimada\/ Respeitem seu andar\/ e desconfiem com temor\/ de sua conversa fiada\/ Ele \u00e9 o flagelo do Senhor\/ e voc\u00eas n\u00e3o sabem\u201d. De que se trata? perguntou Caio. \u00c9 para o Mario Quintana, falei. Mas ent\u00e3o por que voc\u00ea n\u00e3o p\u00f5e o nome dele no t\u00edtulo,para ficar claro?. 3. Pedras \u00e9 Pedras de Calcut\u00e1; O ovo, O Ovo Apunhalado 3. Na borda da lauda, um recado a caneta: \u201cTeu anivers\u00e1rio passou: eu n\u00e3o esqueci: Parabems&#8221; (com o m imitando o s\u00edmbolo de escorpi\u00e3o).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Da solid\u00e3o \u00e0 epifania, esta carta que Caio escreveu para mim em data incerta, mas determinada (vejam por que logo no in\u00edcio) percorre as dificuldades que enfrent\u00e1vamos na \u00e9poca, como desemprego, projetos frustrados, amores que se esvaziam, relacionamentos que acabam, dor de cabe\u00e7a que n\u00e3o passa. 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