{"id":2976,"date":"2011-10-30T13:37:11","date_gmt":"2011-10-30T15:37:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2976"},"modified":"2011-10-30T13:37:11","modified_gmt":"2011-10-30T15:37:11","slug":"mesada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mesada","title":{"rendered":"MESADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Algumas palavras fazem parte do c\u00e2none da mem\u00f3ria. Desgranida, por exemplo, parecida com o Desgracida, que o Dalton Trevisan escolheu para titulo de seu novo livro, um dos ganhadores do Jabuti 2011, \u00e9 uma delas. \u00c9 um xingamento disfar\u00e7ado, para evitar a forma mais expl\u00edcita e rude, o de desgra\u00e7ada. \u00c9 a maneira de sufocar um grito e transform\u00e1-la numa cal\u00fania, tirar seu perfil de alto falante e instaurar o sussurro amargo.<\/p>\n<p>Outra palavra importante e que tamb\u00e9m sofria de uma distor\u00e7\u00e3o do sentido era mesada. Na nossa casa toda semana era distribu\u00edda, mas a institui\u00e7\u00e3o, na origem, referia-se ao que era fornecido mensalmente. Melhor par n\u00f3s que ganh\u00e1vamos do pai todo domingo o que deveria ser dado s\u00f3 a cada 30 dias.<\/p>\n<p>Essa mesada semanal contribu\u00eda para que tiv\u00e9ssemos uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com o dinheiro. Era s\u00f3 aquele montante que disp\u00fanhamos para despesas fundamentais, como ir ao cinema, comprar revista em quadrinhos, refrigerante e sorvete, coisas sem as quais era imposs\u00edvel viver. Como a infla\u00e7\u00e3o era quase inexistente naquela \u00e9poca, ent\u00e3o s\u00f3 de vez em quando havia um aumento e n\u00e3o dependia de reivindica\u00e7\u00e3o, pois obedec\u00edamos aos crit\u00e9rios absolutistas paternos.<\/p>\n<p>Era uma monarquia que com o avan\u00e7o da idade dos rebentos virou parlamentarista, coisa que deu certo no Brasil por um bom tempo. Mudava-se o total quando os mais velhos dispunham de s\u00f3lidas provas de que a mesada era utilizado para algo mais nobre como um curso t\u00e9cnico a dist\u00e2ncia ou fazia parte da economia para futura e importante viagem escolar. Se o pai mexia no topo toda a base da pir\u00e2mide acompanhava a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da mesada, t\u00ednhamos a caderneta de poupan\u00e7a para nos treinar no trato dif\u00edcil com o dinheiro que n\u00e3o perdia o valor a cada minuto, como aconteceu depois,at\u00e9 virar p\u00f3 e hoje ser apenas lembran\u00e7a, j\u00e1 que ao existem mais moedas nacionais, apenas unidades monet\u00e1rias a servi\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o e da industria financeira. N\u00e3o h\u00e1 mais pesos, pesetas, escudos, francos, marcos, cruzeiros e sim euros ou reais,que s\u00e3o moedas artificiais. A caderneta de poupan\u00e7a era uma rocha \u00e0 beira mar: indestrut\u00edvel e rendia razoavelmente. Bastava depositar ali toda semana ou m\u00eas e esperar uma vida para recolher os frutos.<\/p>\n<p>Quando fundamos o Esporte Guarani, abrimos uma caderneta na Caixa Econ\u00f4mica Federal. A caderneta era da cor do ouro, que significava o valor do dinheiro s\u00f3lido, e ostentava aquela caligrafia onde banc\u00e1rios austeros e atenciosos registravam os dep\u00f3sitos. Retiramos alguns meses depois para comprar camisetas e bolas e assim enfrentar os v\u00e1rios advers\u00e1rios existentes, times que se formaram em outros bairros. Arrast\u00e1vamos nossas torcidas para conquistar o respeito por meio da for\u00e7a bruta e do talento.<\/p>\n<p>Mas esse era um outro tempo,quando o dinheiro falso desgranido n\u00e3o tinha eliminado a rela\u00e7\u00e3o duradoura entre o objeto \u2013 a vida \u2013 e sua representa\u00e7\u00e3o \u2013 as c\u00e9dulas e moedas. Havia usura e distor\u00e7\u00f5es. Mas o governo colocava para a popula\u00e7\u00e3o, especialmente as crian\u00e7as, as institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias a servi\u00e7o da forma\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. \u00c9ramos goleiros, centro-avantes,primeiros da aula, poupadores. Digo isso n\u00e3o s\u00f3 para lembrar, mas para provar que nem sempre vivemos no pesadelo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Algumas palavras fazem parte do c\u00e2none da mem\u00f3ria. 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