{"id":3193,"date":"2012-01-01T08:42:06","date_gmt":"2012-01-01T10:42:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3193"},"modified":"2012-01-01T08:42:06","modified_gmt":"2012-01-01T10:42:06","slug":"uma-historia-verdadeira-de-pescador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/uma-historia-verdadeira-de-pescador","title":{"rendered":"UMA HIST\u00d3RIA VERDADEIRA DE PESCADOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O lan\u00e7amento oficial do livro \u201cChico Bastos \u2013 O pescador\u201d, de Willy Cesar, publicado pela editora UniverCidade, do Rio de Janeiro, foi no dia 20\/12\/11, em Rio Grande. Recebi um exemplar por especial gentileza de Cabeto Bastos, sobrinho do protagonista, Francisco Martins Bastos ( 1907-1986), e o respons\u00e1vel por esse resgate precioso da nossa mem\u00f3ria. O livro enfeixa uma rica variedade de vetores da hist\u00f3ria brasileira e n\u00e3o se limita \u00e0s lides empresariais ou \u00e0 linhagem familiar ilustre. Trata-se do perfil de uma saga que est\u00e1 entranhada organicamente no desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi feliz a sele\u00e7\u00e3o do enfoque da abordagem deste \u00e9pico, que buscou a ess\u00eancia do personagem na pesca, que define a simplicidade e o desprendimento do pioneiro, que combinou sucesso em atividades rurais com uma participa\u00e7\u00e3o decisiva na implanta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do petr\u00f3leo no Brasil. Faz justi\u00e7a \u00e0 suas origens, que vieram de longe, totalmente identificadas com a ousadia dos migrantes, desbravadores do territ\u00f3rio da fronteira. Um lugar que de ermo improdutivo tornou-se um exemplo de criadouro de gado \u2013 e mais tarde, de semeadura e colheita de gr\u00e3os &#8211; da melhor qualidade, gra\u00e7as \u00e0 compet\u00eancia que as gera\u00e7\u00f5es sucessivas de grandes empreendedores souberam implantar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito o que dizer do livro, mas o destaque \u00e9 o enriquecimento do acervo de Hist\u00f3ria que mais me interessa. Pois foi nas mem\u00f3rias e nas biografias de protagonistas importantes nem sempre lembrados em sua totalidade que consegui entender um pouco sobre o Brasil. Lembro sempre o brasilianista Stanley Hilton que veio fazer a biografia \u2013 brilhante \u2013 de Oswaldo Aranha e perguntou, na \u00e9poca, quantas j\u00e1 existiam. Nenhuma, lhe disseram, causando espanto no scholar.<\/p>\n<p>Jornalistas como Willy Cesar fazem um trabalho que em principio caberia aos historiadores, mas estes est\u00e3o mais preocupados com as atividades te\u00f3ricas e conceituais do que com a marca deixada pelos habitantes do pa\u00eds sempre em constru\u00e7\u00e3o. Nesta obra, Willy mostra como foi dif\u00edcil o come\u00e7o da Ipiranga e como ela esteve ligada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Brasil soberano na era Vargas, mesmo que com ela n\u00e3o se identifique em aspectos fundamentais como foi o caso do monop\u00f3lio institu\u00eddo no governo de Get\u00falio eleito pelo voto direto nos anos 50 e a encampa\u00e7\u00e3o das refinarias decretada por Jango, um dos estopins do abril de 1964.<\/p>\n<p>O autor mostra como o pr\u00f3prio Vargas escutou Chico Bastos ao encaminhar o projeto da Petrobr\u00e1s, em que havia conviv\u00eancia entre a estatal e a iniciativa privada, detalhe que foi atropelada pela radicaliza\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico da \u00e9poca, com o hil\u00e1rio paradoxo dos udenistas defenderem o monop\u00f3lio s\u00f3 para contrariar o presidente, inimigo mortal.<\/p>\n<p>Quando perguntaram a Chico Bastos o que faria se a Ipiranga fosse encampada, ele respondia: Vou pescar! E assim surge aos olhos do leitor toda a riqueza humana de uma figura que decifra o pr\u00f3prio tempo por meio de suas atividades que geraram in\u00fameros empreendimentos e por isso seu nome se tornou uma lenda.