{"id":310,"date":"2009-12-10T12:42:52","date_gmt":"2009-12-10T14:42:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=310"},"modified":"2009-12-10T12:42:52","modified_gmt":"2009-12-10T14:42:52","slug":"o-estranho-benjamin-button","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-estranho-benjamin-button","title":{"rendered":"O ESTRANHO BENJAMIN BUTTON"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Leio entrevista do roteirista Eric Roth, o mesmo de Munique (de Steve Sipelberg) e Forrest Gump (de Robert Zemeckis), sobre <em>O Caso Curioso de Benjamin Button<\/em>, de 2008. Consultando especialistas, descobriu que Scott Fitzgerald n\u00e3o levava a s\u00e9rio o conto, que fez apenas por dinheiro, pois era para ser publicado em revista e n\u00e3o em livro. Reli o conto depois de ver o filme. Como o g\u00eanio jamais descansa, Fitzgerald criou uma f\u00e1bula com extrema consist\u00eancia na estrutura narrativa, tanto \u00e9 verdade que continua firme e forte, apesar do tema bizarro: o sujeito que nasce anci\u00e3o e morre beb\u00ea. Esse n\u00facleo \u00e9 que deu margem para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica arriscar 150 milh\u00f5es de d\u00f3lares no filme, dirigido por David Fincher, o mesmo do violento Clube da Luta.<\/p>\n<p>Eric Roth perdeu os pais enquanto preparava o roteiro do filme, protagonizado por Brad Pitt e a onipresente Cate Blanchet, a nova Emma Thompsom, j\u00e1 que todos os filmes s\u00e3o com ela. N\u00e3o lembram de convidar outra atriz. Por que ser\u00e1? Lembro de Hitchcock fugindo do ass\u00e9dio de James Stewart, que queria ser de novo o ator principal de um novo filme dele depois de ter feito quase todos os outros. Tom Hanks diz que Eric escreve roteiros sobre a solid\u00e3o. Ele n\u00e3o concorda, mas \u00e9 verdade. Button \u00e9 a saga de uma criatura exc\u00eantrica que sofre sua sina com parceiros eventuais que v\u00e3o sumindo aos poucos, conforme sua vida vai se desenrolando pelo avesso.<\/p>\n<p>Apesar de reclamar da voragem presencial de Blanchet, ela est\u00e1 \u00f3tima, como sempre. Mas Brad Pitt, que poderia ser apenas um rosto de Hollywood, se supera a cada lan\u00e7amento. Vi grandes filmes com ele, sendo o maior, sem d\u00favida, o brilhante O assassinato de Jesse James, de Andrew Dominik Neste, desenvolve um personagem concentrado, sofredor, emocionado. A tecnologia e a maquiagem fazem horrores, mas o que vale \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o dos atores, que nos convencem numa hist\u00f3ria de extrema originalidade (a id\u00e9ia teria sido soprada por Mark Twain). O que ser\u00e1 que significa o texto, se \u00e9 que ainda toleram a leitura de significados na atual fase de relativiza\u00e7\u00e3o e abandono de velhos paradigmas te\u00f3ricos?<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que o conto se passa na sociedade escravista do sul, em que a extrema bizarrice e marginaliza\u00e7\u00e3o era jogada nas costas dos negros. Eric Roth faz com que Benjamin seja rejeitado pelo pai e acolhido por uma bab\u00e1 negra est\u00e9ril (n\u00e3o podia ter filhos) que cuida de um asilo de velhos. As conven\u00e7\u00f5es condenam o rec\u00e9m nascido, mas o amor, que se recolhe ao reduto dos marginalizados, o salva. No conto, o pai de Benjamin diz que gostaria que seu filho fosse negro, assim n\u00e3o passaria tanta vergonha.<\/p>\n<p>Todos os personagens do filme acompanham essa maldi\u00e7\u00e3o de serem outsiders numa sociedade que leva gera\u00e7\u00f5es sucessivas para a carnificina das guerras. Eric coloca a hist\u00f3ria como um contraponto do conflito, pois andando para tr\u00e1s o rel\u00f3gio poderia devolver os solados mortos para os pais e a sociedade, onde poderiam crescer e envelhecer com suas fam\u00edlias. Fitzgerad teria usado o artif\u00edcio da vida ao contr\u00e1rio para passar o recado de que a humanidade deve acordar para o amadurecimento e fazer dele uma fonte infinita de renova\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O conto foi escrito nos anos 20 e a hist\u00f3ria se passa a partir da Guerra Civil americana. O filme come\u00e7a na Primeira Guerra e vai at\u00e9 o furac\u00e3o Katrina, no s\u00e9culo 21. Vivemos hoje a invers\u00e3o dos valores, com os jovens desprezando a heran\u00e7a das gera\u00e7\u00f5es passadas e os velhos querendo engrossar as fileiras do desfrute e da irresponsabilidade. H\u00e1 marginaliza\u00e7\u00e3o da Terceira Idade, empurrada para roupas \u201cjovens\u201d e comportamentos estranhos, enquanto a meninada, liberta pelas novas tecnologias, vive um mundo \u00e0 parte, tendo rompido com a velha linhagem do repasse da experi\u00eancia. Algo se partiu no mundo e o conto apenas captura uma tend\u00eancia que se consolidou no s\u00e9culo 20 e hoje faz parte da natureza das coisas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 isso. O filme \u00e9 bom, intrigante, super bem feito. Destaque para os coadjuvantes que trazem para a tela momentos inesquec\u00edveis do capit\u00e3o b\u00eabado e tatuado do rebocador, que se considera um artista, o pigmeu contador de hist\u00f3rias, freq\u00fcentador de bordel, o velho que vivia contando como escapou de sete raios mortais, a m\u00e3e negra de Benjamin, entre outros. Uma galeria de anti-her\u00f3is magn\u00edficos, que fazem deste filme um dos grandes lan\u00e7amentos desta primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leio entrevista do roteirista Eric Roth, o mesmo de Munique (de Steve Sipelberg) e Forrest Gump (de Robert Zemeckis), sobre O Caso Curioso de Benjamin Button, de 2008. Consultando especialistas, descobriu que Scott Fitzgerald n\u00e3o levava a s\u00e9rio o conto, que fez apenas por dinheiro, pois era para ser publicado em revista e n\u00e3o em livro. Reli o conto depois de ver o filme. Como o g\u00eanio jamais descansa, Fitzgerald criou uma f\u00e1bula com extrema consist\u00eancia na estrutura narrativa, tanto \u00e9 verdade que continua firme e forte, apesar do tema bizarro: o sujeito que nasce anci\u00e3o e morre beb\u00ea. Esse n\u00facleo \u00e9 que deu margem para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica arriscar 150 milh\u00f5es de d\u00f3lares no filme, dirigido por David Fincher, o mesmo do violento Clube da Luta.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=310"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":311,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310\/revisions\/311"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}