{"id":298,"date":"2009-12-10T12:36:49","date_gmt":"2009-12-10T14:36:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=298"},"modified":"2009-12-10T12:36:49","modified_gmt":"2009-12-10T14:36:49","slug":"woody-allen-filtro-de-areia-em-barcelona","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/woody-allen-filtro-de-areia-em-barcelona","title":{"rendered":"WOODY ALLEN: FILTRO DE AREIA EM BARCELONA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Woody Allen n\u00e3o filma roteiros, ele escreve filmes. \u00c9 um novelista de costumes, que usa a c\u00e2mara como teclado. Conta uma hist\u00f3ria, baseado na sua paix\u00e3o: o cinema cl\u00e1ssico dos Estados Unidos, feito em sua maioria por europeus emigrados, que abordavam a elite para o encanto das massas sob a depress\u00e3o econ\u00f4mica dos anos 30. Seu tema s\u00e3o os conflitos pessoais de uma coletividade intelectualizada e rica, um universo que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel facilmente, a n\u00e3o ser que voc\u00ea fa\u00e7a parte dele. Talvez nem exista como \u00e9 mostrado. Mas \u00e9 veross\u00edmel e isso basta.<\/p>\n<p>Em Vicky Cristina Barcelona, de 2008, ele apresenta um roteiro tur\u00edstico de ver\u00e3o da Espanha de consumo, quente, rom\u00e2ntica, sedutora, franca, an\u00e1rquica, para a pseudo vanguarda ainda puritana da Am\u00e9rica. O problema n\u00e3o s\u00e3o os clich\u00eas, mas o que voc\u00ea faz com eles. Allen comp\u00f5e sua trama com uma s\u00e9rie de lugares comuns, como a m\u00e9nage a trois estimulada pelo garanh\u00e3o latino, a insatisfa\u00e7\u00e3o das mulheres casadas em busca de aventuras, a arte como insumo para a intelectualidade vazia e superficial ou o talento perdido e desperdi\u00e7ado pelo excesso de narcisismo.<\/p>\n<p>Nas m\u00e3os de outro diretor, seria um a sucess\u00e3o de clipes e n\u00e3o uma novela de costumes do s\u00e9culo 21. A elite encarna os conflitos universais porque pode, tem dinheiro e tempo para cuidar disso, n\u00e3o est\u00e1 envolvida absurdamente na luta pela sobreviv\u00eancia. Sobra energia para redirecionar rumos, arriscar relacionamentos, voltar atr\u00e1s, subir num avi\u00e3o na madrugada em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido s\u00f3 para ver o que vai dar. \u00c9 como um conto de fadas p\u00f3s-moderno, em que os sonhos s\u00e3o provados na realidade e acabam exaurindo os protagonistas pelo mesmo tipo de vazio que faz parte da civiliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que essa pretens\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 cercada de pompa.<\/p>\n<p>Por filmar como escreve, Allen proporciona um lazer bizarro, pois no fundo ele trata do sofrimento, mesmo que aparentemente tudo conflua para o coquetismo e a risada inteligente. A intelig\u00eancia em Woody Allen n\u00e3o \u00e9 um arabesco, um fricote, uma ostenta\u00e7\u00e3o, mas sua den\u00fancia. Sua profundidade vem do distanciamento que essa abordagem provoca. O perigo \u00e9 que, ao enxergar o que Allen critica, o espectador possa confundi-lo com seu objeto narrativo. Parece que Woody Allen est\u00e1 na balada, quando permanece na sua tradicional vis\u00e3o corrosiva dos fatos. Uma corros\u00e3o que, em Barcelona, \u00e9 representada pelo filtro fosco e arenoso que d\u00e1 o tom de todo o filme, como se o vento do deserto tivesse rec\u00e9m soprado sobre a apar\u00eancia novaiorquina dos personagens envolvidos com as tenta\u00e7\u00f5es hisp\u00e2nicas.<\/p>\n<p>O filtro \u00e9 sua forma de ambientar o filme num passado inexistente, como se ele quisesse ser realmente visto daqui a cem anos. Quando houver nostalgia da nossa \u00e9poca, Allen ser\u00e1 (imagina ele) o favorito cult que captou como ningu\u00e9m a humanidade envolvida nas suas querelas de sempre. Talvez nem lembrar\u00e3o que Allen, como queria Borges, inventou seus predecessores e que seu cinema faz parte das obras maravilhosas do in\u00edcio, quando os filmes come\u00e7aram a falar. Filmes da sua inf\u00e2ncia, que jamais abandonou.<\/p>\n<p>Aqui, Barcelona \u00e9 o Rio, destino final das aventuras que empurravam os personagens para grandes enrascadas e s\u00f3 fugindo para um lugar quente para resolv\u00ea-los. \u00c9 como se Greta Garbo, Clark Gable, Gary Cooper, entre tantos outros, viajassem para o sol da Espanha no in\u00edcio e n\u00e3o no fim do filme. L\u00e1, eles desfrutam do tesouro acumulado, mas a surpresa \u00e9 que o para\u00edso tamb\u00e9m aperta as tenazes nas vidas humanas jamais saciadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Woody Allen n\u00e3o filma roteiros, ele escreve filmes. \u00c9 um novelista de costumes, que usa a c\u00e2mara como teclado. Conta uma hist\u00f3ria, baseado na sua paix\u00e3o: o cinema cl\u00e1ssico dos Estados Unidos, feito em sua maioria por europeus emigrados, que abordavam a elite para o encanto das massas sob a depress\u00e3o econ\u00f4mica dos anos 30. Seu tema s\u00e3o os conflitos pessoais de uma coletividade intelectualizada e rica, um universo que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel facilmente, a n\u00e3o ser que voc\u00ea fa\u00e7a parte dele. Talvez nem exista como \u00e9 mostrado. 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