{"id":3228,"date":"2012-01-01T09:11:52","date_gmt":"2012-01-01T11:11:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3228"},"modified":"2012-01-01T09:11:52","modified_gmt":"2012-01-01T11:11:52","slug":"poesia-o-narrador-como-personagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/poesia-o-narrador-como-personagem","title":{"rendered":"POESIA: O NARRADOR COMO PERSONAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>G\u00eanero liter\u00e1rio \u00e9 como planeta visto do espa\u00e7o: n\u00e3o aparecem as fronteiras. \u00c9 preciso, como se dizia, \u201ccolocar no papel\u201d para que possamos enxergar as diferen\u00e7as entre conto, cr\u00f4nica, romance, poesia. O poema minuto, o microconto, o cruzamento entre fic\u00e7\u00e3o e ensaio, a prosa po\u00e9tica intensificada pelo derramamento das formas do texto na tela do micro criam uma salada heterodoxa para uma celebra\u00e7\u00e3o. O tema \u00e9 bom , revigorado pelas mudan\u00e7as radicais nos meios, influindo diretamente na natureza das mensagens, em que a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica digital inflete sobre o c\u00e2none anal\u00f3gico do impresso (clique o mouse na edi\u00e7\u00e3o \u201cimpressa\u201d, por exemplo, \u00e9 um magn\u00edfico paradoxo).<\/p>\n<p>Prefiro abordar o personagem na poesia, um g\u00eanero que ganhou for\u00e7a nas m\u00eddias sociais. Fernando Pessoa radicalizou ao mostrar que poesia \u00e9 dramaturgia, a cargo de personagens . Mas a tend\u00eancia \u00e9 achar que o poeta fala por seu pr\u00f3prio ethos, que n\u00e3o usa o estratagema teatral para compor seus versos. H\u00e1 motivos para esse equivoco. O poeta como personagem \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o para o autor. Trata-se de hero\u00edsmo, da coragem da fala, do charme da m\u00fasica da palavra, do perfil filos\u00f3fico que as grandes obras po\u00e9ticas adquirem. H\u00e1 sempre uma decep\u00e7\u00e3o quando se conhece de verdade o autor. Um Pablo Neruda t\u00e3o \u00e9pico usando aquele bonezinho de l\u00e3 e com cara triste de inverno. Um Jo\u00e3o Cabral t\u00e3o contundente em Morte e Vida Severina e sendo t\u00e3o embaixador na Espanha ou Senegal.<\/p>\n<p>Quem mais aproximou o autor do personagem talvez tenha sido Vinicius de Moraes, que ao criar o Poetinha ofereceu-se em liba\u00e7\u00f5es e melodias para a massa encantada. Ou mesmo Oswald de Andrade, que amargou ex\u00edlio duro interno ao radicalizar suas mensagens e brigar com todo mundo. Mas o Oswald doente em casa, um Vinicius que morre na banheira de copo na m\u00e3o confundem os leitores que precisam maquiar bem a imagem do autor para que fique como a do personagem criado.<\/p>\n<p>A morte precoce ou o desaparecimento de cena ajudam a formar o mito. Os casos mais not\u00f3rios, Garcia Lorca e Rimbaud, mostram o poeta popular e erudito da Andaluzia sendo fuzilado ao amanhecer, o que tem tudo a ver com a ef\u00edgie criada em vida. E o poeta radical que desapareceu de Paris para traficar armas na \u00c1frica \u00e9 o retrato acabado dessa saga do autor que se confunde com o personagem.<\/p>\n<p>Mas o que deve prevalecer \u00e9 a sinceridade e nisso Borges \u00e9 imbat\u00edvel. O velho cego e sedent\u00e1rio criou a bizarria do viajante misterioso e sabemos o tempo todo que existe esse fosso entre o g\u00eanio argentino e sua obra. Foram confundi-lo de prop\u00f3sito, colocando-o como um homem de direita, quando deveriam apenas prestar aten\u00e7\u00e3o no cidad\u00e3o sincero que tem suas opini\u00f5es, mas voa para muito longe quando nos traz os mais inacess\u00edveis volumes de sua maravilhosa biblioteca.<\/p>\n<p>Temos casos not\u00f3rios de falsidades, como o poeta veterano que gosta de abrir a camisa e mostrar a medalha no peito viril enquanto olha o olhar sampacu para as pobres vitimas, as leitoras. Ou o jovem poeta que leva vida tradicional, mas encena uma vida aventurosa e transgressora. \u00c9 f\u00e1cil confundir os leitores, que esperam sempre encontrar o her\u00f3i por tr\u00e1s das belas palavras. Mas o que existe de fato \u00e9 a obra e seu autor, duas realidades que interagem e tem vida pr\u00f3pria. Faz parte do of\u00edcio, nada tem a ver com falsidade. A obra imp\u00f5e seus personagens e o verdadeiro autor obedece. Um ator usa t\u00e9cnicas para poder atingir seu objetivo, emocionar. Um poeta faz a mesma coisa. Escreve sem piedade para arrancar suspiros.<\/p>\n<p>Conhecer pessoalmente o poeta pode n\u00e3o ser uma boa pedida. Voc\u00ea n\u00e3o encontrar\u00e1 no sujeito aquilo que teve o poder de arrebatar na leitura. Mas trate-o com considera\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m \u00e9 f\u00e3 do que voc\u00ea admira. Seu segredo \u00e9 mais fundo e implica ren\u00fancia, afastamento. Muitas vezes devemos silenciar. A palavra precisa do ex\u00edlio para n\u00e3o se apropriar do que procuramos dizer tateando no escuro.<\/p>\n<p><em>Publicado no caderno Plural, do jornal Not\u00edcias do Dia, de Florian\u00f3polis, dia 26\/11\/2011.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s G\u00eanero liter\u00e1rio \u00e9 como planeta visto do espa\u00e7o: n\u00e3o aparecem as fronteiras. \u00c9 preciso, como se dizia, \u201ccolocar no papel\u201d para que possamos enxergar as diferen\u00e7as entre conto, cr\u00f4nica, romance, poesia. 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