{"id":3346,"date":"2012-01-27T10:51:56","date_gmt":"2012-01-27T12:51:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3346"},"modified":"2012-01-27T10:51:56","modified_gmt":"2012-01-27T12:51:56","slug":"melancholia-o-apocalipse-de-lars-von-trier","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/melancholia-o-apocalipse-de-lars-von-trier","title":{"rendered":"MELANCHOLIA: O APOCALIPSE DE LARS VON TRIER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O Terceiro Mundo prev\u00ea o Apocalipse, o Primeiro conta como foi. O de Von Trier em Melancholia (2011) \u00e9 provocado por uma ilus\u00e3o: a de que a depress\u00e3o, a doen\u00e7a do viver, se afasta porque assim determinou a ci\u00eancia. O fato \u00e9 que ela aparentemente vai embora, mas se aproxima de maneira letal para acabar com tudo, desmascarando as certezas e mostrando a inutilidade da fuga m\u00edstica ou do resgate das origens. \u00c9 pat\u00e9tica a cena em que o resto da fam\u00edlia se refugia num esqueleto de cabana ind\u00edgena, se d\u00e1 as m\u00e3os para enfrentar o aniquilamento. N\u00e3o funciona, claro.<\/p>\n<p>Von Trier trabalha com design e publicidade. Confina seus personagens em espa\u00e7os m\u00edticos desprovidos de magia, onde a racionalidade extrema \u00e9 v\u00edtima do caos dos sentimentos. Fundado, na primeira parte, em Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman, mas num momento anterior \u00e0 crise do conv\u00edvio (neste, a ruptura \u00e9 na pr\u00f3pria cerim\u00f4nia) ele dedica esse trecho do filme \u00e0 origem da depress\u00e3o: um casamento que fracassa a partir da maldi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada pela matriarca (Charlote Rampling), separada do ex-marido (John Hurt, soberbo como sempre). N\u00e3o \u00e9 a m\u00e1 vontade da m\u00e3e em rela\u00e7\u00e3o ao evento o motivo principal, mas \u00e9 sua chispa, o gatilho que desencadeia a prolifera\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n<p>A partir do discurso opressivo da m\u00e3e, a noiva (Kirsten Dunst) se entrega \u00e0 tristeza profunda, que acaba imobilizando-a, destruindo seu emprego e o pr\u00f3prio casamento. A noiva \u00e9 profissional de publicidade e o tempo todo \u00e9 perseguida pelo patr\u00e3o e padrinho (Stellan Skarsg\u00e5rd ), que quer arrancar dela a id\u00e9ia central de uma campanha. A lucidez faz com que a noiva rompa os la\u00e7os com sua profiss\u00e3o. Entrega-se \u00e0 amargura e ao imobilismo. \u00c9 amparada pela irm\u00e3 (Charlotte Gainsbourg), aparentemente normal, casada com um milion\u00e1rio sovina (Kiefer Sutherland) e com um filho pr\u00e9-adolescente. Mas \u00e9 tudo m\u00e1scara. O filme revela que a depressiva no fundo tem a chave para a consci\u00eancia dos limites onde est\u00e3o metidos, enquanto seus parentes protetores acabam sucumbindo \u00e0 falta de sa\u00edda e \u00e0 tristeza.<\/p>\n<p>\u00c9 o mundo de Von Trier que acabou. Mant\u00e9m-se pela opress\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica, numa sobrevida criminosa e ao mesmo tempo suicida. O caos da zona do euro \u00e9 s\u00f3 um sintoma da doen\u00e7a terminal. Mas eles n\u00e3o d\u00e3o o bra\u00e7o a torcer. Acham que toda a humanidade tem o dever de segui-los, de desaparecer com eles. Se identificam cosmicamente com o destino da terra, quando s\u00e3o apenas uma parte dela, a pior. Mas, poder\u00e3o dizer, a depress\u00e3o atinge todos os povos indistintamente. Certo, mas a que levou ao aniquilamento \u00e9 exclusivamente americano-europeu. O resto do mundo est\u00e1 na periferia e pode ir junto, mas n\u00e3o faz parte indissol\u00favel do problema.<\/p>\n<p>Aqui deste lado do balc\u00e3o, somos testemunhas do mal que aprontaram. Como j\u00e1 destru\u00edram tudo, busca-se em culturas perif\u00e9ricas, como a dos maias, pistas de um futuro (e agora atual) apocalipse. Mas est\u00e1 tudo dentro das pessoas. O planeta advent\u00edcio que amea\u00e7a a terra \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o desse imagin\u00e1rio cevado na explora\u00e7\u00e3o. A suntuosidade e o desperd\u00edcio do casamento fracassado, onde uma enorme limousine n\u00e3o encontra espa\u00e7o na estradinha de terra, e cada cap\u00edtulo do evento uma tortura, revelam a civiliza\u00e7\u00e3o condenada do lixo espiritual entre cristais e sup\u00e9rfluos (\u201cquantos buracos de golfe n\u00f3s dispomos?\u201d).<\/p>\n<p>Costumo dizer que confundem den\u00fancia com celebra\u00e7\u00e3o. Von Trier se entrega a uma infec\u00e7\u00e3o c\u00f3smica-psicanal\u00edtica audiovisual, a exemplo de Terrence Malick em A \u00c1rvore da Vida. Agora parece moda, misturar Kubrick de 2001 com Kubrick de O Iluminado. No caso de Von Trier, em alguns momentos do filme, como se Bergman morasse num sputinik. Poderiam ser menos pretensiosos, j\u00e1 que s\u00e3o t\u00e3o brilhantes. Imagino o porre dos espectadores de Cannes que premiaram estes dois filmes. Acho que n\u00e3o conseguiram ver at\u00e9 o fim e deram nota m\u00e1xima para n\u00e3o se comprometer. \u00c9 como o um livr\u00e3o gigantesco latino-americano, no auge do boom dessa literatura nos anos 70, que os jurados n\u00e3o leram mas premiaram pois poderia ser uma obra-prima. Vai saber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O Terceiro Mundo prev\u00ea o Apocalipse, o Primeiro conta como foi. O de Von Trier em Melancholia (2011) \u00e9 provocado por uma ilus\u00e3o: a de que a depress\u00e3o, a doen\u00e7a do viver, se afasta porque assim determinou a ci\u00eancia. 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