{"id":31,"date":"2005-05-13T21:22:46","date_gmt":"2005-05-13T23:22:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/darcy-ribeiro-luta-corporal"},"modified":"2009-12-20T19:13:01","modified_gmt":"2009-12-20T21:13:01","slug":"darcy-ribeiro-luta-corporal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/darcy-ribeiro-luta-corporal","title":{"rendered":"DARCY RIBEIRO: LUTA CORPORAL"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/icons\/darcy.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>O futuro cacique de uma tribo da Amaz\u00f4nia sai menino de sua aldeia e vai para o semin\u00e1rio, onde o contato com os padres lhe tira a fibra de guerreiro: fraco e contradit\u00f3rio, ele jamais poder\u00e1 ser o tuxana da tribo mairum, t\u00e3o esperado por seus irm\u00e3os, que o viam como uma esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o do exterm\u00ednio. Essa trag\u00e9dia &#8211; como procura demonstrar o antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro neste seu primeiro romance &#8211; n\u00e3o seria um acidente provocado pelo erro da pol\u00edtica colonialista, mas sim o resultado natural da coloniza\u00e7\u00e3o, que procura apenas tirar os \u00edndios do caminho. As provas da viol\u00eancia contra o \u00edndio s\u00e3o minuciosamente levantadas e analisadas pelo autor, num relato profundo e apaixonado que faz do livro um dos romances brasileiros mais importantes dos \u00faltimos anos, tanto pela urg\u00eancia do tema como pelo enfoque: o drama mairum \u00e9 visto de dentro, por algu\u00e9m que mostra a verdadeira natureza dos \u00edndios e a dimens\u00e3o real da sua cultural. A filosofia dos mairuns \u00e9 visceral e fisiol\u00f3gica, e sua sabedoria n\u00e3o vem da mortifica\u00e7\u00e3o, mas da glorifica\u00e7\u00e3o do corpo e da no\u00e7\u00e3o do seu significado dentro do universo. Os costumes ind\u00edgenas, t\u00e3o ridicularizados pelos brancos, em vez de serem apresentados como manifesta\u00e7\u00f5es bizarras e atrasadas, est\u00e3o profundamente identificados com as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza.<\/p>\n<p>Alma seca &#8211; O romance, escrito no mesmo ritmo dessa cultura marginalizada e m\u00e1gica, \u00e9 tamb\u00e9m uma viagem atrav\u00e9s do corpo. Isa\u00edas &#8211; personagem central e futuro tuxaua -, ao perder sua identidade e sua f\u00e9 na vida, ao secar sua alma no semin\u00e1rio, fica com o corpo precocemente envelhecido. A perda da sua alma na civiliza\u00e7\u00e3o branca equivale \u00e0 perda do seu corpo &#8211; mantendo rela\u00e7\u00f5es sexuais com todos os homens da tribo, transforma-se em mixirox\u00e3, uma esp\u00e9cie de sacerdotisa do amor. Na mitologia ind\u00edgena, a luta entre Maira-Coraci, o sol e Maira-Ambir, seu pai, o Deus Criador, \u00e9 tamb\u00e9m uma luta corporal, pois o filho rouba partes do corpo do pai para dar aos homens.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do civilizado, com suas religi\u00f5es de desprezo ao corpo, a cria\u00e7\u00e3o do mundo narrada pelos mairuns &#8211; e divulgado por Darcy Ribeiro ao longo do livro, em cap\u00edtulos curtos &#8211; \u00e9 profundamente imoral: o filho de Deus \u00e9 apenas o seu arroto, e sua luta contra o Deus Pai \u00e9 feita com todos os recursos do corpo, como a habilidade manual e a for\u00e7a, al\u00e9m da famosa manha ind\u00edgena. Numa luta contra uma entidade do Criador, Maira vence com a ajuda do seu irm\u00e3o Micura-Laci, a lua, que solta gases fecais contra o nariz dessa entidade. E a superioridade de Maira-Coraci \u00e9 tanta que seu pai se transforma em Maira-Manon, o Deus-Defunto, que rege o mundo dos mortos.<\/p>\n<p>Fim dos Tempos &#8211; Por isso, a subvers\u00e3o colonizadora manifesta-se principalmente no corpo, o elemento b\u00e1sico da civiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. A deteriora\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos mairuns, na vis\u00e3o de Darcy Ribeiro, representar\u00e1 o sinal evidente desse fim-dos-tempos na mata, que coincide com o fim da a\u00e7\u00e3o pastoral dos padres cat\u00f3licos na tribo. Pois os mairuns, j\u00e1 totalmente dominados (e dizimados), deixam de ser a preocupa\u00e7\u00e3o principal da miss\u00e3o religiosa por decis\u00e3o de um senador empenhado em fazer a distribui\u00e7\u00e3o das terras e empres\u00e1rios. O pol\u00edtico determina que os religiosos passem a distribuir a palavra de Deus entre os Epex\u00e3s, \u00edndios arredios e violentos, que poderiam confundir o gado das grandes fazendas como uma nova ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Apesar da cr\u00edtica contundente, Darcy Ribeiro n\u00e3o cai apenas num necrol\u00f3gio. Para ele, o que realmente importa n\u00e3o \u00e9 a morte dos mairuns, j\u00e1 condenados \u00e0s doen\u00e7as da civiliza\u00e7\u00e3o e aos limites da sua aldeia, por sinal muito mal cuidada por um homem da Funai. O importante seria a luz que essa trag\u00e9dia revela &#8211; os \u00edndios d\u00e3o uma chave para a salva\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a conviv\u00eancia com a natureza. Pois, na verdade, \u00e9 o mundo destru\u00eddo (simbolizado por Alma) quem procura aux\u00edlio ind\u00edgena, querendo entender a f\u00f3rmula de viver feliz. E este livro excepcional de Darcy Ribeiro oferece uma maneira de se entender tal f\u00f3rmula, t\u00e3o simples quanto dific\u00edlima de alcan\u00e7ar.<br \/>\n(<em>Resenha sobre  MAIRA, de Darcy Ribeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, publicada na revista Veja em 20 de outubro de 1976<\/em>).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As provas da viol\u00eancia contra o \u00edndio s\u00e3o minuciosamente levantadas e analisadas pelo autor, num relato profundo e apaixonado que faz do livro um dos romances brasileiros mais importantes dos \u00faltimos anos, tanto pela urg\u00eancia do tema como pelo enfoque: o drama mairum \u00e9 visto de dentro, por algu\u00e9m que mostra a verdadeira natureza dos \u00edndios e a dimens\u00e3o real da sua cultural. A filosofia dos mairuns \u00e9 visceral e fisiol\u00f3gica, e sua sabedoria n\u00e3o vem da mortifica\u00e7\u00e3o, mas da glorifica\u00e7\u00e3o do corpo e da no\u00e7\u00e3o do seu significado dentro do universo (Resenha sobre MAIRA, de Darcy Ribeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, publicada na revista Veja em 20 de outubro de 1976).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1365,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31\/revisions\/1365"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}