{"id":32,"date":"2005-05-13T21:24:55","date_gmt":"2005-05-13T23:24:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=32"},"modified":"2010-10-06T22:47:45","modified_gmt":"2010-10-07T01:47:45","slug":"menotti-del-picchia-as-muitas-faces-do-poeta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/menotti-del-picchia-as-muitas-faces-do-poeta","title":{"rendered":"MENOTTI DEL PICCHIA: AS MUITAS FACES DO POETA"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/menotti.jpg\" alt=\"revista Santista\" align=\"left\" \/> <strong>Menotti Del Picchia<\/strong><br \/>\n<em>As muitas faces do poeta<\/em><\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/om.gif\" alt=\"\" align=\"left\" \/>elefante de papel de seda est\u00e1 pronto para levantar v\u00f4o. O autor da obra, no comando da opera\u00e7\u00e3o em cima do terra\u00e7o da sua casa, acende o pavio. Lentamente, o bal\u00e3o ergue-se sobre a rua Visconde de Ouro Preto, em S\u00e3o Paulo, aplaudido pelas crian\u00e7as aglomeradas diante do espet\u00e1culo. Para elas, o desfecho \u00e9 previs\u00edvel: depois de breves instantes de gl\u00f3ria, o elefante colorido perde o pique e cai inevitavelmente na cal\u00e7ada. \u00c9 quando os mais r\u00e1pidos vencem na disputa e correm para completar o trabalho. Pois todos sabem que o poeta Menotti del Picchia faz um bal\u00e3o como ningu\u00e9m, mas n\u00e3o consegue acertar na mecha nem no combust\u00edvel. Usa \u00e1lcool, por exemplo, de r\u00e1pida combust\u00e3o, em vez do tradicional querosene, que garante uma evolu\u00e7\u00e3o mais digna pelos c\u00e9us tranquilos da capital paulista em 1922.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/juca.jpg\" alt=\"Juca Mulato\" align=\"right\" \/>Sinal de que nem tudo eram vaias naquele ano de grandes transforma\u00e7\u00f5es na cultura brasileira. Se a plat\u00e9ia do Teatro Municipal urrava contra os eventos da Semana de Arte Moderna, idealizada por Menotti, as crian\u00e7as festejavam o poeta que cultivava seu lado dom\u00e9stico, confeccionando bal\u00f5es ou cozinhando quindins &#8211; seu doce predileto. Nessa mesma \u00e9poca, ele j\u00e1 era um autor que fazia sucesso entre o p\u00fablico e a cr\u00edtica com seu poema Juca Mulato, lan\u00e7ado em 1917. Essa era a caracter\u00edstica principal de Menotti, que em 96 anos de vida cultivou o paradoxo, a contradi\u00e7\u00e3o e a pol\u00eamica. Com sua morte, em 23 de agosto de 1988, o agitador cultural que ajudou a romper velhos v\u00edcios culturais no Brasil j\u00e1 tinha provado de sobra o gosto do reconhecimento p\u00fablico e das in\u00fameras homenagens &#8211; entre as quais o Pr\u00eamio Moinho Santista em 1984 e um livro desta Funda\u00e7\u00e3o sobre sua obra e vida. Como na hist\u00f3ria dos bal\u00f5es, lembrada hoje por um dos seus sete filhos, H\u00e9lio del Picchia, a obra de Menotti, espalhada em trabalhos de literatura, poesia, teatro, escultura, pintura e jornalismo e pol\u00edtica, tem a estrutura, a beleza de um show pacientemente produzido entre o alarido e o sil\u00eancio, entre a vida p\u00fablica e o retiro, entre o del\u00edrio e a objetividade. Mas, por um capricho &#8211; n\u00e3o se sabe se do destino ou do pr\u00f3prio poeta -, o embate dessas contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o encontra sua s\u00edntese. Ao contr\u00e1rio, ele costuma provocar novos paradoxos, estimular efeitos opostos: a inspira\u00e7\u00e3o precursora acaba caindo no gosto popular, a participa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria redunda, mais tarde, na ruptura atrav\u00e9s do movimento verde-amarelista; e a monumentalidade da sua obra v\u00ea-se diminu\u00edda por parte da cr\u00edtica depois da ressurrei\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica de Oswald de Andrade nos anos 60. Para o poeta Augusto de Campos, os elogios a Menotti del Picchia, publicados por M\u00e1rio de Andrade na revista Klaxon, de 1922, eram exemplo de uma cr\u00edtica &#8220;impressionista e indulgente&#8221;.