{"id":3352,"date":"2012-01-27T10:55:12","date_gmt":"2012-01-27T12:55:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3352"},"modified":"2012-01-27T10:55:12","modified_gmt":"2012-01-27T12:55:12","slug":"o-artista-o-cinema-em-busca-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-artista-o-cinema-em-busca-de-si-mesmo","title":{"rendered":"O ARTISTA: O CINEMA EM BUSCA DE SI MESMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O recente fiasco do SOPA &#8211; Stop Online Piracy Acta, do senado americano, rejeitado pelo presidente Obama, projeto anti-internet que provocou pesada rea\u00e7\u00e3o em todo mundo, \u00e9 como se os ludistas, os velhos quebradores de m\u00e1quinas do in\u00edcio da era industrial, estivessem no poder. Se esse tipo de censura vencer, seria como se at\u00e9 hoje estiv\u00e9ssemos na era do filme mudo. Hoje, uma obra como O Artista, resgata aquele momento de ruptura e mudan\u00e7a, um tema recorrente no cinema, como prova grandes obras como Dan\u00e7ando na Chuva ou Sunset Boulevard.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria se adaptou n\u00e3o apenas \u00e0 tecnologia, mas aos artistas que emergiram com o cinema falado. N\u00e3o procurou impor os velhos \u00eddolos nem proibiu o som. Pode parecer absurdo pensar nisso hoje, mas \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo. J\u00e1 existe tecnologia suficiente para a arte ser disseminada sem obst\u00e1culos, multiplicando sua repercuss\u00e3o junto ao p\u00fablico. Quem quiser ver no cinema vai, quem quiser ver em casa v\u00ea. N\u00e3o \u00e9 preciso intermedi\u00e1rios, nem mais locadoras que alugam disquetes que precisam ser devolvidos, no maior saco da par\u00f3quia. Ao mesmo tempo, pode-se conviver com as t\u00e9cnicas abandonadas, como \u00e9 o caso da ressurrei\u00e7\u00e3o cult do vinil ou de um filme mudo como O Artista, de Michel Hazanavicius, com Jean Dujardin, B\u00e9r\u00e9nice Bejo e John Goodman .<\/p>\n<p>Diz o cineasta que usou todas as t\u00e9cnicas da \u00e9poca silenciosa e acreditamos nele, embora eu sempre ache que algumas coisas s\u00e3o ditas mais em fun\u00e7\u00e3o do marketing, como \u00e9 o caso do Daniel Day Lewis que teria contra\u00eddo uma infec\u00e7\u00e3o quando fazia um personagem do s\u00e9culo 19 e quase morreu porque na \u00e9poca abordada n\u00e3o existia antibi\u00f3tico. Conta outra. Mas tudo bem. Desde o dia em que todos acreditaram no Tom Cruise correndo em dire\u00e7\u00e3o ao abismo do alto de um pr\u00e9dio de dois mil andares, tudo pode ser dito e acreditado.<\/p>\n<p>Mas faz de conta que \u00e9 verdade, trata-se do uso das t\u00e9cnicas antigas, s\u00f3 que a obra, o resultado, fica perfeita para passar nos cinemas mais sofisticados tecnologicamente e vale tamb\u00e9m para o criminalizado download. N\u00e3o se elimina uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica com atos voluntariosos, m\u00e1fias empedernidas ou crime organizado \u2013 no m\u00e1qximo, \u00e9 a bandidagem que precisa mudar, acompanhar o novo andar da carruagem.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 o recado do filme, que usa todos os clich\u00eas narrativos poss\u00edveis: \u00e9 poss\u00edvel conviver com tecnologias antigas, pois ultrapassamos a rigidez dos vanguardismos. Hoje somos soma de tudo na cultura. Tanto o livro artesanal, quanto o de capa dura industrial convivem tranquilamente com o e-book. O vinil com o cd e o MP3 e assim por diante. H\u00e1 ruptura, mas n\u00e3o h\u00e1 funeral. Muda-se, mexe-se, imp\u00e9rios caem, outros nascem, faze-se e desfaz-se todo tipo de fortuna. Mas tudo acontece ao mesmo tempo aqui e agora.<\/p>\n<p>Numa das cenas, o ator decadente que foi rejeitado na era sonora coloca fogo no seu acervo, numa refer\u00eancia expl\u00edcita ao visual sinistro de Faherenheit 451, de Truffaut. Mas salva um recorte de celul\u00f3ide, como em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore . Neste, os peda\u00e7os de filme formavam uma sequ\u00eancia de beijos. Em O Artista,s\u00e3o as v\u00e1rias cenas em que o casal dan\u00e7a pela primeira vez. E como em Dan\u00e7ando na Chuva, \u00e9 o musical, o apogeu do som, que abre uma grande janela para a ind\u00fastria que precisava se reinventar. Essa sa\u00edda torna o filme encantador, apesar dos lugares comuns. A reprodu\u00e7\u00e3o das coreografias de Top Hat, de 1935, com Fred Astaire e Ginger Rogers, pelo casal Jean Dujardin e B\u00e9r\u00e9nice Bejo, \u00e9 mais do que uma homenagem, \u00e9 uma forma de recuperar a pegada e o ritmo do in\u00edcio da era sonora, de contar a Hist\u00f3ria do cinema e fazer parte dela.<\/p>\n<p>O Artista \u00e9, como todos os outros, um filme sobre cinema. Mas de maneira muito mais expl\u00edcita do que de costume. H\u00e1 filmes dentro do filme, h\u00e1 compara\u00e7\u00f5es entre a diversidade das interpreta\u00e7\u00f5es, h\u00e1 o produtor, o cineasta, o roteiro, os holofotes, as estr\u00e9ias, os camarins, o estrelado, os out-doors, o luxo, a riqueza,, ao drama, a ostenta\u00e7\u00e3o e a decad\u00eancia, como em Sunset Boulevard, de Billy Wilder, que \u00e9 sobre o mesmo assunto.<\/p>\n<p>Tudo a que tem direito uma obra que a homenagem \u00e0 S\u00e9tima Arte e como tal dever\u00e1 ser premiado. N\u00e3o para incentivar uma enxurrada de filmes mudos, pois o tempo n\u00e3o anda para tr\u00e1s. Mas para reconhecer o m\u00e9rito da arte que se volta para si mesma para reencontrar sua ess\u00eancia: o esp\u00edrito que cativa os povos e nos faz chorar ou saltar da cadeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O recente fiasco do SOPA &#8211; Stop Online Piracy Acta, do senado americano, rejeitado pelo presidente Obama, projeto anti-internet que provocou pesada rea\u00e7\u00e3o em todo mundo, \u00e9 como se os ludistas, os velhos quebradores de m\u00e1quinas do in\u00edcio da era industrial, estivessem no poder. 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