{"id":306,"date":"2009-12-10T12:41:10","date_gmt":"2009-12-10T14:41:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=306"},"modified":"2009-12-10T12:41:10","modified_gmt":"2009-12-10T14:41:10","slug":"sean-penn-em-milk","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sean-penn-em-milk","title":{"rendered":"SEAN PENN EM MILK"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rias cr\u00edticas sobre Milk, de Gus Van Sant, das mais tradicionais \u00e0s mais vanguardistas, mas prefiro abordar o filme como sendo uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de Sean Penn. N\u00e3o se trata de um trabalho que retrata suas posi\u00e7\u00f5es progressistas. N\u00e3o \u00e9 o fato de Sean ser a favor das minorias e da luta pela democracia que faz dele um grande ator. A arte n\u00e3o se vincula \u00e0 percep\u00e7\u00e3o correta ou errada que o artista tem do mundo e da vida, mas sim ao seu talento e o que faz com esse dom. E o que ele faz neste filme, sobre o principal ativista gay americano nos anos 70, \u00e9 um arraso.<\/p>\n<p>Sim, claro, ganhou o Oscar. N\u00e3o \u00e9 esse o par\u00e2metro. Interpreta\u00e7\u00f5es p\u00edfias j\u00e1 venceram na noite de gala. O que se destaca \u00e9 que ele desbastou o personagem de todo o entorno a que estamos acostumados a ver nele e emergiu com uma criatura oposta ao patrim\u00f4nio conhecido do seu carisma. Aquela testosterona vencida que enruga testa e cria o ar hostil e de enfado dos her\u00f3is que interpretou, de 21 Gramas a Menino com Lobos, aqui \u00e9 substitu\u00eddo por algo mais complexo, fundado n\u00e3o na autosufici\u00eancia do rosto, mas na precariedade do gesto estudado, segunda natureza de uma espontaneidade plantada, que bem poderia ser confundida com um acervo fake de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Representar o homossexual \u00e9 uma trag\u00e9dia na ind\u00fastria audiovisual de \u00faltima categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean n\u00e3o representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As express\u00f5es do personagem s\u00e3o o resultado da desconstru\u00e7\u00e3o facial a que se submeteu o ator. Os bra\u00e7os que se movem nos com\u00edcios buscam a espontaneidade contundente, pois era preciso criar um novo estilo de fazer pol\u00edtica, que fosse o porta-voz de um movimento de massa emergente.<\/p>\n<p>Sean n\u00e3o sob no palanque sabendo tudo. Ele procura, e encontra, o desenho dessa personalidade sob fogo cerrado, e cria a ilus\u00e3o de que est\u00e1 puxando (quando no fundo \u00e9 empurrado) pelos que o ap\u00f3iam e aplaudem. O ator mostra como o personagem, a partir de sucessivas derrotas, foi-se se colocando na mar\u00e9 alta de uma insurg\u00eancia que tomara conta das ruas e explodia na cara de uma sociedade tradicional, que procurava se defender invocando princ\u00edpios da tradi\u00e7\u00e3o e da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Convencer o seu p\u00fablico de que era preciso sair do arm\u00e1rio, conquistar o voto dos indecisos, peitar a concorr\u00eancia fundamentalista, abrir caminho na burocracia pol\u00edtica, negociar sem fazer concess\u00f5es (como acontecera com o advogado rico e dono de uma revista gay), tudo conflui para o corpo do personagem exposto na tela. Isso levaria um ator menos competente a se entregar ao exagero, a atrapalhar, com a emo\u00e7\u00e3o, a coreografia necess\u00e1ria para trafegar pelas cenas. Sean mant\u00e9m sob jugo pesado a criatura que inventou, libertando-a quando necess\u00e1rio, fazendo assim jus \u00e0 imagem p\u00fablica do homossexual que n\u00e3o precisava se travestir para assumir.<\/p>\n<p>Milk coloca terno para irromper na pol\u00edtica, antro de retr\u00f3grados seculares, faz piada sobre a imagem pronta armada pelos preconceitos, duela com a decad\u00eancia f\u00edsica nos seus embates do amor (que des\u00e1guam sempre em suic\u00eddio) e isso \u00e9 constru\u00eddo por Sean como um concerto de c\u00e2mara em atividade num camarote de \u00f3pera: o minimalismo \u00e9 o espectador do grande drama, mas a l\u00e1grima escancarada do bel canto \u00e9 a mesma do sofrimento contido, perplexo diante do desenlace iminente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 com caricatura que se constr\u00f3i uma grande interpreta\u00e7\u00e3o, mas a performance genial inclui tudo, inclusive a caricatura. Sean n\u00e3o abre m\u00e3o de nada, porque tem o dom\u00ednio pleno do seu of\u00edcio. Venceu a parada n\u00e3o porque seja obrigat\u00f3rio ficar ao lado das v\u00edtimas da persegui\u00e7\u00e3o, mas porque toda arte que atinge o apogeu se imp\u00f5e como um s\u00fabito temporal que varre o mundo no cair da tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Representar o homossexual \u00e9 uma trag\u00e9dia na ind\u00fastria audiovisual de \u00faltima categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean n\u00e3o representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As express\u00f5es do personagem s\u00e3o o resultado da desconstru\u00e7\u00e3o facial a que se submeteu o ator. 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