{"id":3283,"date":"2012-01-15T16:39:53","date_gmt":"2012-01-15T18:39:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3283"},"modified":"2012-01-15T16:39:53","modified_gmt":"2012-01-15T18:39:53","slug":"gogol-a-hierarquia-social-na-origem-da-insania","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gogol-a-hierarquia-social-na-origem-da-insania","title":{"rendered":"GOGOL: A HIERARQUIA SOCIAL NA ORIGEM DA INS\u00c2NIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>No extraordin\u00e1rio Di\u00e1rio de um louco, de Gogol (1809 \u2013 1852), funcion\u00e1rio p\u00fablico pobre e med\u00edocre faz um esfor\u00e7o para se adaptar \u00e0 irracionalidade da hierarquia social por meio da l\u00f3gica das representa\u00e7\u00f5es. Ter um t\u00edtulo de nobreza, casar coma filha do chefe, usar uniforme de general s\u00e3o objetivos que poder\u00e3o lev\u00e1-lo \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da sua situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel . Mas ele se defronta com c\u00edrculos conc\u00eantricos indevass\u00e1veis de poder: a caratonha inflex\u00edvel e muda do manda-chuva, a persegui\u00e7\u00e3o do chefe de se\u00e7\u00e3o, o cerco bocejante dos outros funcion\u00e1rios que procuram cair nas boas gra\u00e7as do topo da pir\u00e2mide, a superficialidade e indiferen\u00e7a da donzela rica que o pobret\u00e3o cobi\u00e7a para subir na vida.<\/p>\n<p>Ele assim transgride a l\u00f3gica oficial por meio de seu pr\u00f3prio racioc\u00ednio e percep\u00e7\u00e3o desvairada. Sente-se superior por pretensamente pertencer \u00e0 nobreza. Vai atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre a beldade devassando a correspond\u00eancia dos seus cachorros, e n\u00e3o h\u00e1 nada mais hil\u00e1rio e impactante na literatura mundial do que a leitura dessas cartas mi\u00fadas que acabam sendo rasgadas furiosamente pelo protagonista, que se v\u00ea retratado nelas de maneira rid\u00edcula. Imagina-se com um uniforme de gala trespassado por faixa azul do generalato. Convence-se que \u00e9 o rei da Espanha no trono que est\u00e1 vago e por isso confecciona um manto com suas roupas pu\u00eddas e fora de moda.<\/p>\n<p>O insano est\u00e1 pleno de si, pois tem bases s\u00f3lidas para pensar assim. Ele v\u00ea que h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o generalizada nos tr\u00e2mites dos pap\u00e9is burocr\u00e1ticos. No fundo debocha da falsa erudi\u00e7\u00e3o do chefe, que ostenta grossos volumes estrangeiros que jamais l\u00ea. Sabe que a coquete n\u00e3o passa de um fr\u00edvola ignorante que s\u00f3 se preocupa com roupas caras e a vida mundana das festas. Todo o edif\u00edcio social est\u00e1 fundado em mentiras e seria o \u00fanico a dizer a verdade? Ele apenas guarda para si as revela\u00e7\u00f5es que saltam a seus olhos e reviram seu mundo interior, j\u00e1 que obedece a um circuito criminoso de divis\u00e3o de renda. Se faz parte dessa loucura, porque n\u00e3o atingir um patamar superior? Isso lhe parece justo.<\/p>\n<p>Ao se insubordinar contra a injusti\u00e7a, vendo que toda sua argumenta\u00e7\u00e3o bate de frente no muro que a riqueza levantou para se separar da pobreza, ele opta pela transgress\u00e3o,\u00fanico caminho que poder\u00e1 levar sua ilus\u00e3o a uma realidade. Acaba no hosp\u00edcio, onde \u00e9 tratado a chicote e aos pontap\u00e9s. Mas ele v\u00ea a nova moradia como a pr\u00f3pria Espanha sobre a qual deve reinar e os castigos f\u00edsicos como rituais tradicionais de inicia\u00e7\u00e3o ao trono. A megalomania, que \u00e9 a met\u00e1stase do ego desencadeada pela sedu\u00e7\u00e3o dos poderes, o devora at\u00e9 sua mais \u00edntima condi\u00e7\u00e3o, a de filho desamparado.<\/p>\n<p>\u00c9 implorando prote\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e que o funcion\u00e1rio p\u00fablico med\u00edocre termina seu di\u00e1rio, depois de n\u00e3o conseguir romper os pesados n\u00edveis da estratifica\u00e7\u00e3o social. O engessamento gran\u00edtico faz parte do sistema. Lembro dois exemplos recorrentes. O de Charles Chaplin, que foi tratado como inferior socialmente na Inglaterra para onde voltou para uma visita que imaginava gloriosa, pois tinha ficado milion\u00e1rio. E o do Poderoso Chef\u00e3o III, em que o mafioso descobre que \u00e9 apenas laranja de uma m\u00e1fia maior e que manda no mundo.<\/p>\n<p>Gogol, que faz parte da assombrosa safra de geniais escritores russos do s\u00e9culo 19, \u00e9 nosso contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s No extraordin\u00e1rio Di\u00e1rio de um louco, de Gogol (1809 \u2013 1852), funcion\u00e1rio p\u00fablico pobre e med\u00edocre faz um esfor\u00e7o para se adaptar \u00e0 irracionalidade da hierarquia social por meio da l\u00f3gica das representa\u00e7\u00f5es. 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