{"id":296,"date":"2009-12-10T12:36:06","date_gmt":"2009-12-10T14:36:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=296"},"modified":"2009-12-10T12:36:06","modified_gmt":"2009-12-10T14:36:06","slug":"dillinger-o-surrado-charme-do-psicopata","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dillinger-o-surrado-charme-do-psicopata","title":{"rendered":"DILLINGER, O SURRADO CHARME DO PSICOPATA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Privil\u00e9gio \u00e9 crime (\u201ctoda propriedade \u00e9 um roubo\u201d, segundo Proudhon). O objetivo do crime \u00e9 ter acesso ao privil\u00e9gio (\u201cmeu cart\u00e3o de cr\u00e9dito \u00e9 uma navalha\u201d, segundo Cazuza). Essa \u00e9 a fonte do carisma dos criminosos, herdeiros de Robin Hood, mesmo que roubem para si e n\u00e3o para distribuir, como fazia o lend\u00e1rio bandido. Quando privil\u00e9gio e seu acesso se tornam mais escassos \u2013 numa grande depress\u00e3o, por exemplo \u2013 a criminalidade \u00e9 uma das poucas possibilidades de se chegar ao topo (ou pelo menos, assim pensam os criminosos e seus admiradores).<\/p>\n<p>Quando o marginal pertence \u00e0s classes subalternas, n\u00e3o h\u00e1 novidade, faz parte da \u201cnatureza\u201d das coisas. Mas se, como John Dillinger, \u00e9 de classe m\u00e9dia e tem o sorriso cool dos gal\u00e3s de cinema, algo muda. Dillinger foi um dos primeiros ladr\u00f5es inventados pela mass media. Ele estava no miolo de uma briga de comunica\u00e7\u00e3o. O ascendente FBI e seu l\u00edder, Edgar Hoover, queriam ganhar a batalha na r\u00e1dio e nos jornais. Mas os jornais criaram seu avesso, o sujeito que fugia da pris\u00e3o, n\u00e3o roubava correntistas, apenas banqueiros e se movia r\u00e1pido como numa seq\u00fc\u00eancia cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Dillinger alimentou o mito do bandido charmoso, uma linhagem que vem de Clark Gable em Manhatan Serenade (anos 30) e passa por Bonnie and Clyde (anos 70), de Arthur Penn. Mas basta ver suas fotos para notar que o sorrisinho maroto contrastava com os olhos do psicopata facinoroso, o olhar sampacu dos indiferentes. Dillinger matou sete pessoas e \u00e9 celebrado como her\u00f3i no filme de Michael Man, Inimigos P\u00fablicos,que usa mal todos os clich\u00eas do g\u00eanero e ainda chupa um filme famoso para fazer seu grand finale.<\/p>\n<p>O filme famoso \u00e9 Isadora, de Karel Reisz, de 1968, com Vanessa Redgrave, em que a grande dan\u00e7arina, ao se enforcar na sua echarpe nas rodas de um irresist\u00edvel carro esportivo de luxo da marca Bugatti, morre ao som de Bye bye blackbird (m\u00fasica de 1926 de Ray Henderson, com letra de Mort Dixon). \u00c9 a mesma can\u00e7\u00e3o que encerra Inimigos P\u00fablicos, num close demorado no rosto parado da namorada de Dillinger. Como em Isadora, com o rosto em p\u00e2nico de Vanessa embalado pelas notas de Blackbird (traduzido por gra\u00fana). Os cineastas acham que n\u00f3s n\u00e3o lembramos dessas coisas? Ou sabem disso e nem d\u00e3o bola?<\/p>\n<p>Dillinger \u00e9 apresentado por um fraco Johnny Depp como o mach\u00e3o sem igual, l\u00edder e dur\u00e3o, que conquista a mo\u00e7a na base da porrada, colocando-a contra a parede e socando quem se atravessa no caminho do seu desejo. O filme justifica a viol\u00eancia dizendo que ele perdeu a m\u00e3e aos tr\u00eas anos de idade e n\u00e3o tinha acesso ao que mais queria, dinheiro, poder e mulher. Isso n\u00e3o justifica nada. O cara era bandido e n\u00e3o merece o trato desse cineminha comercial no pior sentido, o de n\u00e3o arriscar nada e assim tentar atrair a simpatia do p\u00fablico.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que deu para a bola com esses assassinos frios apresentados como seres humanos que merecem nossa considera\u00e7\u00e3o. O truque \u00e9 sempre mostrar alguma defici\u00eancia desse her\u00f3i fajuto, para humaniz\u00e1-lo. O pistoleiro que n\u00e3o sabe nadar (Robert Redford em Sundance Kid), que \u00e9 manco (Warren Beatty em Bonnie and Clyde) ou \u00e9 simplesmente pat\u00e9tico e bronco como o velho James Cagney s\u00e3o maneiras de dizer como s\u00e3o fofos. Merecem cadeia eterna, por mais que tenham sofrido injusti\u00e7as ou tenham levado surras de policiais e pol\u00edticos t\u00e3o bandidos quanto eles. O ant\u00eddoto do mal (o poder) n\u00e3o \u00e9 o charme dos robin hoods, os que fazem justi\u00e7a por conta pr\u00f3pria, mas a pr\u00f3pria Justi\u00e7a, quando funciona.<\/p>\n<p>Mas seria pedir demais da ind\u00fastria de entretenimento, que enterra milh\u00f5es numa porcaria e precisa da simpatia da cr\u00edtica oficial. Eu acho um fiasco. Um milh\u00e3o de vezes Paul Newman em Cool Hand Luke, num personagem que n\u00e3o era assassino, tendo sofrido mais do que dez Dillingers. Tribunais, cadeias, investiga\u00e7\u00f5es: \u00e9 preciso que haja \u00e9tica na sociedade para julgar e manter o perigo \u00e0 dist\u00e2ncia. Mas sabemos em que n\u00edvel estamos. No meio de uma f\u00e1brica de fac\u00ednoras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o marginal pertence \u00e0s classes subalternas, n\u00e3o h\u00e1 novidade, faz parte da \u201cnatureza\u201d das coisas. Mas se, como John Dillinger, \u00e9 de classe m\u00e9dia e tem o sorriso cool dos gal\u00e3s de cinema, algo muda. Dillinger foi um dos primeiros ladr\u00f5es inventados pela mass media. Ele estava no miolo de uma briga de comunica\u00e7\u00e3o. O ascendente FBI e seu l\u00edder, Edgar Hoover, queriam ganhar a batalha na r\u00e1dio e nos jornais. 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