{"id":324,"date":"2009-12-10T12:48:08","date_gmt":"2009-12-10T14:48:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=324"},"modified":"2009-12-10T12:48:08","modified_gmt":"2009-12-10T14:48:08","slug":"comboio-de-livros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/comboio-de-livros","title":{"rendered":"COMBOIO DE LIVROS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nLivro tem pai e av\u00f4, como todo mundo. Nenhum autor importante, desses que deixam marca, escreve a partir do nada. Ningu\u00e9m que v\u00e1 morrer consegue inventar, sem base, algo que preste. O truque dos g\u00eanios \u00e9 participar de uma linhagem, sem precisar dar sempre o cr\u00e9dito (isso fica a cargo dos estudiosos, os apaixonados dispersos no tempo). Artistas africanos an\u00f4nimos e ancestrais foram apropriados por Pablo Picasso. MacBeth e Hamlet j\u00e1 tinham sido escritos, mas Shakespeare fez muito melhor. Os Irm\u00e3os Grimm, todos sabem: colheram as hist\u00f3rias do povo e colocaram em papel impresso. Cervantes usou os romances da cavalaria para talhar seu ant\u00eddoto.<\/p>\n<p>Picasso falava em roubar, mas era seu jeito debochado de abordar coisas s\u00e9rias. N\u00e3o acredito nessa defini\u00e7\u00e3o. Existe o pl\u00e1gio, o clone, mas isso \u00e9 outra coisa. Est\u00e1 cheio de ladr\u00e3o por a\u00ed, mas os mestres s\u00e3o de outra estirpe. Trabalhar uma hist\u00f3ria e elabor\u00e1-la de tal forma que cruze os s\u00e9culos \u00e9 entender que literatura, como toda arte, \u00e9 matriz, tem antepassados e gera seres vivos. Chamam de livros, mas podem ser p\u00e1ginas virtuais em telas luminosas, espalhadas em in\u00fameras fontes. Por um tempo foram manuscritos perdidos, obra de copistas, papiros, t\u00e1buas, argila. N\u00e3o importa a forma, mas a elabora\u00e7\u00e3o que identifique a obra.<\/p>\n<p>O papel impresso, por existir h\u00e1 muito tempo, parece ter se transformado na natureza do livro, mas esse \u00e9 um erro de percep\u00e7\u00e3o. \u00c9 imbat\u00edvel como objeto a ser levado para a varanda, o quarto, o banco da pra\u00e7a, do \u00f4nibus. Mas acredito que hoje existe um exagero de livros n\u00e3o reconhecidos como tal espalhados pela rede, assim como temos livros perdidos, mofados, jamais reeditados e que fazem parte de um acervo de maravilhas ocultas, como os tesouros das lendas, essas que eram transmitidas pela voz por gera\u00e7\u00f5es e s\u00f3 depois pousaram, modificadas, em volumes que ocuparam estantes.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia do livro, da literatura, \u00e9 habitar o esp\u00edrito. Vejam bem que n\u00e3o usei miss\u00e3o, fun\u00e7\u00e3o, \u201cpapel\u201d no sentido de incorporar um personagem. Porque \u00e9 dentro de n\u00f3s que uma hist\u00f3ria, uma teoria, uma lenda, uma par\u00e1bola, um texto, um poema, uma obra habita. N\u00e3o vamos procurar l\u00e1 na sala encerada, na biblioteca opressiva, nas prateleiras convulsas, nos arm\u00e1rios fechados a gl\u00f3ria de existir da literatura. Tamb\u00e9m n\u00e3o vamos procurar apenas nas conversas eruditas, embora estas possam nos levar pela m\u00e3o at\u00e9 onde nem imagin\u00e1vamos com nossa prec\u00e1ria leitura. N\u00e3o se trata de fazer pouco do ac\u00famulo ou das an\u00e1lises, pois tudo tem lugar nos livros.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os antigos tinham mais sabedoria, pois n\u00e3o era preciso o livro para que a literatura habitasse as gentes. Bastava um narrador em pra\u00e7a p\u00fablica, um poeta popular, um arauto, um aventureiro e suas mem\u00f3rias ditas em cima de um caixote, uma g\u00e1vea. N\u00e3o havia intermedi\u00e1rios, a n\u00e3o ser o autor da saga, que assim se transmitia diretamente para o cora\u00e7\u00e3o do povo. O livro no fim aprisionou o talento a sete chaves e ficou cada vez mais custoso abri-lo para ler, \u00e0 medida que as atra\u00e7\u00f5es da vida se multiplicaram e se tornaram mais acess\u00edveis.<\/p>\n<p>Quantos livros deixei pela metade? Quantos dormiram na minha estante, \u00e0s vezes por vinte anos, para enfim eu poder ser capturado por eles? Ler tudo \u00e9 imposs\u00edvel, devemos ler s\u00f3 o necess\u00e1rio e cada um sabe sua cota. Ao mesmo tempo me pergunto: e se eu n\u00e3o os tivesse \u00e0 m\u00e3o, o que seria de mim? Brutalizado pelo ex\u00edlio, eu amargaria a pena de viver tentando imaginar o imposs\u00edvel. Seria uma bruma de possibilidades e talvez eu quisesse, a certa altura, escrever algo para poder ter o que ler. Esse \u00e9 o segredo dos di\u00e1rios: todos os dias colocamos a vida nele para um dia podermos ler o que passou por n\u00f3s como um comboio. \u00c9 nossa obra favorita.<\/p>\n<p>Chegar\u00e1 esse tempo em que verei a paisagem do que escrevi. Mas isso vai se desenrolar l\u00e1 fora do trem. Dentro, sobre uma poltrona amig\u00e1vel, eu continuarei a abrir os grandes autores, os que jamais devem se distanciar de n\u00f3s. Porque se algo fica na terra, \u00e9 a literatura, semente de obras ao infinito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quantos livros deixei pela metade? Quantos dormiram na minha estante, \u00e0s vezes por vinte anos, para enfim eu poder ser capturado por eles? Ler tudo \u00e9 imposs\u00edvel, devemos ler s\u00f3 o necess\u00e1rio e cada um sabe sua cota. Ao mesmo tempo me pergunto: e se eu n\u00e3o os tivesse \u00e0 m\u00e3o, o que seria de mim? Brutalizado pelo ex\u00edlio, eu amargaria a pena de viver tentando imaginar o imposs\u00edvel. Seria uma bruma de possibilidades e talvez eu quisesse, a certa altura, escrever algo para poder ter o que ler. Esse \u00e9 o segredo dos di\u00e1rios: todos os dias colocamos a vida nele para um dia podermos ler o que passou por n\u00f3s como um comboio. \u00c9 nossa obra favorita.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=324"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":325,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions\/325"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}