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div><strong>Cr\u00edticas de Oswald<\/strong><\/div>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/domquixote.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>&#8220;A vida \u00e9 sinf\u00f4nica&#8221;, explica Menotti na p\u00e1gina 106 do seu romance A Tormenta (1932).\u00b4&#8221;\u00c9 uma orquestra\u00e7\u00e3o prodigiosa harmonizando os mais gritantes paradoxos e os mais incr\u00edveis absurdos.&#8221; Esse \u00e9 o desafio proposto pelo poeta, atrav\u00e9s da multiplicidade do seu talento e de sua longevidade. Inclusive o cr\u00edtico Nogueira Moutinho, da Academia Paulista de Letras, num texto de 1982, adverte que &#8220;ainda n\u00e3o foi feita a decodifica\u00e7\u00e3o definitiva da sua obra&#8221;. A pr\u00f3pria vida do poeta estimula as contradi\u00e7\u00f5es. Como compactuar, por exemplo, os ataques de Oswald ao &#8220;Menor-ti del Piccolo&#8221; da segunda fase da revista de Antropofagia (1929), com suas declara\u00e7\u00f5es de admira\u00e7\u00e3o \u00e1 mesma pessoa? &#8220;Menotti foi sempre o mais ansioso em descobrir, o mais generoso em lan\u00e7ar, o mais \u00e1gil na discuss\u00e3o, no planfeto, na luta&#8221;, diz Oswald.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/menotti.jpg\" alt=\"\" align=\"right\" \/>A rela\u00e7\u00e3o entre os dois idealizadores da Semana de Arte Moderna \u00e9 uma novela de paradoxos. Quando lan\u00e7ou Mois\u00e9s, poema b\u00edblico, em 1917, no tempo em que era aluno da faculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco, Menotti foi atacado de maneira virulenta por Oswald. Instintivamente, quase por vingan\u00e7a po\u00e9tica &#8211; j\u00e1 que pessoalmente Menotti sempre foi elogiado cavalheiro, af\u00e1vel e generoso -, escreve, no seu retiro em Itabira, pequena vila perto de S\u00e3o Paulo, o poema Juca Mulato: um poema &#8220;brasileiro&#8221;, ousado para os padr\u00f5es da \u00e9poca, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo, pois mulato significa inferioridade racial no Brasil demasiadamente dependente da cultura europ\u00e9ia. T\u00e3o ousado que at\u00e9 hoje seu filho H\u00e9lio insiste em que o poema pode entrar em qualquer casa de fam\u00edlia sem causar nenhum malef\u00edcio. A verdade \u00e9 que a repercuss\u00e3o do poema e sua preocupa\u00e7\u00e3o nacionalista amoleceu Oswald.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como nota a professora Tel\u00ea Ancona Lopez, da Universidade de S\u00e3o Paulo, entre 1920 e 1922 Menotti atravessava uma fase brilhante como jornalista: &#8220;A grande import\u00e2ncia de Menotti del Picchia no quadro do Modernismo&#8221;, conceitua a estudiosa da USP, &#8220;prende-se aos textos que ele publicou nessa \u00e9poca no Correio Paulistano, no Jornal do Com\u00e9rcio e mesmo no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo. Sob os pseud\u00f4nimos de H\u00e9lios e Arist\u00f3fanes e com seu pr\u00f3prio nome, ele p\u00f5e em discuss\u00e3o as id\u00e9ias que corriam no meio dos vanguardistas de S\u00e3o Paulo, nome com que ele designou nossos primeiros modernistas&#8221;.