{"id":2964,"date":"2011-10-30T13:30:36","date_gmt":"2011-10-30T15:30:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2964"},"modified":"2011-10-30T13:30:36","modified_gmt":"2011-10-30T15:30:36","slug":"na-carretera","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/na-carretera","title":{"rendered":"NA CARRETERA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Espanholismos fazem parte do vocabul\u00e1rio da fronteira ga\u00facha. A estrada principal \u00e9 a carretera, que na minha inf\u00e2ncia era de barro, pelo menos at\u00e9 500 km ao norte, Santa Maria. Na lama tamb\u00e9m fiz algumas viagens com meu pai, como a que levou dois dias para chegarmos a S\u00e3o Borja, trajeto que se faz hoje de Uruguaiana em poucas horas. Chovia demais e fizemos a volta por uma s\u00e9rie de pequenas cidades das quais n\u00e3o lembro o nome \u2013 e recompor o roteiro no Google Maps talvez n\u00e3o ajude a recuperar aquele caminho sinuoso em que acompanhei a concentrada presen\u00e7a paterna nos seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Lembro que a chuva nos obrigou a parar no meio do caminho, num hotel do mais profundo interior, em que gostei demais do cheiro de casa velha e os bon\u00edssimos edredons seculares que me protegeram do frio. E a inesquec\u00edvel Pens\u00e3o da Si\u00e1 Mulata, onde me refiz da viagem com pratos populares capitaneados por atencioso dono e chef, que por ser negro destoava dos empreendedores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pior foi a viagem at\u00e9 Porto Alegre em que compartilhei a dureza do jipe Candango, op\u00e7\u00e3o do pai nacionalista, que tinha cansado de Fords e Austins e resolvera abra\u00e7ar a causa da tra\u00e7\u00e3o das quatro rodas do ve\u00edculo feito a martelo sem design convincente, mas que se tornou a marca registrada da sua passagem pela cidade rumo aos peixes das redondezas. Em cima do candango ele punha o barco de fibra de vidro com motor de cinco cavalos, ideal para navegar em arroios cheios de surubis e dourados. Claro que havia tamb\u00e9m os cascudos e grumat\u00e3s, estes com gosto de barro, mas o objetivo era o chamado peixe nobre. Rodelas de dourado eram fritos na beira do rio e disput\u00e1vamos com moscas varejeiras o privil\u00e9gio de abocanhar o quitute acompanhado de cerveja gelad\u00edssima na caixa de isopor.<\/p>\n<p>Gosto de contar a hist\u00f3ria do meu irm\u00e3o que herdou o Candango e se aventurou at\u00e9 Florian\u00f3polis num dia chuvoso, em que existia apenas uma faixa central transit\u00e1vel, j\u00e1 que as margens da carretera estavam tomadas pelo barro. Um fusqueta invasivo tentava ultrapass\u00e1-lo em v\u00e3o, pois era imposs\u00edvel chafurdar no loda\u00e7al s\u00f3 para deixar passar o indigitado. Ao perder a paci\u00eancia, meu irm\u00e3o puxou o fac\u00e3o de tr\u00eas listras (assim mesmo, com erre no meio, como se diz por l\u00e1) debaixo do banco e sacudiu no ar para deixar claro suas m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es contra o ass\u00e9dio. O fusca sumiu no horizonte e s\u00f3 reapareceu timidamente logo depois, quando a estrada melhorou de humor. Meu irm\u00e3o ent\u00e3o sacou de novo a peixeira e com ela fez sinal para que passasse, o que foi obedecido de maneira ressabiada, j\u00e1 que o automovelzinho resfolegava bem no cantinho do acostamento, como um cachorro com medo de surra.<\/p>\n<p>Mas nada se compara a uma epop\u00e9ia memor\u00e1vel que fiz com minha irm\u00e3 e cunhado, este um alem\u00e3o gigantesco e apaixonado pelo pior carro do mundo para enfrentar o barro da carretera: a kombi. Foi quando aprendi o que eram correntes de pneus. Eles p\u00f4s o capote de ferro na borracha para evitar atolamentos, mas como n\u00e3o cabia na tala, j\u00e1 que era de outro tamanho, a toda hora escapava. V\u00e1 ver a corrente, me dizia ele. E eu n\u00e3o sabia do que se tratava. Foi quando ficou consolidada minha imagem anti-pragm\u00e1tica, que me persegue injustamente at\u00e9 hoje, j\u00e1 que provei minha capacidade de dar tr\u00eas marteladas seguidas sem bater no dedo.<\/p>\n<p>Levamos dias para cruzar o Rio Grande do Sul at\u00e9 chegarmos no Norte do Paran\u00e1, onde ficamos um dia inteiro esperando que o carro fosse consertado. Ao nos aproximar de Goio Er\u00ea, perto de Campo Mour\u00e3o, cruzando a mata num lugar que hoje s\u00f3 tem pasto, um veado cruzou a estrada. Ao que o gringo imediatamente parou para puxar uma pistola. Mas era s\u00f3 pose de ca\u00e7ador amador. O bicho, assim como surgiu no clar\u00e3o do farol, sumiu.<\/p>\n<p>Eram assim as hist\u00f3rias e criaturas do barro e da carretera, pertencentes ao Mundo Perdido, o Brasilz\u00e3o profundo, onde fui criado, gra\u00e7as ao Pai Eterno que teve miseric\u00f3rdia de mim e n\u00e3o permitiu que eu crescesse nos dias de hoje, quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada a n\u00e3o ser a tela do micro onde narramos nossa desventura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Espanholismos fazem parte do vocabul\u00e1rio da fronteira ga\u00facha. A estrada principal \u00e9 a carretera, que na minha inf\u00e2ncia era de barro, pelo menos at\u00e9 500 km ao norte, Santa Maria. 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