{"id":304,"date":"2009-12-10T12:40:03","date_gmt":"2009-12-10T14:40:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=304"},"modified":"2009-12-10T12:40:03","modified_gmt":"2009-12-10T14:40:03","slug":"o-perdao-em-%e2%80%9ca-partida%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-perdao-em-%e2%80%9ca-partida%e2%80%9d","title":{"rendered":"O PERD\u00c3O EM \u201cA PARTIDA\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPara que serve o perd\u00e3o em A Partida (Okuribito), de Yojiro Takita, vencedor de melhor filme estrangeiro no Oscar 2009? Vamos adiar a resposta com outra pergunta: por que este \u00e9 um filme sobre o perd\u00e3o, se a cr\u00edtica quis reduzi-lo a uma indecis\u00e3o entre com\u00e9dia e drama, achando que o diretor se perdeu no meio do caminho e que teria feito uma obra \u201coscariz\u00e1vel\u201d, ou seja, na medida para ganhar o pr\u00eamio, j\u00e1 que se entregou ao lugar comum e \u00e0 inconsist\u00eancia da trama?<\/p>\n<p>\u00c9 porque, n\u00e3o canso de dizer, a cr\u00edtica n\u00e3o enxerga o que \u00e9 mostrado na tela, preferindo ficar acima do trabalho alheio e desconfiando de suas inten\u00e7\u00f5es, principalmente se for um vencedor. E o que \u00e9 mostrado na tela \u00e9 uma sucess\u00e3o de cenas sobre o perd\u00e3o numa hist\u00f3ria que tem o perd\u00e3o como foco principal. Veja quais s\u00e3o essas cenas: o rapaz que se veste de mulher \u00e9 perdoado pelo pai que o condenava em vida; os parentes pedem perd\u00e3o para a vi\u00fava que trabalhou at\u00e9 o fim porque queria continuar mantendo sua tradicional casa de banhos; o vi\u00favo pede perd\u00e3o aos profissionais que encomendam o corpo da esposa para os funerais porque tinha reclamado do atraso deles, mas acabou vendo a excel\u00eancia do of\u00edcio; o rapaz que pede perd\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia da namorada, morta no acidente de moto em que ele estava pilotando. E qual \u00e9 o foco principal, o caso que segura a narrativa?<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente uma hist\u00f3ria de perd\u00e3o. O tocador de violoncelo que n\u00e3o perdoa o pai por t\u00ea-lo abandonado aos seis anos, acaba tendo de encomendar o corpo do velho quando ele morre esquecido numa vila de pescadores. A raiva acumulada por toda a vida \u00e9 lavada pelo choro na magn\u00edfica cena final, quando temos um momento antol\u00f3gico da S\u00e9tima Arte. Nesse desenlace, vemos que, apesar da orfandade, da indiferen\u00e7a, dos erros, do \u00f3dio, tudo acaba confluindo para a manuten\u00e7\u00e3o de uma linhagem: a mensagem repassada de pai para filho, por meio de uma pedra que representa a realidade emocional do emissor. Esse \u00e9 o sustento de um povo que, mesmo amea\u00e7ado pelas transforma\u00e7\u00f5es da modernidade, mant\u00e9m-se coeso nos seus costumes e tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim chegamos \u00e0 resposta da primeira pergunta: o perd\u00e3o em A Partida serve para que as pessoas do Jap\u00e3o continuem com seu sentimento de perten\u00e7a a uma cultura, que gira em torno da fam\u00edlia, da mem\u00f3ria e do sangue. Vemos isso por meio do ritual de encomenda dos corpos, um servi\u00e7o especializado a cargo de uma pequena empresa, que trabalha para as funer\u00e1rias. O fundador da ag\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m um vi\u00favo que come\u00e7ou no ramo exatamente quando a esposa morreu. Ele \u00e9 o mestre que treina o aprendiz num of\u00edcio mal visto socialmente, mas que acaba se impondo na comunidade, pois preserva a dignidade de quem foi derrotado pela morte.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia da encomenda dos corpos \u00e9 uma maneira de devolver a pessoa falecida ao conv\u00edvio dos seus familiares, dos quais estava apartada em vida. As brigas que dividiam as casas enfim desaparecem quando a limpeza, a maquiagem e o trato delicado revelam a verdadeira identidade da pessoa morta, a imagem projetada, a partir do enterro, na mem\u00f3ria justificada pelo amor. \u00c9 o amor, tornado expl\u00edcito no momento terminal, entre pais e filhos, av\u00f3s e netas, marido e mulher, que mant\u00e9m indissol\u00favel o la\u00e7o familiar.<\/p>\n<p>\u00c9 muita coisa para um filme s\u00f3, nesta pequena j\u00f3ia do cinema contempor\u00e2neo. A Partida merece ser assistido pelo que ele nos traz de grandeza quando nossa precariedade e escassez encontram enfim seu verdadeiro destino, que \u00e9 essa passagem obrigat\u00f3ria para o Outro Lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tocador de violoncelo que n\u00e3o perdoa o pai por t\u00ea-lo abandonado aos seis anos, acaba tendo de encomendar o corpo do velho quando ele morre esquecido numa vila de pescadores. A raiva acumulada por toda a vida \u00e9 lavada pelo choro na magn\u00edfica cena final, quando temos um momento antol\u00f3gico da S\u00e9tima Arte. 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