<\/p>\n<p>Destaco a import\u00e2ncia desta seleta de documentos fornecidos por algumas fontes, especialmente a do sobrinho do protagonista. O Arquivo Camb, de Cabeto Bastos \u00e9 uma das colunas mestras da colet\u00e2nea de depoimentos e registros do empreendedor que cruzou o s\u00e9culo 20 com um leque importante de realiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Descobri na pr\u00e1tica o quanto pode ser gratificante o mergulho num acervo rico, quando consultei os registros do Deops paulista nos anos 90, num trabalho pela USP. Consegui boas revela\u00e7\u00f5es que estavam estocadas em in\u00fameras pastas. N\u00e3o \u00e9 o caso aqui deste lan\u00e7amento, j\u00e1 que se trata de outro tipo de acervo. Francisco Martins Bastos \u00e9 uma figura conhecida e respeitada, famosa por suas atividades \u00e0 frente do grupo Ipiranga que, sem ele, como diz a esposa sra. Maria Ondina, \u201cteria morrido na casca\u201d. Mas o foco \u00e9 id\u00eantico: n\u00e3o se pode deixar tesouros encerrados. Precisam ser disseminados e o melhor meio para isso ainda \u00e9 o livro.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil conseguir o equil\u00edbrio entre o perfil do homenageado, sua trajet\u00f3ria profissional e pessoal , o tempo em que viveu e a cultura corporativa a qual esteve ligada por quase toda a vida. \u00c9 complicado conseguir a costura de uma obra chamando aten\u00e7\u00e3o para a grandeza do personagem sem cair nos deslizes da publicidade pura e simples, do paneg\u00edrico. O livro de Willy Cesar n\u00e3o deixa de lado nenhum assunto espinhoso, apesar de todas as p\u00e1ginas estarem impregnadas de um justo orgulho pelo grupo empresarial brasileiro que se destacou no ramo do petr\u00f3leo e se diversificou por v\u00e1rios nichos.<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e3o as dificuldades familiares e empresariais, as d\u00favidas e os enfartes, as perdas e as quedas, as amea\u00e7as e as crises, as comemora\u00e7\u00f5es e os funerais, os meandros pol\u00edticos, os embates da concorr\u00eancia. Tudo est\u00e1 devidamente enfocado, para livrar do trabalho esse tom monoc\u00f3rdio que costuma contaminar a narrativa. Willy Cesar optou pelo registro puro e simples, com um toque elegante de argumentos quando necess\u00e1rio, ao abordar problemas complicados. Sem querer justificar sem base, o que daria um clima de aplauso permanente a um texto que faz de cada leitor um atento cr\u00edtico. Pois se sabe que o petr\u00f3leo tem a ver com polui\u00e7\u00e3o, que a briga por essa riqueza industrial cruzou paix\u00f5es pol\u00edticas s\u00e9rias. N\u00e3o h\u00e1, portanto, o interesse em tapar o sol com a peneira.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o do autor (foto acima) foi muito simples: reportou o que devia e manteve o texto ao n\u00edvel de grandeza do personagem, enfocando os benef\u00edcios da sua obra. O despojamento de uma pessoa importante nos momentos mais cruciais do empreendimento, nos detalhes de sua vida agitada (era conhecido na juventude como Chico Barulho) faz o contraponto ideal para que a leitura corra sem problemas. Como o livro tem 365 p\u00e1ginas, \u00e0s vezes o relat\u00f3rio do grupo pesa um pouco para quem quer saber mais da pessoa do que dos desdobramentos da Ipiranga.<\/p>\n<p>Mas o livro sai ganhando ao conseguir que isso n\u00e3o seja determinante. O que vale \u00e9 aprendermos sobre um homem e sua vida plena, orgulho dos conterr\u00e2neos e que \u00e9 uma refer\u00eancia do brasileiro que ajudou a inventar uma na\u00e7\u00e3o, o Brasil soberano. Um pa\u00eds formatado para a posteridade. \u00c9 uma obriga\u00e7\u00e3o, para n\u00f3s, mant\u00ea-lo com todas as suas conquistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O lan\u00e7amento oficial do livro \u201cChico Bastos \u2013 O pescador\u201d, de Willy Cesar, publicado pela editora UniverCidade, do Rio de Janeiro, foi no dia 20\/12\/11, em Rio Grande. 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