{"id":3354,"date":"2012-01-27T10:56:07","date_gmt":"2012-01-27T12:56:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3354"},"modified":"2012-01-27T10:58:39","modified_gmt":"2012-01-27T12:58:39","slug":"um-conto-chines-solidao-nao-e-obra-do-acaso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-conto-chines-solidao-nao-e-obra-do-acaso","title":{"rendered":"UM CONTO CHIN\u00caS: SOLID\u00c3O N\u00c3O \u00c9 OBRA DO ACASO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Fam\u00edlia \u00e9 na\u00e7\u00e3o. Quando o n\u00facleo familiar se dispersa, as fronteiras s\u00e3o invadidas, a soberania se esvai e o pa\u00eds pode desaparecer. Hoje, n\u00e3o existe nacionalidade sem desconforto. Viol\u00eancia, mis\u00e9ria, corrup\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00e3o, guerra desestabilizam a cidadania expulsa de suas origens. \u00c9 preciso resgat\u00e1-las no continente desconhecido, ou livrar-se da carga do passado que engessa as rela\u00e7\u00f5es e impede a renova\u00e7\u00e3o familiar. Esse contraponto, entre o jovem chin\u00eas que vai \u00e0 procura do patriarca para poder ter um lugar no mundo, j\u00e1 que seu projeto de casar foi interrompido, e o argentino de meia idade, que usa a orfandade para fugir do casamento, faz de Um Conto Chin\u00eas (2011), de Sebasti\u00e1n Borensztein, uma obra intensa.<\/p>\n<p>O filme confirma o fato de o cinema argentino ser uma j\u00f3ia da cultura contempor\u00e2nea, uma arte em busca da serenidade. Que procura costurar a na\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ada intervindo onde interessa: no cora\u00e7\u00e3o tornado seco que um dia, por for\u00e7a do destino e da solidariedade vocacionada, aflora para colocar as coisas no lugar. Nele, Ricardo Darin faz o papel do solteir\u00e3o solit\u00e1rio e rabugento, Muriel Santa Ana a mulher que o ama e tenta conquist\u00e1-lo e Ignacio Huang o migrante chin\u00eas que foge de uma trag\u00e9dia pessoal no seu pa\u00eds e fica perdido na viagem \u00e0 Argentina.<\/p>\n<p>O personagem do g\u00eanio Darin lembra o protagonista de O Homem do Prego, de Sidney Lumet, e que foi interpretado magistralmente por Rod Steiger. Sujeito met\u00f3dico e irasc\u00edvel que trata mal a freguesia e que, ao contr\u00e1rio do filme de Lumet, tem um cora\u00e7\u00e3o de ouro e \u00e9 isso que o salva. Os pregos, as dobradi\u00e7as, os metais de sua casa de ferragens representam a secura interior de algu\u00e9m entregue a uma situa\u00e7\u00e3o bizarra, a de se tornar desagrad\u00e1vel para fornecedores e amigos. \u00d3rf\u00e3o, o sujeito cresce mitificando os pais e se recusa a formar uma fam\u00edlia, j\u00e1 que teve a sua destro\u00e7ada. Mas seu conforto aparente ser\u00e1 demolido pela presen\u00e7a do jovem migrante.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o s\u00fabita do chin\u00eas no momento em que Darin curtia os avi\u00f5es vira sua vida. Ele \u00e9 empurrado para um conv\u00edvio que detesta, mas aprende que essa busca por uma fam\u00edlia que se perdeu desmascara as rotinas obsessivas que o aprisionam em hor\u00e1rios r\u00edgidos para dormir e acordar, em refei\u00e7\u00f5es id\u00eanticas todos os dias, e o seu esfor\u00e7o para permanecer s\u00f3 com sua cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias bizarras. A fonte desse h\u00e1bito est\u00e1 na guerra das Malvinas, tratada aqui com o desencanto e a dignidade merecidas, \u00e0 altura do sofrimento do povo na \u00e9poca (1982).<\/p>\n<p>A falta de sentido da vida est\u00e1 no fato de a guerra entre Argentina e Inglaterra ser um evento t\u00e3o bizarro quanto a morte do casal que cai no precip\u00edcio em pleno ato sexual devido ao entusiasmo e ao descuido provocados pelo \u00eaxtase. Ou a queda de uma vaca de um avi\u00e3o que interrompe uma sess\u00e3o de noivado. Mas na vasta cole\u00e7\u00e3o de recortes de jornal, uma hist\u00f3ria est\u00e1 ligada ao migrante que dele se aproximou por obra do acaso. A coincid\u00eancia aproxima os dois desenraizados e leva a um desfecho memor\u00e1vel .<\/p>\n<p>A viagem do protagonista interpretado por Darin \u00e9 de Buenos Aires em dire\u00e7\u00e3o ao interior do pa\u00eds, ou seja, de sua apar\u00eancia, de sua superf\u00edcie gasta pela pol\u00edtica e a economia destro\u00e7ada para a grandeza da tradi\u00e7\u00e3o e do prazer. Pular a cerca que o separa da felicidade \u00e9 o gesto supremo de algu\u00e9m marcado pelo sofrimento e que tem um olhar que mata, segundo a apaixonada admiradora, na mais contundente declara\u00e7\u00e3o de amor do cinema atual.<\/p>\n<p>O diretor Sebasti\u00e1n Borensztein (nascido em 1963), que est\u00e1 na mesma faixa de idade de Darin (1957), \u00e9 artista premiad\u00edssimo, principalmente na televis\u00e3o. Fez o filme do ano, que deve ganhar tudo, se ainda houver justi\u00e7a no mundo. Nos leva de uma situa\u00e7\u00e3o tristemente hil\u00e1ria para a emo\u00e7\u00e3o avassaladora do reencontro de personagens com seus destinos. Nos faz rir, nos faz chorar. Faz do detalhe a base da narrativa: cada pormenor se sintoniza com v\u00e1rios outros, para que as imagens confluam para o poder crescente de encantamento do roteiro. A vaca, o avi\u00e3o, a foto, assim como o prato t\u00edpico ou o doce que identificam uma na\u00e7\u00e3o, s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es dos passos das pessoas girando num mundo aparentemente sem sentido.<\/p>\n<p>O cinema amarra tudo ao cora\u00e7\u00e3o que percebe poeticamente a grandeza na escassez e a gl\u00f3ria no que parece ser um fracasso sem fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Fam\u00edlia \u00e9 na\u00e7\u00e3o. Quando o n\u00facleo familiar se dispersa, as fronteiras s\u00e3o invadidas, a soberania se esvai e o pa\u00eds pode desaparecer. 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