{"id":3343,"date":"2012-01-27T10:50:45","date_gmt":"2012-01-27T12:50:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3343"},"modified":"2012-01-27T10:50:45","modified_gmt":"2012-01-27T12:50:45","slug":"the-tree-of-life-a-epifania-do-erro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/the-tree-of-life-a-epifania-do-erro","title":{"rendered":"THE TREE OF LIFE: A EPIFANIA DO ERRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A fonte do sofrimento da cultura americana \u00e9 o amor masculino mal resolvido, que tem na origem a fam\u00edlia patriarcal bruta que exige ao mesmo tempo amor enquanto imp\u00f5e-se pela viol\u00eancia. O her\u00f3i americano \u00e9 aquele que procura vingar-se do seu Outro \u2013 o vil\u00e3o, representa\u00e7\u00e3o do desamor ao pai \u2013 e para isso cerca-se do irm\u00e3o, o companheiro fiel, que \u00e9 seu apoio no perd\u00e3o \u00e0 brutalidade paterna. Terrence Malick faz uma prospec\u00e7\u00e3o longa, delirante e bel\u00edssima dessa trag\u00e9dia nacional \u2013 que ele confunde com o destino de toda humanidade, j\u00e1 que faz parte de um imp\u00e9rio que se considera a \u00fanica na\u00e7\u00e3o sobre a terra. Em A \u00c1rvore da Vida (2011) prop\u00f5e o resgate de uma rela\u00e7\u00e3o truncada e perdida n\u00e3o para conden\u00e1-la mas transformar todos os erros numa epifania, numa celebra\u00e7\u00e3o de almas perdidas que se reencontram como num evento batista fundamentalista.<\/p>\n<p>Narrado o tempo todo, o filho mais velho (Sean Penn\/ Hunter McCracken) que perde o irm\u00e3o procura nos confins do universo uma liga\u00e7\u00e3o espiritual com essa perda para n\u00e3o sucumbir ao vazio da vida, representado pelo ambiente hiperrealista da urbanidade americana clean e mesquinha. A pista \u00e9 a natureza. Primeiro, o cosmo, com suas assombrosas revela\u00e7\u00f5es feitas pelos telesc\u00f3pios digitais. Depois, os quintais e jardins do ver\u00e3o, em que a adolesc\u00eancia reprimida se ressente da aprova\u00e7\u00e3o paterna (Brad Pitt) e ensaia a transgress\u00e3o, sob a permiss\u00e3o materna (Jessica Chastain) que \u00e9 submissa ao patriarca mas tamb\u00e9m se insurge na aus\u00eancia deste.<\/p>\n<p>A natureza desvirtuada (a grama trabalhada com aspereza nas rela\u00e7\u00f5es) \u00e9 a fam\u00edlia criada na viol\u00eancia, nas imposi\u00e7\u00f5es das vontades dos adultos, num sistema mascarado de educa\u00e7\u00e3o para a vida. O pai se sente um fracassado como subalterno e empregado, m\u00fasico frustrado, e tenta incutir a coragem nos filhos, mas s\u00f3 consegue gerar o \u00f3dio. A impunidade do chefe da fam\u00edlia com seus crimes di\u00e1rios leva a fam\u00edlia \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o. O filho que parte e morre longe \u2013 provavelmente numa guerra, n\u00e3o fica claro no filme \u2013 e o primog\u00eanito que se refugia numa carreira e na meia idade quer de volta os la\u00e7os que o formaram. \u00c9 imposs\u00edvel viver no isolamento e no eterno presente. \u00c9 preciso n\u00e3o apenas a mem\u00f3ria, a lembran\u00e7a, mas a reencarna\u00e7\u00e3o dos gestos, a recupera\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, o reviver dos momentos. A volta do beijo e do abra\u00e7o e tamb\u00e9m da surra.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto desse diretor t\u00e3o megal\u00f4mano e que todos consideram g\u00eanio e que com esse filme arrebatou a Palma de Ouro em Cannes. Acho-o pretensioso e todo o seu esfor\u00e7o nas imagens c\u00f3smicas \u00e9 para chegar perto de Kubrick em 2001, naquele final lis\u00e9rgico que todos admiram e n\u00e3o esquecem (inclusive h\u00e1 imagens absolutamente iguais nos dois filmes). Mas Kubrick sim era g\u00eanio, Malick n\u00e3o. Quer ser, mas n\u00e3o \u00e9. Torra de tanta introspec\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 raso na concep\u00e7\u00e3o e objetivos. Voc\u00ea n\u00e3o pode justificar os erros s\u00f3 porque pertence a uma cultura hegem\u00f4nica. A fam\u00edlia fundada no amor masculino imposto na porrada n\u00e3o funciona, acaba no que sabemos bem: homens vazados de sentimento, endurecidos ou ent\u00e3o frouxos no envolvimento que deveria ter com o g\u00eanero feminino.<\/p>\n<p>A mulher \u00e9 a grande outsider do cinema americano. Mae West, Marylin, Garbo, Liz, Natalie, Vivien s\u00e3o todas protagonistas e magn\u00edficas estrelas. Mas o foco \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os fortes, Batman e Robin, o mocinho e seu companheiro, o her\u00f3i e o vil\u00e3o,e aqui neste filmes, nos irm\u00e3os que cresceram \u00e0 sombra do tac\u00e3o paterno e acabam tendo que voltar ao in\u00edcio dos tempos para poder se encontrar. Mas \u00e9 um territ\u00f3rio m\u00edtico, assim como a fam\u00edlia. Em ambos, n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. O n\u00facleo familiar \u00e9 fonte de desamor e a celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma indulg\u00eancia dos vencedores, os que perdem tudo ao se declarar os primeiros em tudo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso paci\u00eancia para aguentar os intermin\u00e1veis minutos deste filme, que come\u00e7a no choque das estrelas e passa at\u00e9 pelos dinossauros (s\u00e9rio, eles aparecem no filme) e desaguam nos edif\u00edcios exuberantes da Am\u00e9rica hegem\u00f4nica. Mas como todo mundo acha o m\u00e1ximo, \u00e9 preciso ver para crer. Eu decidi n\u00e3o gostar, mas algo sempre se tira de tudo, principalmente do que nos desagrada.<\/p>\n<p><em>Al\u00e9m do competente Brad Pritt (sempre bom), a concentrada e talentosa Jessica Chastain, temos essa grande revela\u00e7\u00e3o que \u00e9 o garoto Hunter McCracken, o Sean quando jovem. Ali\u00e1s, bem melhor do que o pr\u00f3prio Sean, que s\u00f3 faz figura\u00e7\u00e3o. Sean \u00e9 o tipo cansado de ser o m\u00e1ximo. Excelente em muitos filmes, mas pregui\u00e7oso neste.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A fonte do sofrimento da cultura americana \u00e9 o amor masculino mal resolvido, que tem na origem a fam\u00edlia patriarcal bruta que exige ao mesmo tempo amor enquanto imp\u00f5e-se pela viol\u00eancia. 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