{"id":3350,"date":"2012-01-27T10:54:12","date_gmt":"2012-01-27T12:54:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3350"},"modified":"2012-01-27T10:54:12","modified_gmt":"2012-01-27T12:54:12","slug":"amor-e-liberdade-em-jane-eyre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/amor-e-liberdade-em-jane-eyre","title":{"rendered":"AMOR E LIBERDADE EM JANE EYRE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Criada em pris\u00f5es &#8211; como a casa adotiva onde foi rejeitada, o orfanato onde foi espancada, a situa\u00e7\u00e3o social subalterna da qual era imposs\u00edvel escapar, os castelos ermos onde n\u00e3o via praticamente ningu\u00e9m \u2013 Jane Eyre contava apenas com o sentimento, sua b\u00fassola para uma vida honrada e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade. No maravilhoso filme dirigido pelo estreante Cary Fukunaga, que extrapola em compet\u00eancia t\u00e9cnica e de dire\u00e7\u00e3o de atores, Jane \u00e9 interpretada por Mia Wasikowska, conhecida por seu papel em Alice in Wonderland. Seu grande amor, o nobre Fairfaix Rochester, pelo alem\u00e3o Michael Fassbinder. Ambos detonam, com o roteiro e os di\u00e1logos extra\u00eddos da novela de Chartlote Bront\u00e9e e adaptados pela excelente dramaturgia de Moira Buffini.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma hist\u00f3ria de isolamento e n\u00e9voa, de cora\u00e7\u00f5es secos e crueldade, de estratifica\u00e7\u00e3o social pesada. Jane Eyre trafega por esse mundo sinistro sem nenhuma defesa, a n\u00e3o ser sua concentra\u00e7\u00e3o no que realmente sente e no seu preparo e intelig\u00eancia. A \u00f3rf\u00e3 de fam\u00edlia nobre que desce na escala social virando professora de filhos de camponeses e acaba mais tarde como herdeira de uma fortuna, jamais se deixa levar pelas apar\u00eancias e procura, no meio da neblina, da fuma\u00e7a dos inc\u00eandios, da chuva, da neve e do vento, a clareza que precisa para continuar viva. Acaba encontrando o amor da sua vida por meio do di\u00e1logo com seu patr\u00e3o, que a pressiona de todas as formas, num jogo intenso de gato e rato que acaba em paix\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>O amor leva \u00e0 liberdade. \u00c9 o par\u00e2metro para recusar a humilha\u00e7\u00e3o imposta pela classe social, o casamento arranjado, a rela\u00e7\u00e3o passageira, o impulso do desejo e todas as armadilhas que sempre desgra\u00e7am uma pobre mo\u00e7a no s\u00e9culo 19. Charlote Bront\u00e9e disp\u00f5e do g\u00eanio narrativo, pois consegue costurar uma hist\u00f3ria que tinha tudo para ser um drama comum num \u00e9pico da dignidade humana, focada na criatura mais apropriada para passar pelo teste: a jovem mulher s\u00f3 e pobre, que se sustenta gra\u00e7as ao seu conhecimento e dedica\u00e7\u00e3o e que, ao encontrar o amor, descobre que ali est\u00e1 a fonte n\u00e3o apenas do prazer de sentir viva, mas de continuar viva, j\u00e1 que a secura do cora\u00e7\u00e3o, onde est\u00e1 atolada a nobreza e o povo, \u00e9 a morte certa.<\/p>\n<p>O apuro do cen\u00e1rio, todo ele fundado na luz e composi\u00e7\u00e3o de grandes pintores, lembrando muito a t\u00e9cnica de Vermeer e focando na crueza e hostilidade da paisagem como representa\u00e7\u00e3o da vida interna dos personagens, faz do filme uma flor de arrebatamento. Mas sem a intensidade das falsidades amorosas ou a superficialidade. Na magn\u00edfica interpreta\u00e7\u00e3o da equipe \u2013 minimalista, sussurrada &#8211; destaca-se, al\u00e9m do casal principal, a antol\u00f3gica Judi Dench, como a governanta do castelo onde Jane \u00e9 tutora de uma pr\u00e9-adolescente protegida pelo nobre. Judi \u00e9 a refer\u00eancia do mundo est\u00e1vel com o qual Jane precisa lidar e se conformar. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o entre o cora\u00e7\u00e3o da protagonista e seu alvo.<\/p>\n<p>O gesto voluntarioso que liberta a personagem da sua pris\u00e3o, gerada por uma desilus\u00e3o amorosa, \u00e9 revertido mais tarde pela for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o do amor eterno, que a leva de volta ao cora\u00e7\u00e3o da pessoa amada. A extrema emo\u00e7\u00e3o, intensidade e concentra\u00e7\u00e3o do filme conseguiram me abalar bastante. N\u00e3o posso mais ver filmes como Jane Eyre. Posso morrer no final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Criada em pris\u00f5es &#8211; como a casa adotiva onde foi rejeitada, o orfanato onde foi espancada, a situa\u00e7\u00e3o social subalterna da qual era imposs\u00edvel escapar, os castelos ermos onde n\u00e3o via praticamente ningu\u00e9m \u2013 Jane Eyre contava apenas com o sentimento, sua b\u00fassola para uma vida honrada e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade. 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