<\/p>\n<p>Entusiasma com o trabalho do poeta nesse per\u00edodo, Tel\u00ea destaca que &#8220;esse textos, cr\u00f4nicas e artigos n\u00e3o s\u00f3 discutem a validade do futurismo como mostram que a absor\u00e7\u00e3o das vanguardas por parte do Modernismo brasileiro \u00e9 um assunto muito rico e diverso&#8221;. A professora considera que este seja &#8220;talvez a melhor contribui\u00e7\u00e3o que ele deu \u00e0 literatura brasileira.&#8221; Oswald, atento a tudo, reavaliou suas cr\u00edticas e acabou encontrando um bom pretexto para falar com Menotti. Marcou um encontro com ele na casa da namorada Daysi, que estava doente e queria conhecer o poeta de Juca Mulato. Nesse encontro nasceu a id\u00e9ia da Semana.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div><strong>Sangue italiano<\/strong><\/div>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Era nas rela\u00e7\u00f5es pessoais que Menotti conseguia quebrar o gelo provocado pela sua milit\u00e2ncia cultural. Especialista no trato com as pessoas, soube cultivar sua popularidade. Tinha tamb\u00e9m, para ajud\u00e1-lo, o carisma de um pacato pai de fam\u00edlia. Casado de 1912 a 1930 com sua namorada de inf\u00e2ncia, Francisca Avelina da Cunha Salles, de tradicional fam\u00edlia de Itapira, teve sete filhos: Ulpiano, H\u00e9lio, Wanda, Astyris, Miriam, Sulamita e F\u00falvio. &#8220;Ele tinha uma apar\u00eancia muito s\u00e9ria, mas gostava de brincar com os filhos&#8221;, conta hoje Astyres del Picchia. E sempre foi muito generoso: preocupava-se com os pobres, tanto que at\u00e9 hoje a garagem de sua casa, na avenida Brasil, em S\u00e3o Paulo &#8211; onde passou a maior parte de sua vida &#8211; \u00e9 utilizada por um vendedor de flores para dep\u00f3sito, franqueada pelo pr\u00f3prio poeta.<\/p>\n<p>Astyres lembra que sua generosidade permitia que &#8220;os pobres tomassem conta&#8221; do jardim da casa, apesar das insistentes advert\u00eancias da fam\u00edlia sobre o perigo de assaltos, o que nunca ocorreu. Mas sua afabilidade era ainda mais expl\u00edcita para com a fam\u00edlia, h\u00e1bito que, segundo Astyres, trazia no seu sangue italiano: &#8220;Ele reservava cada fim de semana para um dos filhos. E, no Natal, fazia quest\u00e3o de estar junto de todos. Para isso alug\u00e1vamos um sal\u00e3o de festas, onde pod\u00edamos compartilhar unidos sua amabilidade. Observava, nestas ocasi\u00f5es, que todos eram frutos da mesma \u00e1rvore e que a fam\u00edlia era sagrada&#8221;.<\/p>\n<p>Mas nem sempre sua vida p\u00fablica deixou de interferir na rotina dom\u00e9stica. Houve uma \u00e9poca em que tudo estremeceu. Em 1924, por exemplo, Menotti pagou caro por ser funcion\u00e1rio dos Campos El\u00edseos. Os soldados revoltosos do general Isidoro Dias Lopes entraram na casa do seu pai, o pintor Lu\u00eds del Picchia, e destru\u00edram quase tudo, inclusive os quadros e livros da casa. Apenas um quadro escapou do massacre e hoje ele \u00e9 guardado com carinho por H\u00e9lio. Numa entrevista de 1982, Menotti tra\u00e7ou assim o perfil do seu pai: &#8220;Era um garibaldino, grande artista e revolucion\u00e1rio, poeta, jornalista, pintor, arquiteto, construtor. S\u00f3 n\u00e3o sabia ganhar dinheiro.&#8221;<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/menotti2.