{"id":3348,"date":"2012-01-27T10:53:00","date_gmt":"2012-01-27T12:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3348"},"modified":"2012-01-27T10:53:00","modified_gmt":"2012-01-27T12:53:00","slug":"pina-de-wim-wenders-a-forca-do-gesto-fragilizado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pina-de-wim-wenders-a-forca-do-gesto-fragilizado","title":{"rendered":"PINA, DE WIM WENDERS: A FOR\u00c7A DO GESTO FRAGILIZADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O corpo desenhado pela dan\u00e7a cl\u00e1ssica representa n\u00e3o apenas o belo, mas a perman\u00eancia, a eternidade do gesto cristalizado num conceito de arte e transcend\u00eancia. O gesto extra\u00eddo na coreografia de Pina Bausch (1940-2009) \u00e9 o oposto: a escassez, a precariedade,a fragilidade do corpo datado e criado para desaparecer. Paradoxalmente, essa \u00e9 a sua for\u00e7a. A morte do corpo n\u00e3o est\u00e1 na arte radical da den\u00fancia e celebra\u00e7\u00e3o pelo avesso de Pina, mas sim no imut\u00e1vel conceito da dan\u00e7a tradicional. Ao extrair o gesto da queda de corpos que buscam, no desespero, a verdade tocando em locais sagrados como a mem\u00f3ria, o medo, o sonho e a dor, Pina se contrap\u00f5e ao engessamento imposto ao corpo pela realidade da sociedade industrial, e seus elementos de sociedade do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Esse contraponto ou identifica\u00e7\u00e3o de contemporaneidades entre a dan\u00e7a alucinada e a urbanidade \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o que Wim Wenders faz da sua admira\u00e7\u00e3o. Para mostrar o impacto que a dan\u00e7a coreografada por Pina teve sobre sua percep\u00e7\u00e3o, Wenders ambienta o gesto desesperado no caos de ind\u00fastrias, tr\u00e2nsito, ruas, edif\u00edcios. E ao levar essa mesma dan\u00e7a para a natureza in\u00f3spita de deserto e pedras e montanhas, ele procura revelar a origem da inspira\u00e7\u00e3o que levou a grande artista a formatar uma obra de densidade demolidora, que por meio da incorpora\u00e7\u00e3o, da celebra\u00e7\u00e3o e a den\u00fancia procura o que restou de humano no massacre social.<\/p>\n<p>Os depoimentos dos dan\u00e7arinos mostram rostos concentrados com o \u00e1udio em off de suas falas, como a provar o deslocamento da dan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra. O gesto \u00e9 a palavra muda, t\u00e3o sugestivo quanto ela, funcionando tamb\u00e9m como s\u00ednteses de realidades interiores. \u201cSeja mais louca, me assuste, porque voc\u00ea tem medo de mim?\u201d As lembran\u00e7as dos toques de Pina transparecem nos depoimentos de forma minimalista e significativa. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer muito para atingir a ess\u00eancia. Ela mostrou que eu estava com medo, diz um dan\u00e7arino depois de confessar que tentou mostrar tudo de si , sem causar nenhuma impress\u00e3o na diretora. Ela conseguiu enxergar as limita\u00e7\u00f5es dele por meio da observa\u00e7\u00e3o calada e certeira.<\/p>\n<p>Os gestos sociais engessados est\u00e3o representados em cenas dilacerantes: a coreografia coletivo de sal\u00e3o, que lembram os eventos sociais,a s reuni\u00f5es; a manipula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas por meio da pessoa que formata abra\u00e7os e beijos no casal; a anima\u00e7\u00e3o fe\u00e9rica entre machos e f\u00eameas que n\u00e3o se tocam, apenas expelem suas manifesta\u00e7\u00f5es an\u00edmicas de maneira brutal e invasiva; tudo isso \u00e9 dan\u00e7a, que usa situa\u00e7\u00f5es recorrentes, como a queda dos corpos, principalmente os das mulheres. No fundo, \u00e9 a mulher a grande protagonista desta arte definitiva do nosso tempo. Por meio de corpos anti-est\u00e9ticos, ao mesmo tempo belos, angulosos e l\u00edricos, a dan\u00e7a mostra gestos extremos femininos \u00e0 merc\u00ea de in\u00fameras vontades e manipula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pris\u00f5es de bra\u00e7os e pernas, mergulhos em espa\u00e7os ex\u00edguos, passos tr\u00eamulos, a mulher em Pina \u00e9 entrega por meio da Queda. E que supera o que entendemos de humano ou vanguarda. Pois a dan\u00e7a vai al\u00e9m da conta, ultrapassa as fronteiras do conhecido e do esperado. Os espectadores s\u00e3o surpreendidos por esse filme que \u00e9 mais do que dan\u00e7a filmada, faz parte tamb\u00e9m agora dos gestos extra\u00eddos por Pina no redemoinho da vida exposta e invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O fato de Pina ter morrido enquanto Wenders estava em pleno projeto \u00e9 a radicaliza\u00e7\u00e3o dessa met\u00e1fora da perman\u00eancia de uma arte que se prop\u00f5e datada, sintonizada com o tempo, mas que acaba n\u00e3o s\u00f3 revelando suas v\u00edsceras, mas transpondo seus limites. N\u00e3o h\u00e1 mais a presen\u00e7a f\u00edsica da protagonista, mas sua arte \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de uma corrente poderosa de cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de nada sublime, apesar de grandes momentos de lirismo. O impacto \u00e9 tamanho que somos obrigados a abrir m\u00e3o de palavras que o definam.<\/p>\n<p>\u00c9 desesperador assistir essa sequ\u00eancia de cenas mortais, e \u00e9 ao mesmo tempo libertador. Depois de Pina, nosso gesto adquire autoconsci\u00eancia e \u00e9 capaz de mudar o mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O corpo desenhado pela dan\u00e7a cl\u00e1ssica representa n\u00e3o apenas o belo, mas a perman\u00eancia, a eternidade do gesto cristalizado num conceito de arte e transcend\u00eancia. O gesto extra\u00eddo na coreografia de Pina Bausch (1940-2009) \u00e9 o oposto: a escassez, a precariedade,a fragilidade do corpo datado e criado para desaparecer. 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