{"id":3287,"date":"2012-01-15T16:43:32","date_gmt":"2012-01-15T18:43:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3287"},"modified":"2012-01-15T16:43:32","modified_gmt":"2012-01-15T18:43:32","slug":"o-garoto-da-bicicleta-a-linhagem-do-estilo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-garoto-da-bicicleta-a-linhagem-do-estilo","title":{"rendered":"O GAROTO DA BICICLETA: A LINHAGEM DO ESTILO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Yasujir\u00f4 Ozu est\u00e1 na lista dos cineastas favoritos da dupla belga Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, que foi acusada de repetitiva no festival de Cannes do ano passado, apesar de ser vitorioso em Cannes, onde ganhou o Grande Pr\u00eamio do Juri com seu O Garoto da Bicicleta, considerado um dos melhores do ano pela cr\u00edtica. Ozu \u00e9 mestre da formata\u00e7\u00e3o de um estilo no cinema. O filme de Ozu que est\u00e1 na lista dos irm\u00e3os cineastas \u00e9 Floating Weeds( Ervas Flutuantes, de 1959), mas o drama do garoto (interpretado por Thomas Doret ) que tenta recuperar o pai (J\u00e9r\u00e9mie Renier) e acaba ganhando a dedicada m\u00e3e adotiva (a carism\u00e1tica C\u00e9cile De France ) est\u00e1 mais para Late Spring, do mesmo Ozu (Pai e Filha, de 1949). Pelo menos visualmente na cena que identifica o filme, o passeio de bicicleta no final.<\/p>\n<p>Note as duas imagens em destaque, de ambos os filmes. A alegria do passeio a dois \u00e9 a mesma. O mote tamb\u00e9m se aproxima: a rela\u00e7\u00e3o com os filhos. O cinema franc\u00eas \u00e9 o mais encantador de todos porque jamais abre m\u00e3o do seu foco na humanidade dos personagens e situa\u00e7\u00f5es. Tudo est\u00e1 a servi\u00e7o das pessoas. Identific\u00e1-las, reportar seus dramas e alegrias, pensar sobre suas dificuldades, eis a estrat\u00e9gia da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica da Fran\u00e7a, centro mundial do humanismo em todos os tempos. Dificilmente temos a oportunidade de ver nos filmes da Fran\u00e7a um lugar comum do cinema americano: um grupo ninja querendo trucidar o semelhante enquanto o imp\u00e9rio digital manipulado por assassinos profissionais, oficiais e impunes levam o espectador para aventuras sem sentido.<\/p>\n<p>Aqui vemos o garoto se expressando por meio da bicicleta, \u00fanico la\u00e7o afetivo com o pai ausente que o abandonou e colocou \u00e0 venda o presente que tinha dado, exatamente a valiosa bike, para assim poder fugir e deixar o filho no orfanato. A bicicleta \u00e9 extens\u00e3o do gesto e do corpo do menino, que se entrega \u00e0 depress\u00e3o apesar do esfor\u00e7o da m\u00e3e adotiva. Ele cai na armadilha da delinq\u00fc\u00eancia, que comparada a que temos no Brasil \u00e9 de uma ingenuidade a toda prova. Os agressores se arrependem, os culpados s\u00e3o aprisionados e a justi\u00e7a faz a media\u00e7\u00e3o que coloca tudo nos eixos. Nada mais ut\u00f3pico se formos comparar com nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>As cores fortes e b\u00e1sicas definem a identidade dos personagens. O garoto veste sempre camiseta ou casaco vermelho, numa cl\u00e1ssica refer\u00eancia \u00e1 orfandade de Le Balon Rouge, de Albert Lamorisse, premiado em Cannes e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1956. A mulher veste azul, cor da contemporiza\u00e7\u00e3o. O pai fuj\u00e3o, ajudante de cozinha, o branco da neutralidade e da indiferen\u00e7a. Em todas as cenas, o foco em pessoas desamparadas: a mulher solit\u00e1ria que adota um \u00f3rf\u00e3o, o garoto que perdeu o pai, a av\u00f4 que n\u00e3o consegue se mexer na cama, o delinq\u00fcente juvenil que procura parceiros para seus golpes, o pai que busca recome\u00e7ar a vida em outro lugar longe do menino.<\/p>\n<p>Os dois cineastas belgas consolidam seu estilo, como Ozu fez ao longo de muitos filmes. N\u00e3o se trata de repeti\u00e7\u00e3o, mas de lapida\u00e7\u00e3o de uma linguagem, para que ela se torne identific\u00e1vel entre muitas outras, como falava Mario Quintana da poesia. Em Ozu, temos o ascetismo da cultura japonesa, r\u00edgida em seus gestos e h\u00e1bitos, que experimenta sempre a transgress\u00e3o e a decad\u00eancia. Nos irm\u00e3os Dardenne, a falta de emo\u00e7\u00e3o na vida francesa contamina a todos, mas a trama que se desenrola acaba demolindo as resist\u00eancias. O choro convulso de C\u00e9cile de France, o arrependimento do menino ou a explos\u00e3o de raiva que o atinge depois de um crime s\u00e3o momentos cruciais deste belo filme, em que a emo\u00e7\u00e3o sepultada aflora e se contrap\u00f5e ao ambiente formatado para a anula\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>Por ser a busca permanente do humano, e a sua exposi\u00e7\u00e3o em todas as formas, co o cinema franc\u00eas consegue nos fisgar pela import\u00e2ncia e compet\u00eancia, se contrapondo \u00e0 avalanche de superficialidades e baixarias que a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica despeja todos os anos sobre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Yasujir\u00f4 Ozu est\u00e1 na lista dos cineastas favoritos da dupla belga Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, que foi acusada de repetitiva no festival de Cannes do ano passado, apesar de ser vitorioso em Cannes, onde ganhou o Grande Pr\u00eamio do Juri com seu O Garoto da Bicicleta, considerado um dos melhores do ano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3287"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3287"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3289,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3287\/revisions\/3289"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}