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>Al\u00e9m do quadro na casa de H\u00e9lio, o que sobrou da obra de Lu\u00eds del Picchia foram os afrescos que ornamentam a c\u00fapula da Igreja Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, no bairro dos Campos El\u00edseos, em S\u00e3o Paulo. A admira\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds por Garibaldi definiu o nome de Menotti, o mesmo do filho do revolucion\u00e1rios italiano com a brasileira Anita. Era uma op\u00e7\u00e3o t\u00e3o ousada que o padre, na hora do batismo, imp\u00f4s um nome crist\u00e3o. Foi assim que o poeta, nascido na antiga Ladeira S\u00e3o Jo\u00e3o, hoje, avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, foi registrado como Paulo Menotti.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div><strong>Artista eloq\u00fcente<\/strong><\/div>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O menino tinha a quem puxar. Cedo revelou-se um artista ao construir um pres\u00e9pio. O padre comoveu-se e encomendou um Cristo para ser usado na festa da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Feito \u00e0s pressas &#8211; como relata no seu livro de mem\u00f3rias A Longa Viagem -, o pobre Cristo trincou o barro mal cozido. Mas isso n\u00e3o desestimulou o poeta para as artes pl\u00e1sticas. Com as devidas ressalvas, \u00e9 claro. &#8220;Considero-me um pintor amador\u00edstico, apesar de ter quadros em museus importantes&#8221;, disse ele em 1982. Um desses quadros, \u00e9 &#8220;Arranha-C\u00e9us&#8221;, que doou ao Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp) e arrancou do seu diretor, Pietro Maria Bardi, um rasgado elogio: &#8220;O melhor quadro do Modernismo brasileiro&#8221;. Hoje Bardi lamenta que Menotti n\u00e3o tenha se dedicado mais \u00e0s artes pl\u00e1sticas, pelo menos \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o maior das suas obras. Tinha cacife para isso: era amigo de Assis Chateaubriand, idealizador do Masp, e fez inclusive o discurso inaugural do museu em 1947.<\/p>\n<p>Falar em p\u00fablico era uma das suas paix\u00f5es. Lembrava-se, emocionado, da multid\u00e3o que aplaudiu seu discurso em Ouro Preto diante do corpo do poeta Thomaz Antonio Gonzaga e de sua amada, vindos de Portugal. E foi ferrenho defensor de causas pol\u00eamicas, como o div\u00f3rcio, nas tr\u00eas legislaturas como deputado federal pelo PTB. No fim da vida confessou que &#8220;sentia nojo&#8221; da pol\u00edtica, da qual se afastou em 1962, completamente desencantado. Mas as concicid\u00eancias da sua obra com a pol\u00edtica guardam algumas hist\u00f3rias curiosas. Como o fato de sua pe\u00e7a &#8220;M\u00e1scaras&#8221; ter sido encenada em 1930 por dois estreantes: Juscelino Kubitschek e Jos\u00e9 Maria Alkmim nos pap\u00e9is de Pierrot e Arlequim.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/menotti3.jpg\" alt=\"branca de neve e os sete participantes da semana de 22\" align=\"right\" \/> A maior das liga\u00e7\u00f5es entre essas duas atividades aparentemente opostas foi feita por um presidente da Rep\u00fablica: &#8220;As for\u00e7as coletivas que provocaram o movimento revolucion\u00e1rio do Modernismo na literatura brasileira, que se iniciou com a Semana de Arte Moderna de 1922, em S\u00e3o Paulo&#8221;, disse Get\u00falio Vargas em 1952, nas comemora\u00e7\u00f5es do trig\u00e9simo anivers\u00e1rio do evento, &#8220;foram as mesmas que precipitaram no campo social e pol\u00edtico a revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa de 1930&#8221;. Essa declara\u00e7\u00e3o soava como uma consagra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao poeta. Num depoimento para o Museu da Imagem e do Som, em 1978, Menotti brandia esse argumento contra as injusti\u00e7as que sofreu por ter desencadeado a Semana. &#8220;Tratam-nos como criminosos, como r\u00e9us, como se tiv\u00e9ssemos feito algo de errado com aquele barulho todo.