{"id":300,"date":"2009-12-10T12:37:44","date_gmt":"2009-12-10T14:37:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=300"},"modified":"2009-12-10T12:37:44","modified_gmt":"2009-12-10T14:37:44","slug":"o-heroismo-em-%e2%80%9cos-falsarios%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-heroismo-em-%e2%80%9cos-falsarios%e2%80%9d","title":{"rendered":"O HEROISMO EM \u201cOS FALS\u00c1RIOS\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Her\u00f3i \u00e9 aquele que abre m\u00e3o do hero\u00edsmo, mas n\u00e3o da sua humanidade. Uma ess\u00eancia indestrut\u00edvel apesar do horror e que, no final, contrariando as apar\u00eancias e as evid\u00eancias, o devolve \u00e0 a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e \u00e9tica que o redime. O her\u00f3i n\u00e3o aparece e compartilha sua gl\u00f3ria em segredo com algu\u00e9m muito pr\u00f3ximo. Vimos isso no cl\u00e1ssico Casablanca, em que Ricky \u00e9 o mercen\u00e1rio sem cora\u00e7\u00e3o que acaba fazendo o gesto supremo de abrir m\u00e3o do seu grande amor em favor de algu\u00e9m que ele n\u00e3o conhecia, mas que merecia escapar. Vemos isso no artista judeu de <em>Os Fals\u00e1rios<\/em>, do austr\u00edaco Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim. Salomon Sorowitsch (ou Sally, interpretado por Karl Markovics ) \u00e9 convocado pelos nazistas, que o fizeram prisioneiro, para falsificar libras e d\u00f3lares e assim ajudar a financiar a guerra dos alem\u00e3es, al\u00e9m de tentar desestabilizar a economia dos aliados. Ele se submete para sobreviver e com isso ajuda todos os seus companheiros, que compartilham da confec\u00e7\u00e3o das notas falsas. Seu oposto \u00e9 Adolfo Burger (August Diehl) personagem inspirado no autor do livro, de onde foi tirado o roteiro e que virou consultor das filmagens.<\/p>\n<p>Burger \u00e9 o prot\u00f3tipo do her\u00f3i consciente e expl\u00edcito, reconhecido como tal, que boicota a confec\u00e7\u00e3o do dinheiro por quest\u00e3o de princ\u00edpios. N\u00e3o se submete, mas isso amea\u00e7a todo o projeto e em conseq\u00fc\u00eancia a vida dos companheiros. Quem \u00e9 o her\u00f3i? Burger, que com sua a\u00e7\u00e3o acabou prejudicando os nazistas, que n\u00e3o conseguiram inundar de d\u00f3lares a economia de guerra? Ou Sally, que conseguiu chegar aos objetivos do programa e assim manteve todos vivos? Para quem toma conhecimento da hist\u00f3ria no final, quando os aliados chegaram, sem d\u00favida que \u00e9 Burger. Sally se afasta e vai amargar sua solid\u00e3o em Monte Carlo.<\/p>\n<p>O dinheiro falso que leva consigo \u00e9 arriscado, ou melhor, jogado fora integralmente na roleta. Assim ele recupera sua humanidade perdida, depois de anos sob o jugo dos carrascos e tendo que fazer o jogo deles. Lembra at\u00e9 o pequeno grande poema de Manuel Bandeira, que aponta para a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o do irremedi\u00e1vel: dan\u00e7ar um tango argentino. \u00c9 o que Sally faz, com uma prostituta que se encanta com seu desprendimento, depois de ser atra\u00edda pelo dinheiro falso. Sally \u00e9 um artista, que no lugar de fazer arte para ganhar dinheiro, preferiu fazer dinheiro diretamente.<\/p>\n<p>Essa era sua ocupa\u00e7\u00e3o antes da guerra e por isso foi preso. O mesmo policial que o prendeu, Friedrich Herzog (Devid Striesow), acaba localizando o especialista entre os campos de concentra\u00e7\u00e3o e o convoca para o projeto. Herzog \u00e9 o retrato da indiferen\u00e7a criminosa, a mesma que temos no Brasil, em que milh\u00f5es de pessoas vivem sob o terror, dentro e fora das pris\u00f5es, enquanto perdemos tempo com futilidades. A esposa do carrasco, que vive numa casa enorme e confort\u00e1vel com o marido e os tr\u00eas filhos, \u00e9 um po\u00e7o rid\u00edculo de preconceitos. A carnificina n\u00e3o a atinge, ela que vive cercada pelo luxo e mergulhada na aliena\u00e7\u00e3o e na inconsci\u00eancia. Seu cinismo \u00e9 revelador e atual\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u201cOs fals\u00e1rios\u201d foi celebrado como um filme inovador sobre a Segunda Guerra, pois mostra um tema nunca explorado at\u00e9 agora e n\u00e3o perde tempo com crueldades in\u00fateis. A brutalidade \u00e9 humana e chega no seu grau mais intenso no nazismo. Mas faz parte de todos. Os pr\u00f3prios prisioneiros, que n\u00e3o experimentaram as regalias do grupo de falsificadores, queria mat\u00e1-los, achando que eram nazistas. O que os salvou foram os bra\u00e7os marcados por todos os que passaram por Auschwitz. Pela primeira, vez, aqueles n\u00fameros sinistros serviram para salvar vidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 her\u00f3is, dir\u00e3o. Certamente que h\u00e1. Mas o hero\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 a cerim\u00f4nia com fanfarras. \u00c9 antes a semente imortal da criatura que se recusa a passar impunemente pela terra. Deixa sua marca no cora\u00e7\u00e3o dos contempor\u00e2neos, mesmo que esses nem se d\u00eaem conta do bem que foi praticado em seus nomes.<\/p>\n<p>Como Ricky\/Bogart, que explica para a amada os motivos da sua ren\u00fancia e por isso emociona, pela grandeza do gesto, assim tamb\u00e9m o personagem interpretado por John Wayne em &#8220;O Homem que matou o fac\u00ednora&#8221;, de John Ford, que mata o vil\u00e3o, mas deixa o cr\u00e9dito para o seu amigo. S\u00f3 quando ele morre \u00e9 que emerge o her\u00f3i oculto com toda a sua integridade. O heroismo de Sally, como o de Bogart e Wayne, pauta-se pelo exemplo, n\u00e3o pelas medalhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Her\u00f3i \u00e9 aquele que abre m\u00e3o do hero\u00edsmo, mas n\u00e3o da sua humanidade. 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