&#8221; Esse, ali\u00e1s, \u00e9 um dos raros desabafos do poeta, que sempre fez quest\u00e3o de dizer que &#8220;n\u00e3o alimentava \u00f3dios nem invejas e que a pol\u00eamica e a contradi\u00e7\u00e3o fazem parte da vida&#8221;.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div><strong>Prosseguir sempre<\/strong><\/div>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Para quem se debru\u00e7ar sobre a contradi\u00e7\u00e3o maior &#8211; a de ter desencadeado a Semana e virado inimigo do movimento Antropof\u00e1gico &#8211; o poeta d\u00e1 uma pista no seu romance A Tormenta: &#8220;Eles mesmos &#8211; &#8216;coitados!&#8217; &#8211; eram v\u00edtimas de uma ilus\u00e3o. Existiria de fato essa est\u00e9tica ind\u00edgena, de linhas genuinamente crioulas, uma est\u00e9tica destacada, aut\u00f4noma, original, in\u00e9dita, liberta das correntes art\u00edsticas ocidentais? &#8220;Menotti tinha suas raz\u00f5es para n\u00e3o gostar dos antropof\u00e1gicos. Na segunda fase da revista, seu livro Paix\u00e3o, Ang\u00fastia e Morte de Dom Jo\u00e3o foi denunciado como pl\u00e1gio de Guerra Junqueiro. Mas seu amigo de inf\u00e2ncia, Paulo Bonfim, da Academia Paulista de Letras, sem se referir a esse ataque, lembra que fez a liga\u00e7\u00e3o entre Junqueiro e Menotti &#8211; como afinidade tem\u00e1tica, e n\u00e3o como pl\u00e1gio &#8211; &#8220;pelo sentido pante\u00edsta, sensual e pol\u00eamico da sua obra&#8221;. A compara\u00e7\u00e3o agradou aos portugueses, que foram assistir a palestra de Bonfim em Lisboa sobre a Semana, quando foi comemorado o cinq\u00fcenten\u00e1rio do evento.<\/p>\n<p>Bonfim fez o discurso f\u00fanebre para seu amigo, dizendo: &#8220;Entre todos os personagens que criou, o mais fascinante foi ele pr\u00f3prio. A ele n\u00e3o podemos dizer descanse em paz, mas prossiga sempre&#8221;. Pois Bonfim n\u00e3o se conformava com o desaparecimento de um esp\u00edrito caleidosc\u00f3pico, querendo, num rasgo m\u00edstico, que ele continuasse sua obra. Na homenagem a Menotti, Bonfim d\u00e1 o sinal para os sobreviventes: continuar pesquisando um artista completo, que ainda encerra in\u00fameros desafios. Pois foi o destino do poeta ter-se dedicado a tantas atividades d\u00edspares. Ter lutado sem ofender; ter constitu\u00eddo fam\u00edlia e continuar ligado a ela, apesar de ter escolhido, a partir dos anos 30, uma nova companheira, a pianista Antonieta Rudge, com quem conviveu durante 40 anos; ter sido revolucion\u00e1rio sem trair suas ra\u00edzes parnasianas e simbolistas, como observa Nogueira Moutinho. E ter sido atacado e lido como ningu\u00e9m. \u00c9 por isso que a vida e a obra do poeta possuem todos os elementos para cumprir o desejo de Paulo Bonfim. \u00c9 um esp\u00edrito que ainda n\u00e3o completou definitivamente sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a plat\u00e9ia do Teatro Municipal urrava contra os eventos da Semana de Arte Moderna, idealizada por Menotti, as crian\u00e7as festejavam o poeta que cultivava seu lado dom\u00e9stico, confeccionando bal\u00f5es ou cozinhando quindins &#8211; seu doce predileto. Nessa mesma \u00e9poca, ele j\u00e1 era um autor que fazia sucesso entre o p\u00fablico e a cr\u00edtica com seu poema Juca Mulato, lan\u00e7ado em 1917. 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